“Nós, os trogloditas” (E.M. Cioran)

OS VALORES não se acumulam: uma geração só produz algo novo pisoteando o que havia de único na geração precedente. Isto é ainda mais verdadeiro para a sucessão das épocas: o Renascimento não pôde “salvar” a profundidade, as quimeras, a espécie de selvageria da Idade Média; o Século das Luzes, por sua vez, só guardou do Renascimento o sentido do universal, sem o patético que marcava sua fisionomia. A ilusão moderna mergulhou o homem nas síncopes do devir: ele perdeu seus alicerces na eternidade, sua “substância”. Toda conquista – espiritual ou política – implica uma perda; toda conquista é uma afirmação… assassina. No domínio da arte – o único em que se pode falar de vida do espírito –, um “ideal” só se estabelece sobre a ruína do que o precedeu: cada verdadeiro artista é traidor de seus predecessores… Não há superioridade na história: república-monarquia; romantismo-classicismo; liberalismo-dirigismo; naturalismo-arte abstrata; irracionalismo-intelectualismo – as instituições, como as correntes de pensamento e de sentimento, se equivalem. Uma forma de espírito não saberia assumir outra, só se é algo por exclusão: ninguém pode conciliar a ordem e a desordem, a abstração e o imediato, o ímpeto e a fatalidade. As épocas de síntese não são criadoras: resumem o fervor das outras, resumo confuso, caótico – todo ecletismo é um índice de fim. A cada passo à frente sucede um passo atrás: é a infrutífera agitação da história, devir… estacionário… Que o homem tenha se deixado enganar pela miragem do Progresso é algo que torna ridículas todas as suas pretensões de sutileza. O Progresso? Talvez se encontre na higiene… Mas, em que outra parte?, nas descobertas científicas? São apenas uma soma de glórias nefastas… Quem, de boa fé, poderia escolher entre a idade da pedra e a dos utensílios modernos? Tão perto do macaco em uma como em outra, escalamos as nuvens pelos mesmos motivos que trepávamos nas árvores: só os meios de nossa curiosidade – pura ou criminosa – mudaram, e – com reflexos disfarçados – somos mais diversamente rapaces. É um simples capricho aceitar ou repudiar um período: é preciso aceitar ou repudiar a história em bloco. A ideia de progresso faz de todos nós presunçosos sobre os cumes do tempo; mas não existem tais cumes: o troglodita que tremia de pavor nas cavernas, treme ainda nos arranha-céus. Nosso capital de infortúnio mantém-se intato através das idades; contudo, temos uma vantagem sobre nossos ancestrais: o de haver empregado melhor esse capital, ao haver organizado melhor nosso desastre.

CIORAN, E.M., “Nós, os trogloditas“, Breviário de decomposição. Trad. de José Tomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.