“Silêncio, de Scorsese: ateísmo irônico, caridade, solidariedade” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

“Um inimigo é tão útil quanto um Buda.” — Como eu compreendo isso! Devo aos meus inimigos o fato de ter incorrido em menos erros que, caso contrário, teria cometido. Eles velaram por mim, eles velam sempre: minha gratidão por eles é sem limites.”

Cioran, Cahiers : 1957-1972

Capul plecat, sabia nu-l taie [Cabeça baixa, espada não corta]

Provérbio romeno

§

Para quem se interessa pela temática religiosa no cinema, não por um viés necessariamente confessional, o filme Silêncio (2016), de Martin Scorsese, é uma ótima pedida.

É uma adaptação dos relatos factuais de um navegante holandês que, no século XVI, em rota comercial com os japoneses, descobriria a existência anônima de ex-padres, missionários jesuítas católicos, convertidos ao budismo – os assim-chamados “padres caídos” (fallen priests).

“Silêncio” é a palavra-título do filme, paradoxalmente rica de significado, dotada de uma densidade semântica infinita no que permite expressar. Antes de tudo, trata-se da “expressão” por excelência de toda mística, cristã ou outra, a linguagem suprema por meio da qual os místicos de diferentes tradições religiosas são capazes de se comunicar e se entender. Também é o modo de elocução culminante do pensamento trágico, segundo Clément Rosset, o que criaria uma cumplicidade apofática de discurso entre o trágico e o místico.

O enredo coloca em cena duas gerações de jesuítas portugueses em território japonês com a missão de converter e catequizar a população local. Dois jovens jesuítas portugueses são encarregados de viajar ao Japão com um duplo propósito: descobrir o que aconteceu com os últimos missionários desaparecidos, suspeitos de apostasia (para a decepção maior da Companhia de Jesus), e dar continuidade ao programa de cristianização do Japão.

Um dos motivos centrais é a brutal inquisição e as inimagináveis formas de tortura às quais são submetidos os missionários. A direção de arte e fotografia da produção de Scorsese não ameniza, muito pelo contrário, as fortes cenas de sacrifício e martírio (a simples crucificação sendo o menor dos males) dos padres católicos nas mãos do imperador japonês.

O diretor, Martin Scorsese, não falha em suscitar, com inteligência, a dúvida (desconfiança ultrajada para alguns) sobre a sua posição mesma em relação aos eventos brutais que o filme retrata. Como julgar este encontro trágico e sangrento entre religiões, culturas, civilizações distintas? Quem está com a razão? Quem está errado? De que lado está a verdade? O que é a “verdade”? Qual o parti-pris (se algum) do diretor? São questões que não se pode deixar de levantar assistindo a Silêncio – e o título contém uma sugestão de como deveríamos nos posicionar, afinal, em relação a todas elas.

*

A paixão de espalhar o Evangelho para um povo tão distante, e tão distinto, mistura-se desde o início ao temor da perseguição e da morte. Por um lado, uma parcela considerável da população japonesa, pobre, demonstra-se totalmente receptiva à nova religião, que não tardam a abraçar; por outro lado, é recebida na ponta da espada, enfrentando a intolerância e a violência de um império que não mede esforços para preservar, intocadas, as suas raízes budistas.

Ficamos divididos então, à primeira vista, entre a piedade bem-intencionada dos jesuítas e a crueldade diabólica dos japoneses. Só que o buraco é mais embaixo, e Scorsese não é nenhum bobo. E, subliminarmente, ficamos a vislumbrar flashes do terror que não deve ter sido a Inquisição espanhola ou portuguesa, as Cruzadas contra os hereges…

Uma vez capturados e rendidos pelas forças imperiais, os missionários são forçados a apostasiar, ou enfrentar a morte lenta e dolorosa. Não apenas eles como – para o seu desespero maior – todos os convertidos japoneses serão torturados e mortos, diante de seus olhos, para que vejam o mal, o sofrimento, a morte que a sua presença voluntária está causando ali.  A maioria dos missionários – verdadeiros mártires – mantém sua fé até o final, aceitando o preço da morte para si mesmos e para tantos outros, japoneses convertidos. No caso de alguns poucos, o instinto de vida (conatus) falaria mais alto, de modo que prefeririam, no momento derradeiro, abjurar publicamente de sua fé cristã para salvar-se e tantos outros juntos. Um dos personagens centrais (muito embora não um dos protagonistas), o padre Ferreira, missionário da geração anterior (interpretado por Liam Neeson), é o primeiro dos “padres caídos”. Desde a sua apostasia e subsequente conversão ao budismo, foi dado oficialmente como desaparecido, ou morto. É uma questão de honra, para a nova expedição, encontrá-lo.

O dilema, a controvérsia ética é enorme: o que é a covardia? a bravura? virtude? humanidade? pecado? desumanidade? sensatez e flexibilidade? rigidez irredutível? fanatismo? realismo, inclusive em se tratando da vida do espírito? E não apenas: o que é, o que faz, para que serve uma… religião? Digamos, cristianismo, budismo, islamismo. Quais seriam os limites e condições de possibilidade de coexistência entre as religiões? Como chegar, se possível, a uma síntese, ainda que provisória, frágil, entre os postulados antagônicos e excludentes do teísmo e do ateísmo, entre fé e razão, dogmatismo e ceticismo – entre tantas outras oposições e tantos outros dualismos que se desdobram em problemas éticos e políticos tão atuais?

O mérito do filme – de onde o seu elemento de imprevisibilidade – é o de nos conduzir do início da narrativa, em que as autoridades japonesas budistas são retratadas como verdadeiros demônios torturadores, e os missionários cristãos como boas almas caridosas que estariam sendo trucidadas e martirizadas em nome de um amor desinteressado, que apenas o seu Deus pode oferecer, a um clímax e ao desfecho em que o conflito é colocado em perspectiva, em visão de conjunto (synopsis), a partir da justaposição dos discursos no ágon do enfrentamento.

Uma coisa é certa: os inquisidores do filme, ficção ou verossimilhança à parte, são inigualáveis psicólogos, no sentido essencial do termo. Seus métodos de tortura são dignos de um diabo dotado da mais sofisticada imaginação. E não o são todos os torturadores, ajam eles em nome de uma religião ou de um governo? Sua tática é tão mais eficiente quanto mental, ou mesmo espiritual: trata-se de arrasar, aniquilar interiormente, em sua estrutura psíquica, a vítima, até que não ofereça mais nenhuma resistência, que não tenha mais nenhuma força nenhuma para persistir em seu erro. E então apostasiará, para sua desgraça pública. Foi o que aconteceu com o padre Ferreira (Liam Neeson); é o que acontecerá com o protagonista, ao final, o jovem padre Rodrigues (interpretado por Andrew Garfield), homem devoto, cristão idealista, mas que nem por isso está imune a crises de fé, sobretudo diante de um dilema brutal como o que virá a enfrentar, como outros antes haviam enfrentado. Que fazer no seu caso? Reafirmar a fé, para a glória maior de Deus, manter a palavra a toda prova, custe o que custar? Ou então mentir, cometer apostasia da boca para fora, mantendo a fé no silêncio do coração, evitando assim que inquisidores cruéis exterminem dezenas e centenas de inocentes? O que é mais importante? Ou, para empregar uma palavrinha-chave tanto para Cioran quanto para Chestov (a partir de Plotino, το τιµιωτατον), o que é o essencial?

Um “inimigo” é tão útil como o Buda…

Entre a fé cristã apaixonada do jovem padre Rodrigues, determinado a elucidar o fim misterioso do padre Ferreira, e o budismo ortodoxo, de raiz, das autoridades imperiais japonesas, descobrimos a flutuação e a hibridez, mas também a profundidade e a estranha delicadeza do personagem Kichijiro. É um jovem abandonado, miserável, sem família, que teria supostamente sido convertido ao cristianismo pela delegação jesuítica inicial do padre Ferreira. Incontáveis vezes ao longo do filme, que tem quase três horas de duração, Kichijiro reafirma a sua natureza contraditória, volúvel, inconsistente, demonstrando fidelidade, desejo de confessar seus pecados, para em seguida trair os missionários, entregá-los às autoridades, colocando-os em apuros, e novamente tornando a arrepender-se, buscando reconciliar-se com eles…

Judas, pensar-se-á imediatamente, o próprio diabo, o tentador, colocando-se no caminho dos missionários a serviço de Deus. O próprio acaso faz com que, após ter sido traído uma vez, o padre Rodrigues termine por reencontrá-lo, sucessivas vezes. Numa destas vezes, após abrigá-lo e alimentá-lo no meio da selva, Kichijiro o vende às autoridades por 300 moedas (“Judas vendeu Jesus por 30”, fala o padre ao descobrir a traição). É uma cena importante, e bonita: após muito viajar, Rodrigues está exausto, faminto e sedento; ao encontrar Kichijiro na floresta, este inventa um pretexto para que o padre se demore no meio caminho, indicando-lhe em seguida um local onde há água fresca em fartura para beber. O padre então se desloca até a beira do riacho, onde se alterna entre o prazer de matar a sede e a curiosidade de olhar o próprio reflexo na água. O seu rosto na água substitui-se então pela imagem de Jesus, ao estilo de um ícone bizantino, e entra em êxtase com a revelação. Só que, logo em seguida, ao lado do reflexo de Jesus no lugar do seu rosto, na água, surge ao lado o reflexo de um soldado imperial com o seu típico capacete marcial.

Kichijiro trairá o padre muitas vezes. Não apenas o padre, como cometerá, mais facilmente do que todos, a apostasia suprema, em público, pisando nas imagens ou cuspindo nelas, só para salvar a própria pele. Há algo de idiota nele, de ingênuo até, apesar da maldade e do egoísmo aparentes. Sempre aparece à noite, inesperadamente, onde quer que o padre esteja encarcerado, maltrapilho como sempre, invadindo o recinto como um louco, desesperado para falar com Rodrigues. O padre não tarda a convencer-se de que é de fato o seu Judas pessoal, o diabo em pessoa que não desiste de tentá-lo na figura daquele pobre homem (só que não); tem medo da influência espiritual de Kichijiro, deseja manter distância dele, mas ao mesmo tempo não se recusa a atender aos seus pedidos de revê-lo e confessar-se; ao ser apresentado ao homem abjeto pela primeira vez, no porão de uma embarcação, como sendo um suposto cristão convertido, Kichijiro implora para ser levado de volta para o Japão, o seu lar: metáfora geopolítica de uma “pátria” no sentido espiritual, sendo esta uma realidade interior e invisível – primeiro argumento dialético contra a presença estrangeira do cristianismo no jardins budistas do Japão: “Eu quero ir para casa”, exclama o pobre diabo; “não por dinheiro, o Japão é o país da minha família. Por favor! Levem-me! Eu imploro! Não me abandonem aqui!”

Vê-se aí, nas entrelinhas, um budista, por alguma razão exilado, extraviado de sua “pátria”, implorando a missionários cristãos que o levem de volta a ela (‘não pelo dinheiro”, mas porque é “o país de sua família”). Noutra cena, antes de deflagrar-se todo o drama, enquanto está sentado no topo de um rochedo à beira-mar, junto com seu companheiro jesuíta, o também jovem padre Guarupe (Adam Driver), ouvimos uma locução em off do pensamento de Rodrigues: “Em Goto eu batizei mais de cem adultos e crianças, escutei incontáveis confissões, dei orientações e celebrei missas. Mas era de Kichijiro que eu mais sentia necessidade.” Confissão premonitória, cujos desdobramentos se darão na tensão entre a ambiguidade do pobre diabo, sua reiterada atitude traidora, e a importância última que ele revelará sobre o destino do padre “caído”.

Numa das cenas mais ao final do filme, após já ter sido enganado e traído diversas vezes, o padre Rodrigues depara-se com a presença de Kichijiro nos arredores de sua cela, em estilo japonês medieval, de madeira; ele insiste para entrar e falar com o padre. Contrariado, receoso, hesitante, ele o recebe, e escuta novamente a sua confissão. Há outros prisioneiros, japoneses convertidos, dentro da cela; todos desconfiam das armadilhas e trapaças de Kichijiro, apontam-lhe o dedo, acusam-no. Kichijiro se defende: “Eu sei que fedo… que fedo a pecado. Eu sei. Quero confessar de novo, para que o Senhor o senhor me purifique.” Ao ser questionado firmemente pelo padre, se realmente se arrependia, ele retruca: “Entende o que estou dizendo? Sim, padre, eu neguei. Sou um apóstata. Anos atrás. Eu poderia ter morrido como um bom Kirishitan (sic). Não houve perseguição. Agora, por que eu nasci? Isto é tão injusto, me desculpe…” – “Você ainda crê?”, pergunta o padre; Kichijiro abaixa a cabeça, sem poder responder. Após escutar sua confissão e perdoá-lo, outra vez o pensamento do padre Rodrigues, em off: “Pai, como Jesus pode amar um lugar como este? O mal está por toda parte. Sinto a sua força. Até mesmo a sua beleza. Mas não há nenhum mal neste homem. Ele não merece ser chamado de mau.”

Dialética da espada que reflete e decepa; dialética do “Vazio que se sorri a si mesmo” (Cioran)

Há um belo livrinho, de um filósofo alemão, Eugen Herrigel, intitulado A arte cavalheiresca do arqueiro zen. É um ensaio autobiográfico sobre a estadia do autor no Japão, onde se iniciaria, graças a um mestre zen-budista, na arte do arco e flecha, em que se tornaria também um mestre. Grosso modo, a arte do arco e flecha é uma metáfora, como outras (kung-fu, yoga, artes florais), ou antes um equivalente físico, de uma atividade ou exercício interior, espiritual. “O que nos surpreende na prática do tiro com arco e na de outras artes que se cultivam no Japão (e provavelmente também em outros países do Extremo Oriente)”, escreve D. T. Suzuki, no prefácio do livro, “é que não tem como objetivo nem resultados práticos, nem o aprimoramento do prazer estético, mas exercitar a consciência, com a finalidade de fazê-la atingir a realidade última.” Exercitar, exercício, ou seja, (em grego) askesis, de onde “ascetismo”, cujo objetivo último  exclusivo é a experiência-percepção da realidade última. Onde entra Deus aqui? Não entra, pois, é pura e simplesmente uma questão (exercício) de meditação, contemplação, autoconhecimento, lucidez, clarividência…

Ora, no conflito de interpretações entre Ocidente e Oriente, Cristianismo e Budismo, Deus e o Vazio, é possível ler o suplício, a tortura, todo o martírio imposto pelos inquisidores japoneses como uma forma de ascese radical com vistas à dissolução das convicções, dogmas, ilusões, apegos teológicos, enfim, que os cristãos traziam consigo pretendendo semeá-los em solo japonês. Assim como no livro de Herrigel, as fases iniciais dessa ascese iniciática são terríveis, cruéis, colocando o neófito entre a vida e a morte. Nestes estágios iniciais é que se descobrirá os que são determinados, resilientes, e os que desistem, derrotados pela primeira dificuldade. Quais sementes são aptas a germinar em solo japonês, e quais estão fadadas a fenecer, estéreis.

Assim também, como dito anteriormente, até a metade do filme mais ou menos os inquisidores são mostrados como assassinos cruéis que agem com a maior frieza do mundo, do topo de seu silêncio “zen” soberano. Até aqui, representam tudo o que uma religião pode ter de autoritário, institucional, estatal, normativo, exangue, etc. A partir de determinado momento, contudo, o seu comportamento (seu ethos) em relação aos estrangeiros indesejados muda significativamente, e de forma paulatina: a hostilidade, a intolerância, a execução sumária, tudo isso dá lugar, progressivamente, à hospitalidade, ao cuidado, ao diálogo. Rodrigues passa a alternar entre o ambiente insalubre da cela e os ambientes suntuosos dos templos e palácios, aos quais os líderes religiosos ou políticos o convidam regularmente para jantar e conversar.

Ao longo do filme há inúmeros diálogos inter-religiosos, a maioria dos quais em situações nas quais os missionários (Ferreira, Rodrigues) estão sendo entrevistados pelas autoridades políticas e religiosas japonesas. Se Kichijiro, o pobre diabo, é um personagem rico pela ambiguidade, pelo claro-escuro, pela dualidade insondável, outra figura que se destaca pela mesma característica, ainda que numa con-texto-figuração distinta, é o governador da província de Nagasaki, onde se desenrola o drama: um ancião de cabelos brancos presos em coque, com uma vozinha fina e um sorriso indefinível, entre o carisma e o sarcasmo; o seu ethos muda do autoritarismo violento e distante, com um ar de superioridade intragável, para uma abertura, uma proximidade ao diálogo de igual para igual, enfim, por uma sabedoria mansa e amável. Um dos argumentos – e o mais elementar – reiterados por diversas figuras (das autoridades) japonesas ao longo do filme, contra a presença dos missionários no Japão, é que eles mal conhecem a língua nativa, e tampouco parecem preocupados em aprendê-la, dominá-la, de modo a entender as estruturas mentais do povo. Assim, esperam chegar e falar de seu “Deus” e esperar que esta palavra se encaixe nas estruturas linguísticas e mentais daquele povo. As autoridades japonesas, em contrapartida, demonstram uma capacidade notável, com mais ou menos esforço, de entender-se com os forasteiros no idioma estrangeiro deles.

Vale a pena citar uma destas entrevistas inquisitoriais, em que o padre Rodrigues se apresenta diante de um conselho de sábios. Um deles começa dizendo: “A sua viagem foi longa, houve muitos perigos… O poder da sua determinação nos toca profundamente. Também sabemos que você sofreu demais. Não queremos agravar o seu sofrimento…” Estas palavras, muito embora enunciadas gentil e caridosamente, são mal recebidas por Rodrigues, que pressente a ameaça por detrás delas. E o samurai continua: “E só de pensar que nós podemos fazer isto é doloroso para nós também. Padre, a doutrina que você traz consigo pode ser verdadeira na Espanha e em Portugal. Mas nós a estudamos cuidadosamente… pensamos muito nela ao longo do tempo… e pensamos que ela é inútil, sem valor, no Japão. Concluímos que é um perigo.” Rodrigues não pode consentir com tal assunção, e retruca, indignado: “Mas nós acreditamos que trazemos a verdade, e a verdade é universal. É comum a todos os países em todos os tempos, é por isso que chamamos de verdade. Se uma doutrina não fosse verdadeira no Japão como é em Portugal, não poderíamos chamá-la de verdade.”

Ora, a proposição do padre Rodrigues é perfeita, só que em termos puramente formais: se a Verdade (universal, absoluta, uma, “verdade verdadeira”) é e só pode ser a Verdade, então logicamente deve ser reconhecida como tal no Japão, em Portugal, ou em qualquer lugar onde haja seres inteligentes. O que ele não entende, talvez por influência de uma teologia demasiado racionalista, especulativa, escolástica, é que discutir “o que é a verdade?” conduz inevitavelmente ao que, no contexto da filosofia medieval, é designado em termos da “querela dos universais”, de onde o nominalismo filosófico, que será decisivo na gênese da filosofia moderna (pós-metafísica, pós-teológica, secular, etc.). A teologia ocidental ficou muito preocupada em catalogar “os nomes da rosa”, em definir sua essência, em vez de cultivar as rosas da melhor maneira possível, desenvolvendo sementes mais fortes e preparando solos mais férteis…

Os anciãos escutam as últimas palavras do padre que defende seu ponto de vista, e reagem com uma expressão de relativa aprovação. Rodrigues se reanima um pouco. Até um dos sábios retrucar: “Vejo que você não trabalha com as mãos, Padre. Mas todos sabem que uma árvore que floresce em um tipo de terra, pode decair e morrer em outra. É o que acontece com a árvore do Cristianismo: aqui suas folhas caem, os frutos morrem…” Este mesmo motivo será retomado pelo padre Ferreira ao final, no último e mais decisivo diálogo. Ainda nesta entrevista, ao insistir em reafirmar a sua verdade uma vez mais, o jesuíta é recebido com gargalhadas por parte dos anciãos, que se levantam em seguida e se retiram.

“Verdade”: uma palavra tão vazia quanto perigosa… “Silêncio”, por sua vez, tão mais plena quanto pacífica, diplomática… A propósito, há um aforismo anedótico de Cioran que é tão profundo quanto cômico:

Recordo esse catedrático da Europa central que interrogava uma de suas alunas sobre as provas da existência de Deus; ela lhe cita os argumentos históricos, ontológicos etc., mas logo acrescenta que não acredita neles. O professor se irrita, repete as provas uma a uma; ela encolhe os ombros, persiste em sua incredulidade. Então o professor se levanta, roxo de fé: “Senhorita, dou-lhe minha palavra de honra que Deus existe!
… Argumento que, sozinho, vale todas as Sumas teológicas. (Silogismos da amargura)

Dostoiévski, por sua vez, teria dito que, se acaso descobrisse que o Cristo e a verdade não coincidem, não são idênticos, uma mesma realidade, ele optaria pelo Cristo em detrimento da “verdade”. A máxima do escritor russo vai na contramão da certeza abstrata e formalista do jesuíta Rodrigues: confiar antes no exemplo concreto, na imagem, na figura viva, que na teoria, no princípio abstrato, no dogma instituído, na instituição humana (corruptível, apesar de tudo)… A mesma postura é sustentada pelo filósofo italiano Gianni Vattimo: no dilema ético entre a necessidade de uma verdade objetiva (universal, absoluta, una, etc.) e a contingência de uma caridade-solidariedade desprendida de todo dogma, de toda instituição, Vattimo opta pelo segundo (é o seu modo de ser ao mesmo tempo cristão e ateu, postura heterodoxa que levaria Joseph Ratzinger a rejeitar um diálogo filosófico com ele).[1]

É, a bem da verdade, o procedimento de toda mística, não apenas cristã, a despeito de todo racionalismo e de todo irracionalismo, de toda teoria e de toda instituição. Certo de que pode ser tudo, o místico se dá o “luxo” de ser nada – e, no final das contas, dá na mesma. Onde provas são exigidas, ele as dá; onde não possuem razão de ser nem de não ser, não precisa dar-se o trabalho de forjá-las. Eis a postura pragmática – e prudente, afinal de contas – que aqueles samurais esperam dos missionários, e que no limite deverá levá-los, após todo o processo iniciático, à apostasia; postura que se poderia esperar de um místico (esses “ébrios de Deus”), não tanto de um pregador (“polícia de Deus”); digamos, como o cristão Meister Eckhart ou o muçulmano – sufi – Rûmî, este último tendo declarado: “Não me reconheço como cristão, judeu ou muçulmano; nem como alguém do Ocidente ou do Oriente, nem ‘das minas da terra ou do céu’. Não me reconheço como sendo feito de terra ou argila, mas como alguém que habita na sombra do Amado.” Pode-se inventar mil e um apelidos e epítetos para o Amado, mas no fundo sabemos que a Sua Essência é inominável, impensável, rejeitando todo nome, toda forma, toda definição…

Cioran também tem algo a dizer para incrementar a discussão: “Nós nos perdemos em textos e em terminologias: a meditação é um dado desconhecido para a filosofia moderna”, e também para seus progenitores, a metafísica e a teologia; “no que se refere aos grandes problemas, não temos nenhuma vantagem sobre nossos antepassados sobre nossos predecessores mais recentes: sempre se soube tudo, ao menos no que concerne ao Essencial; “a filosofia moderna não acrescenta nada à filosofia chinesa, hindu ou grega. […] Todos os extremos do pensamento foram alcançados desde sempre e em todas as civilizações. Seduzidos pelo demônio do Inédito, esquecemos rápido demais que somos os epígonos do primeiro pitecantropo que se pôs a refletir.” (Breviário de decomposição).

Antes do diálogo final (o encontro entre Ferreira e Rodrigues), é válido citar o diálogo entre o neófito e o governador da província, Inoue (o ancião grisalho de coque samurai e risadinha engraçada). O governador convida-o à sua residência para uma conversa. Pede desculpas humildemente, apesar da diferença hierárquica entre eles, por não tê-lo convidado antes, pois estava ocupado com alguns afazeres administrativos. Conta-lhe então uma alegoria, “mais interessante do que bonita”: é a estória de um governante próspero, tão próspero, que acumulou quatro concubinas. Todas eram lindas, mas não paravam de brigar entre si e criar intrigas, inventando mentiras umas sobre as outras junto ao senhor. Rodrigues comenta que é uma bela história, aproveitando para acrescentar que a sua Igreja ensina a monogamia. Então, para que não haja dúvidas, o ancião explica a moral da história: “O daimyo é como o Japão. E essas mulheres são a Espanha, Portugal, a Holanda, a Inglaterra, cada uma sussurrando coisas más, mentiras terríveis sobre as outras no ouvido dele. Cada uma tentando tirar vantagem contra a outra, destruindo a casa no processo. Se você pensa que este homem é sábio, então deve entender porque nós devemos banir o Cristianismo.”

SILENCE

A mais fina, a mais profunda dialética é travada entre o anfitrião e o convidado. Inoue, o ancião bonachão, insiste na alegoria das quatro concubinas; pretende conduzi-la às suas últimas conclusões. Dando continuidade à discussão, Rodrigues pergunta se o Japão não deveria escolher uma esposa fiel, dentre as quatro concubinas. Inoue responde com outra pergunta, retórica (sabe que não): “Portugal?” – “Não, eu me refiro à Santa Igreja”, logo esclarece o padre. O ancião então argumenta que seria melhor para o daimyo (senhor feudal) esquecer as mulheres estrangeiras e escolher uma dentre as suas. “Nacionalidade não é tão importante num casamento”, contesta Rodrigues, concluindo: “O que importa é amor e fidelidade…” Inoue o conduzira aonde queria, fazendo-o crer que a questão sobre a escolha entre as quatro concubinas poderia ser tão simploriamente tratada e resolvida; socraticamente, pergunta: “Bem, do meu, do nosso ponto de vista… que nome se dá para uma mulher que não pode ter filhos?” – “Estéril” (Barren). “Certo, uma mulher estéril não pode ser uma verdadeira esposa”, no que está subentendido que o Cristianismo, no Japão, não importa se oriundo de Portugal, Espanha, Holanda ou Inglaterra, será fatalmente uma “mulher estéril”. Padre Rodrigues insiste naquilo que é mais bem treinado, a casuística: “Mas se o Evangelho se perdeu aqui, a culpa não é da Igreja. É culpa daqueles que arrancam os fieis de sua fé, como o esposo da esposa.” O ancião pergunta quase que por reflexo: “Você quer dizer, eu?”

Ainda não caíra a ficha em definitivo, para Rodrigues, sobre a razão pela qual ele havia tido, anteriormente, a intuição solitária de que Kichijiro – o pobre diabo, o “Judas” japonês – era aquele, dentre todos os novos cristãos, de que ele mais sentia a falta; aquele ser abjeto que, no fundo do porão de uma embarcação, no início da expedição, implorava para que eles, missionários cristãos, o levassem de volta para casa, para o  seu lar, no Japão, onde estava a sua família, a sua raiz, a sua pátria espiritual. Últimas palavras da discussão: “Padre, parece que vocês, missionários, não conhecem o Japão…” – “E o senhor, honorável Inquisidor, parece não conhecer o Cristianismo…” Silêncio e olhar penetrante da parte do ancião, paciência limítrofe, respiração profunda, expressão amigável (e penetrante até a medula), apesar de tudo… Inoue respira fundo, fecha os olhos…: “Padre, existem aqueles… muitos… que veem a sua religião como uma maldição. Não é o meu caso. Eu vejo diferentemente. Mas ainda assim perigosa…” O ancião se levanta e, antes de despedir-se, conclui: “Gostaria que você pensasse sobre o amor insistente de uma mulher que não se quer. E sobre como uma mulher estéril nunca deveria ser uma esposa…”

Kengiroku, ou a Grande Desilusão

Rodrigues está sentado no chão da varanda de um templo, olhos marejados, expressão desolada, meio catatônico, quando vê se aproximarem um ancião, e, logo atrás, dele, um homem alto de aparência europeia, ambos vestindo quimonos… É o padre Ferreira, acompanhando um sacerdote budista. Finalmente, o encontro… A situação é constrangedora, nem um pouco espontânea, dificílima tanto para o jovem padre, ainda aquém da apostasia, quanto para o ex-padre Ferreira, apóstata, agora monge budista, casado com uma japonesa, líder comunitário, autor de livros educativos (budistas) e importante figura social na província de Nagasaki. De fato, Ferreira havia renunciado ao ministério, à fé cristã, rendendo-se ao paganismo oriental; Rodrigues não podia acreditar, a sua decepção era infinita, mortal… Ferreira senta-se no chão, de frente para Rodrigues; a conversa começa truncada, sem jeito: “Padre Rodrigues, faz tanto tempo que nós conhecemos… por favor… diga alguma coisa.” – “O que eu poderia dizer a você numa situação como esta?”, responde Ferreira; “Se você tem piedade por mim, por favor diga algo…”, implora o jovem jesuíta, em lágrimas, desabando diante daquele que esperava encontrar.

Os ânimos se recompõem, eles reiniciam a conversa, com mais calma. Ferreira conta que está naquele lugar há um ano, explicando que é um templo chamado Saishoji. É onde ele vive e estuda. “Você foi meu professor, você foi meu confessor…”, lamenta-se Rodrigues; “Continuo (posso continuar) sendo o mesmo…”, responde Ferreira — Corte para a cena de Rodrigues pendurado de cabeça para baixo, a cabeça a um nível abaixo do solo, dentro de um buraco cavado na terra, quando do fundo surge o governador, Inoue, que lhe diz: “Faça me uma única, simples coisa, Padre. Abandone-se. Quando você compreender, perfeitamente, sem dúvida, vai concordar… é a única maneira…” – a cabeça do padre Rodrigues, voltada para baixo por seu corpo pendurando, movimenta-se num gesto de expressão afirmativa…

O intérprete da entrevista, um samurai, interrompe a conversa para dizer que Ferreira dedica o seu tempo escrevendo livros sobre astronomia; o ex-padre, surpreso pela  intervenção, aproveitar a deixa para explicar que tem vivido uma vida feliz e utilizado o seu tempo para fazer algo de bom, algo de útil. Afirma que é recompensar sentir-se útil neste país tão estranho, tão diferente daquele do qual veio. Lágrimas e decepção em Rodrigues; simplesmente não pode crer no que está ouvindo. “Então, você está feliz?”, pergunta ele, esperando algum tipo de expressão de má consciência ou culpa; após alguns segundos, um silêncio pensativo de Ferreira oscilando entre a timidez e a ironia, ele responde: “Eu já disse que estou…”, ou seja, não precisa me perguntar novamente a mesma coisa.

O samurai-intérprete interrompe uma segunda vez, pedindo que Ferreira fale do novo livro que está terminando de escrever. É a deixa para a desilusão final de Rodrigues. Ferreira, sensibilizado com a dor do jovem irmão, hesita em falar; o próprio intérprete se adianta e explica: “Chama-se Kengiroku; ele demonstra os erros do Cristianismo e refuta os ensinamentos de Deus. Você entende o título?” Rodrigues está mudo, estarrecido; busca o rosto de Ferreira, esperando encontrar em seus olhos alguma manifestação de vergonha, culpa; Ferreira apenas baixa a cabeça. “Conte a ele”, sugere o samurai; “Kengiroku significa ‘mentira revelada’, ou ‘desmascarada’, se preferir um estilo mais literário… O Senhor Inquisidor leu o manuscrito, e gostou… Disse que está bem feito…” Rodrigues, prestes a surtar, chacoalhando a cabeça em negação: “Você usa a verdade como veneno!” – sentencia, inconformado, arrasado; “Que coisa mais engraçada para ser dita por um padre!”, intervém com  um sorriso o samurai.

Rodrigues continua esperando, exigindo, de Ferreira (o Apóstata), uma explicação, uma resposta, uma palavra que seja; o monge está claramente sensibilizado, comovido, abalado pela situação, pelo sofrimento, pela decepção de Rodrigues. “É cruel, pior do que qualquer tortura, destroçar assim a alma de um homem!”, exclama o jovem. Não, meu jovem, não é pior; é infinitamente pior ser torturado na pele, na carne, concretamente, ser retorcido, trucidado, destroçado, crucificado ou queimado, do que ser “traído” em seus dogmas e caprichos de clubinho local que se pretende universal! É infinitamente pior permitir que inocentes morram torturados e humilhados para que a palavra de honra seja preservada, do que impedir o extermínio de inocentes ao custo de renegar um hino, falar mal de um ser, abjurar de um dogma, cuspir numa maldita – e insignificante – imagem! É o dilema supremo diante do qual cada um reagirá como lhe cabe, como lhe foi dado responder…

Ferreira então diz: “Fui instruído a fazer com que você abandone a fé”, e vira para trás a cabeça de modo a mostrar para Rodrigues uma cicatriz atrás da orelha. “Isto é do poço. Você é amarrado de cabeça para baixo e eles fazem a incisão. Você sente o sangue escorrendo por sua bochecha, gota a gota. Ele não vai direto para a cabeça, e demora até você morrer…” Não se trata apenas de uma provação pessoal, individual, como também dezenas de outras pessoas, inocentes, cristãos convertidos, estão neste exato momento de cabeça para baixo no poço, com o sangue pingando lentamente por suas bochechas. Que fazer? Que decisão tomar? Novamente o samurai interrompe: “Ele [Ferreira] é apenas um homem prático, Padre, não é ninguém cruel…” Ferreira se aproxima do rosto de Rodrigues, ainda fala com calma, porém cada vez mais enfaticamente: “Estou aqui neste templo há um ano. Trabalhei neste país por quinze anos. Conheço-o melhor do que você. Nossa religião não se enraizará neste país…” – “Porque as raízes foram arrancadas!”, protesta Rodrigues. “Não!”, responde enfaticamente Ferreira, falando agora com firmeza, veementemente, olho no olho, sem a timidez ou a vergonha de antes; “Este pais é um pântano. Nada cresce aqui. Plante um brotinho, e ele morre…”

O Japão é um pântano; o Oriente Médio é um deserto; a América do Sul é (ou era) uma floresta tropical… religiões do pântano, do deserto, da floresta tropical… religiões são, com efeito, fenômenos e produtos de seus respectivos meios, cenários específicos, geografias e climas nos quais germinam e se desenvolvem; fora deles, caso queiram expandir-se, é uma navegação ousada, temerária, eventualmente trágica; as sementes boas para um determinado terreno, a linguagem falada num determinado cenário, pode ser que tudo isso não apenas não corresponda às demandas locais, como, pior ainda, entre em sérios conflitos com elas. Religiões podem expandir-se, florescer, sem dúvida, misturar-se, coabitar, fundir-se, interpenetrar-se, coexistir em suma, sem precisar perder nada cada uma delas, absolutamente nada, de seus respectivos “patrimônios”; mas este é um sonho místico, um devaneio bêbado, balbuciado por um idiota solitário… O que se perde, é que nunca foi possuído, nunca foi nada verdadeiramente; o essencial não se perde, como não se adquire.

 Dialética e silêncio

É uma longa conversa entre Rodrigues e Ferreira, cujo nome japonês é doravante Sawano Chuan. Os argumentos finais são importantes. Sawano Chuan assevera ao discípulo que os autóctones japoneses nunca acreditaram senão numa distorção do Evangelho, numa edição toscamente adaptada, enxertada, para exportação, na cultura japonesa. “Eles nunca acreditaram, no fundo, em nada disso”, argumenta o Apóstata. “Como você pode dizer uma coisas dessas?”, rebela-se Rodrigues; “desde os tempos de São Francisco de Assis, até hoje, tivemos milhares de convertidos aqui!” – “Convertidos? Francisco de Assis veio para cá para ensinar aos japoneses sobre o filho de Deus. Mas antes ele precisou perguntar como referir-se a Deus. Dainichi, disseram. Deixe-me mostrar Dainichi para você” – Ferreira aponta para o Sol poente… “Olhe, lá está o filho/sol [son/sun] de Deus, o único filho de Deus. Nas escrituras, Jesus nasceu no terceiro dia; no Japão, o sol/filho de Deus nasce todos os dias… Os japoneses não concebem a existência fora do domínio da natureza; para eles, nada transcende o humano; eles não entendem a nossa ideia do Deus cristão…”

Com muita resistência, muito sofrimento, muita abnegação, padre Rodrigues é capaz de declarar apostasia diante da corte marcial. Precisa apenas repisar uma imagem do Cristo posicionada no chão, no meio da arena, diante dos Inquisidores. A cena, em câmera lenta, é belíssima, e dolorosa. Ele não sabe que decisão tomar, mas ainda assim toma; não quer ser a causa direta de nenhuma tortura, nenhum sacrifício, mas tampouco quer abjurar e trair a sua fé, o seu Deus, Jesus. Rodrigues pisa na imagem, e cai no chão, em agonia, contorcendo-se. Cenas da sua apostasia são embaralhadas com cenas da apostasia de Ferreira… e de volta para a entrevista entre os dois:

RODRIGUES: Eu vi homens morrerem por Deus! Eles estavam inflamados por sua fé!

FERREIRA: Fé no deus errado! O deus deles, não o nosso! E onde é que a nossa Igreja… a sua Igreja… inscreve fieis no Deus errado? Seus mártires podem ter conhecido a fogueira, Padre, mas não com fé.

RODRIGUES: Não! Eu os vi morrer! Aquelas pessoas não morreram por nada!

FERREIRA: De fato, não… Morreram por você.

RODRIGUES:   E quantos você salvou quando pisou na imagem do Nosso Senhor??? Quantos além de você???

FERREIRA: Não tenho certeza… certamente não tantos quantos os que você pode salvar.

RODRIGUES: Você está apenas tentando justificar a sua fraqueza… Deus tenha misericórdia de você!

FERREIRA: Qual deus? Qual? Nós dizemos… “Montanhas e rios…” – ele pausa; “Desculpe, lembrei que você não aprendeu o idioma bem. É um ditado que existe aqui… ‘Montanhas e rios podem ser movidos’. Mas a natureza do homem não pode ser movida’. É muito sábio, como muito do que se encontra aqui. Nós encontramos a nossa natureza original no Japão, Rodrigues. Talvez seja isto o que você quer dizer por “encontrar Deus”…

RODRIGUES: Você é uma desgraça, Padre. Nem mais posso chamá-lo assim…

FERREIRA: Está bem, eu tenho um nome japonês agora. E uma esposa. E filhos. Herdei-os de um prisioneiro que foi executado…

Nesta narrativa em particular, um jesuíta converte-se ao budismo compulsoriamente, como condição de seguir são e vivo; um dilema trágico, que poderia ser tão abstrato quanto uma especulação teológica, tornar-se-ia uma questão de vida e morte, um espinho, uma navalha, uma espada na carne – não apenas sua, mas de centenas e dezenas de inocentes. Rodrigues acaba adaptando-se, gostando de sua nova “identidade” budista-japonesa; vai viver uma vida pacata e feliz (como o Jesus o filme A última tentação de Cristo, baseado no romance de Nikos Kazantzakis).

Há, naturalmente, infinitas outras narrativas em que o convertido é o conversor, o mártir o inquisidor, a vítima o algoz, a presa o predador… Não há religião melhor, mais verdadeira, nem pior, mais falsa, do que outra; todas são igualmente boas e igualmente más, verdadeiras e falsas, absolutas em si e relativas perante as demais… Todos os deuses são divinos, como tudo está vazio de deuses; teísmo e ateísmo, monoteísmo e politeísmo, ceticismo e dogmatismo, gnosticismo e agnosticismo, espiritualismo e materialismo, enfim, tantos dualismos, tantas piruetas, tantos embaraços, caretas da lucidez vazia, bocejos do espírito cansado, sobrecarregado de Ilusão…

O que importa é o que importa, o Essencial é o Essencial, e isso cada um de nós sabe desde sempre o que é.

Rodrigues, “padre caído”, doravante monge budista, vive o resto de seus dias tranquilamente em Nagasaki. Casado, com filhos, cidadão finalmente respeitado e reconhecido, após tanta provação, tanta humilhação. Morre em idade avançada; tem um funeral tradicionalmente budista: os restos mortais não na horizontal, num caixão, mas de cócoras, num barril de madeira que será cremado. Na cena final, magistralmente concebida em termos estéticos, os sacerdotes ateiam fogo ao barril com o morto, a câmera inicialmente do lado de fora dá um close cada vez maior até penetrar o fogo e o barril, onde, lá dentro, os restos mortais de Rodrigues começam a reduzir-se a cinzas. Close nas suas mãos fechadas e pressionadas contra o peito: no meio delas, um crucifixo rústico de madeira, presente artesanal de um camponês convertido…

Post-scriptum

Poderia intitular-se “Fé”, “Dogma”, “Paixão” ou “Tentação” de Cristo, “Nirvana”, “As Quatro Nobre verdades”, “A Iluminação de Sidharta Gautama”, etc., só que não: chama-se Silêncio

Em seu estudo sobre o “desafio da mística comparada”, o teólogo Faustino Teixeira coloca a questão do fundamento e do valor epistemológico de uma pretendida “unidade transcendente das religiões”, tese defendida por muitos, repudiada por tantos outros. Grosso modo, a discussão é dominada por pensadores contextualistas (mais ou menos ortodoxos), de um lado, e “perenialistas” (místicos), de outro. Faustino nos força a lembrar que “a experiência mística, como qualquer outra experiência, não escapa à dinâmica da interpretação, sendo assim partícipe do discurso das tradições e sociedades marcadamente particulares” (TEIXEIRA, 2004, p. 13-14).

O objetivo de Faustino Teixeira é pensar a possibilidade, e as condições dessa possibilidade, de um diálogo verdadeiramente inter-religioso. Espíritos não contextualistas, não não racionalistas, concordarão com a proposição de Simone Weil, citada por Teixeira: “Os místicos de quase todas as tradições religiosas coincidem até a identidade.” (TEIXEIRA, 2004, p. 14).

O diálogo inter-religioso é uma sinfonia sedutora, irresistível, argumenta o autor. “O encanto que acompanha esta possibilidade não pode, porém, ocorrer desconhecendo ou relegando o que há de único e irrevogável em cada religião. Não se pode transcurar, violar ou apagar o dado essencial da diversidade entre as religiões” (TEIXEIRA, 2004, p. 14). O que tampouco significa renunciar ou renegar as suas raízes, a sua tradição, o solo e aroma do solo em que se nasceu e cresceu. O método místico pauta-se numa “imaginação analógica” e mais poética do que científica, segundo o teólogo David Tracy. “Para esse autor”, escreve Teixeira, “ faz sentido falar em profundas semelhanças entre determinadas experiências místicas, mas tais semelhanças constituem sempre analogias, ou seja, ‘semelhanças na diferença’” (TEIXEIRA, 2004, p. 14). Para concluir, algumas proposições de Faustino Teixeira em favor da possibilidade, fundada no mistério da alteridade e da diversidade, de um verdadeiro diálogo inter-religioso:

“Há um nível mais profundo de comunicação dialogal, que ocorre no âmbito da mística, e que Thomas Merton identifica como ‘comunhão acima do nível das palavras’. Trata-se de uma ‘comunicação em profundidade’, para além de uma simples troca de ideias, conhecimento conceitual ou formulações de verdade.”

“Os místicos partilham da consciência viva da limitação do humano diante do mistério impenetrável. A mística sufi dispõe de um termo técnico particularmente significativo dentre aqueles utilizados para descrever as etapas do itinerário espiritual. Trata-se do termo ‘estupor’ (hairah), que pode ser identificado com a ‘embriaguez metafísica’ daquele que permanece atônito diante da realidade da união suprema.”

“Os místicos do islã usam o símbolo da roda. No centro encontra-se a atitude fundamental de abandono e entrega a Deus. Os membros de cada tradição religiosa encontram-se no exterior da circunferência e, à medida que aprofundam sua identidade e avançam no conhecimento de sua tradição, aproximam-se do núcleo da roda. Os que se contentam em permanecer nas bordas da roda acabam acreditando que são os únicos a possuir a verdade. Os que avançam para o interior acabam reencontrando todos os outros que partiram de outros pontos da circunferência.”

“Em síntese, a experiência mística provoca necessariamente um aprofundamento de si, um despojamento e desapego que impulsionam o sujeito para a dinâmica da alteridade. Não é fácil atingir um tal desapego. Trata-se de um processo lento, complexo e permanente, que faz brotar uma atitude de total abertura. Para desenvolver tal atitude, o ser humano precisa esvaziar-se totalmente “no querer, no saber e no ter” (Meister Eckhart), ou como expresso na tradição mística islâmica: “morrer antes de morrer” (TEIXEIRA, 2004, p. 30-1).

[1] Cf. RORTY, Richard; VATTIMO, Gianni; ZABALA, Santiago (org.). O futuro da religião: solidariedade, caridade e ironia. Trad. de Eliana Aguiar e Paulo Ghiraldelli Jr. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006.

[2] TEIXEIRA, Faustino, “O desafio da mística comparada”, in TEIXEIRA, Faustino (org.), No limiar do mistério. São Paulo: Paulinas, 2004.

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