“As virtudes metafísicas do cansaço” (Cioran)

“Pour oublier des chagrins et se détourner des obsessions funèbres il n’y a rien de tel que le travail manuel. Je m’y suis adonné pendant quelques mois, en bricoleur, avec le plus grand profit. Il faut fatiguer le corps afin que l’esprit n’ait plus d’où tirer de l’énergie pour s’exercer, divaguer ou approfondir.”

[Para esquecer as infelicidades e se desviar das obsessões fúnebres, nada melhor que o trabalho manual. Durante meses me dediquei a consertar coisas, com o maior proveito. É preciso fatigar o corpo de modo que o espírito não tenha mais de onde tirar a energia para exercitar-se, divagar ou aprofundar.]

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“Ma « vocation » était de vivre à l’air, de faire du travail manuel, de bricoler dans une cour, dans un jardin, et non de lire ni d’écrire. Au fond, la plus grande rupture que j’aie vécue ce fut celle qui eut lieu en 1920, date à laquelle je dus quitter mon village natal, dans les Carpates, pour aller au lycée, à Sibiu. Plus de quarante ans se sont écoulés depuis, et pourtant je ne peux oublier le déchirement de dépaysé que j’éprouvais alors, et que j’éprouve toujours sous une autre forme.”

[Minha “vocação” era viver ao ar livre, trabalhar manualmente, fazer remendos num quintal, num jardim, não ler ou escrever. No fundo, a maior ruptura que vivi  foi aquela que se deu em 1920, data em que abandonei o meu vilarejo natal, nos Cárpatos, para ir ao liceu em Sibiu. Mais de quarenta anos se passaram desde então, e no entanto não posso esquecer o dilaceramento de perdido que experimentei então, e que experimento sempre, sob outra forma.]

§

“J’étais fait pour le travail manuel, pour vivre dehors, pour bouger et m’affairer à la campagne, auprès des bêtes, et non pour me confiner dans une chambre, à une table de « travail », penché sur un papier éternellement blanc.”

[Eu fui feito para o trabalho manual, para viver ao ar livre, me mexer e me ocupar no campo, junto aos animais, e não para me confinar numa câmara, a uma mesa de “trabalho”, debruçado sobre uma folha de papel eternamente branca.]

1927

“Le salut par les bras. Il y a quelque chose de rédempteur dans le travail manuel.”

[A salvação pelo braço. Há algo de redentor no trabalho manual.]

§

“La seule chose qui me fasse absolument du bien est le travail manuel. Rien d’autre ne saurait me rendre heureux, car rien d’autre ne suspend agréablement le tourbillon des interrogations sans réponse.”

[A única coisa que me faz um bem absoluto é o trabalho  manual. Nada mais saberia fazer-me feliz, pois nada mais suspende agradavelmente o turbilhão das interrogações sem resposta.]

§

“Il n’est qu’un remède à l’anxiété, ou à l’ennui: le travail manuel. Je m’en rends compte tous les jours. Aussi je m’y applique aussi souvent que je peux, rien n’étant plus réel chez moi que ma vocation de bricoleur.”

[Só há um remédio para a ansiedade ou para o fastio: o trabalho manual. Eu me dou conta disso todos os dias. Entrego-me a ele tanto quanto posso, e nada é mais real em mim do que a minha vocação de homem de consertos.]

§

“Les seuls moments qui me comblent sont ceux où, en marchant ou en faisant quelque travail manuel, mon esprit s’assimile aux objets, est objet.”

[Os únicos momentos que me preenchem são aqueles em que, caminhando ou fazendo qualquer trabalho manual, meu espírito se assimila aos objetos, ele é objeto.]

1927

“21 novembre – Pendant deux heures, j’ai essayé de réparer le lavabo où il y avait une fuite. J’y suis arrivé mais je me suis fait mal à la main. C’est toujours de cette façon que finissent mes aventures de plombier. Il faudrait s’habituer à la vue du sang. L’objet n’a de réalité que pour le travailleur manuel. Il n’en a aucune pour celui qui en parle dans l’abstrait.”

[21 de novembro – Eu tentei, durante horas, consertar o lavabo onde havia um vazamento. Consegui fazê-lo, mas machuquei a minha mão. É sempre dessa maneira que eu termino as minhas aventuras de encanador. Seria necessário habituar-se à vista do sangue. O objeto só tem realidade para o trabalhador manual. Não possui nenhuma realidade para quem fala dele de modo abstrato.]

§

“Réfléchir, c’est peser les choses, c’est sentir ce qu’elles valent. Cela est mauvais.
C’est pourquoi le travail manuel est si salutaire. Des choses, il empêche justement de mesurer le poids, excepté leur poids physique … Examiner leur valeur intrinsèque, leur teneur est l’oeuvre de la réflexion. Rien ne survit à cet examen.”

[Refletir é pesar as coisas, é sentir o que valem. Isto não é bom. É porque o trabalho manual é tão salutar. Ele impede justamente de medir as coisas, exceto o seu peso físico… Examinar o seu valor intrínseco, o seu teor, é obra da reflexão. Nada sobrevive a este exame.]

§

“Réfléchir va plus loin que penser; penser n’engage à rien; on peut être un penseur profond et n’avoir rien compris; la réflexion se situe à un autre niveau : on peut avoir tout compris, sans même faire figure de penseur. La réflexion est une calamité intime, consubstantielle; et qui n’a rien à voir avec les diverses épreuves qu’on peut subir. C’est une lumière de naissance.”

[Refletir vai mais longe que pensar; pensar não compromete em nada; pode-se ser um pensador profundo e não ter compreendido nada; a reflexão se situa em outro nível: pode-se ter compreendido tudo, sem sequer ter ares de pensador. A reflexão é uma calamidade íntima, consubstancial; e que não tem nada a ver com as diversas provações pelas quais se pode passar. É uma luz de nascimento.]

1929

“Il faudrait trouver la raison pour laquelle la chose, la seule, qui me fasse encore plaisir est le travail manuel. Il me semble que j’aie rejoint le point de départ de l’homme, que je suis en train de retrouver le temps bienheureux d’avant le cerveau.”

[Seria preciso descobrir a razão pela qual a coisa, a única coisa que ainda me dá prazer é o trabalho manual. Parece-me que reintegrei o ponto de partida do homem, que estou prestes a reencontrar o tempo bem-aventurado anterior ao cérebro.]

CIORAN, E.M., Cahiers : 1957-1972. Paris : Gallimard, 1997.

Trad: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes