“Os pobres de espírito” (E.M. Cioran)

OBSERVE COM QUE ENTONAÇÃO um homem pronuncia a palavra “verdade”, a inflexão de segurança ou de reserva que põe nela, o aspecto de credulidade ou dúvida, e ficará instruído sobre a natureza de suas opiniões e a qualidade de seu espírito. Não há vocábulo mais vazio; todavia, os homens fazem dele um ídolo e convertem seu sem-sentido em critério e meta do pensamento. Esta superstição – que desculpa o vulgo e desqualifica o filósofo – resulta da invasão da esperança na lógica. Repetem: a verdade é inacessível: no entanto, é preciso buscá-la, tender a ela, empenhar-se por ela. Esta é uma restrição que em nada os separa dos que afirmam havê-la encontrado: o importante é crer que é possível: possuí-la ou aspirar a ela são dois atos que procedem de uma mesma atitude. De uma e de outra palavra faz-se uma exceção: terrível usurpação de linguagem! Chamo pobre de espírito todo homem que fala da Verdade com convicção e que tem maiúsculas de reserva, e serve-se ingenuamente delas, sem fraude nem desprezo. No que diz respeito ao filósofo, a menor complacência com esta idolatria o desmascara: o cidadão triunfou nele sobre o solitário. A esperança que emerge de um pensamento entristece ou faz sorrir… Há uma espécie de indecência em pôr demasiada alma nas grandes palavras: a infantilidade de todo entusiasmo pelo conhecimento… Já é hora de que a filosofia, lançando o descrédito sobre a verdade, liberte-se de todas as maiúsculas.

CIORAN, E.M., “Os pobres de espírito”,  Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.