Portal E.M.Cioran/Br: 8 anos de (in)existência

“Uma dica secreta para conhecedores”

Convidam-me a um colóquio no estrangeiro porque necessitam, ao que parece, de minhas vacilações. O cético a serviço de um mundo agonizante.

Devemos corrigir tudo, até os soluços… — CIORAN

No Fédon, Platão levanta uma discussão sobre as ideias do grande e do pequeno, do maior e do menor, do muito e do pouco. Platão é só um pretexto para adiantar o motivo deste texto. O Portal E.M.Cioran./Br completou 8 anos em 2018 e bateu uma dupla marca: 100.000 visitantes, 250.000 visualizações. São, no total, desde 2010, 860 publicações: mais de duzentas em português, quase o mesmo número em espanhol; 150 em francês; uma centena em inglês, dezenas em romeno, e também em italiano, alguma coisa em alemão e outros idiomas.

Pode parecer pouco. Mas não se trata aqui de nenhum best-seller, de nenhum guru de autoajuda, de nenhum escritor popular; também nenhum Platão; um marginal, um outsider que fez de tudo para permanecer obscuro, incompreendido, seguindo à risca a regra de ouro: “Manter uma imagem incompleta de si”. Mas a tarefa, o destino do leitor é trair o autor, e a escritura é uma traição mortal, um assassinato que nunca acaba, que não começa, que não pode ser, nem deixar de ser.

Para um autor “maldito”, é até demais. Talvez deva preocupar: em 8 anos, pessoas de todos os países, em todos os continentes, buscaram por Cioran na internet. Eventualmente, encontraram aqui o que buscavam. Leitores de todas as Américas, de grande parte da África, de toda a Europa, salvo um ou dois países, da Ásia, da Oceania. Sinal dos tempos?

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Cioran é um autor que não se costuma apresentar, ou presentear, para qualquer pessoa (a avó, no Natal, o pai, no aniversário, o chefe, no amigo secreto), mas que antes se descobre por conta própria, por acidente muitas vezes. Verena von der Heyden-Rynsch o caracterizou como ein Geheimtipp für Kenner (“uma dica secreta para conhecedores”[+]). Um autor para consciências, não para massas.

Você, car@ leitor@, não chegou a este blogue por acaso. Você chegou a este blogue por acaso. Ele existe, está como estará sempre no ar, disponível, mantendo-se na relativa penumbra, despreocupado com todo tipo de “marketing”. É gratificante saber que serve a muita gente, para além do Brasil; que pessoas dos lugares mais distantes e inimagináveis, de todo tipo de background, contexto cultural e social, visitam este canto para ler, conhecer, aprender sempre mais sobre Cioran e autores ou temas relacionados. Cioran pode assustar e inquietar ora pelo tom, ora pelo teor, mas apazigua pela expressão, pela fórmula, pelo (en)canto…

À quoi bon… ?

Este blogue veio à web em 2010, com a ideia de reunir, compartilhar e divulgar na internet todo tipo de material relevante sobre Cioran. Logo me dei conta que o material disponível on-line e a produção mesma em torno de Cioran, em língua portuguesa, eram muito escassos.

Pesquisando blogues, sites especializados (acadêmicos, outros) e portais de notícias internacionais, descobri um universo de textos em outras línguas, como o inglês, o francês, o espanhol, o italiano, e mesmo o romeno (por mais distante que este último seja de nós).

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Assim, foi se tornando aos poucos um blogue multilíngue, tanto para aqueles dentre os leitores brasileiros e lusófonos em geral que podem ler textos em outras línguas, como para os nativos dos respectivos países dessas línguas. Desde então, vem crescendo tanto em conteúdo e arquivo (variedade de línguas e de materiais), quanto em visitações.

A proposta seminal continua a mesma: reunir, compartilhar e divulgar todo tipo de material relevante sobre Cioran, num só lugar. Para mim, é extremamente útil. Serve como uma biblioteca, um arquivo, um hub de materiais diversos sobre (e de) Cioran e temas relacionados, à disposição para consultar a qualquer momento, em qualquer lugar (“entre amigos, é tudo comum”, como diz o velho Platão). Tem também algo de arte (escultura, fotografia, pintura), música, poesia, literatura (tudo isso que a obra de Cioran tem a virtude de plasmar).

O Portal surgiu como um hobby, nas horas vagas, coisa de ocioso. Já foi muito diferente, passou por tantas “reformas”, reformulações, até a forma atual. Para quê? Todo o esforço para nada, ou antes porque gosto, porque me faz bem, me motiva, me mantém concentrado, me dá um pretexto para aprofundar leituras e desdobrar escritas; é como um jardinzinho que dá prazer cultivar, alimentar, regar, fazer crescer (por mais estranhas que sejam a fauna e a flora; Baudelaire me permitirá: um jardim de “flores do mal”).

Não tem, nunca teve e nunca terá fins comerciais, lucrativos. Apesar do capricho, pretende ser um blogue diletante, mantido “para nada”, simplesmente per il diletto. Como a alegria trágica, segundo Clément Rosset, amigo de Cioran, a perseverança deste blogue é sem causa, razão, fundamento, esperança; ou como a “criação sem amanhã” de Camus: iniciativa absurda, ridícula, desenganada, sem quê nem para quê — e, no entanto, a “tentação” é irresistível… (Eros entra em cada buraco, passa por cada fresta, cada fissura, que a gente nem imagina)

Por fim, o Portal só é o que é hoje porque muitos amigos, parceiros, colaboradores, enfim, pessoas diversas contribuíram e contribuem, todas, de uma maneira ou de outra, a mantê-lo e a aperfeiçoá-lo. Sem todas elas, não sairia do zero.

Portal_EMCioranBr_2018.pdf

Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes, maio de 2018