“Sobre méritos e deméritos” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Se os “nossos” méritos não são nossos, tampouco o são os “nossos” deméritos.

Ao menos, é o que apregoa o cristianismo. E, quanto a isto, ao menos no aspecto lógico, puramente formal, é perfeito. “Odeie o pecado, não o pecador”; assim também: “Ame a glória, não o glorificado” (a salvação, não a cruz, símbolo odioso).

Faz-me lembrar da Ética (a Nicômaco) de Aristóteles, e à sua distinção sutil entre deliberação e decisão.

Esta distinção pode ser esclarecida assim: pode-se deliberar os meios, as condições, as conjunturas ideais para a felicidade, para ser feliz, mas não se pode deliberar, menos ainda decidir, ser feliz.

Ninguém “decide” ser virtuoso, ninguém “decide” ser malvado. Ponto para Sócrates, apesar de tudo; sem precisar reiterar a sua metafísica da identificação entre saber e virtude, às avessas, pode-se constatar a mesma tese socrática.

Nem uma coisa nem outra, ninguém escolhe nem ser feliz, assim como ninguém escolhe ser infeliz.  Mas sabemos, por prática e teoria, que existem, ou parece que existem, pessoas (mais) felizes e (mais) infelizes no mundo, assim como pessoas (mais) virtuosas ou (mais) pecadoras. Sabemos (ou achamos que sabemos) disso porque somos seres sociais, e vemos todos os dias pessoas mais ou menos admiradas, mais ou menos desprezadas; celebridades de um lado, indigentes de outro; a perfeição e o nada; Deus e o diabo…

A contradição objetiva é sutil, difícil de apreender, assim como o argumento; o que parece confirmar uma coisa e outra, na verdade contradiz e refuta ambas: se o virtuoso não pode se gabar de ter escolhido a sua virtude, tampouco pode condenar o pecador por ter escolhido a sua.

Voltamos a Aristóteles: alguém decide ser feliz? Absolutamente, não faz sentindo enunciar uma coisa dessas, pois decidir nada tem a ver com a necessidade demasiado  humana de ser feliz, não importa como, por qual decisão. Assim também, alguém escolhe ser infeliz? Se assim, fosse, todo mundo deveria ser feliz (por escolha), ou triste (por escolha); mas não é assim; há pessoas felizes e há pessoas tristes, e há pessoas que buscam algo através de seu contrário, seja por confusão e doença, seja por paixão do paradoxo e do inconcebível…

Truísmo grego (aristotélico): todo ser humano inteligente busca naturalmente o conhecimento; e não existe bem maior do que a felicidade, ser feliz, levar uma “vida feliz”. Ou seja, não se deseja (menos ainda se decide!) ser feliz com vistas a, senão que tudo o que fazemos, deixamos de fazer, acertamos ou erramos, tudo isso fazemos porque desejamos a eudaimonía como última meta…

“Deus” só espera de nós que vivamos bem, saudáveis e felizes, e que para conseguirmos isto não precisemos nos explorar e nos matar, competir e puxar o tapete, mas — santa utopia do cristianismo — que nos amemos uns aos outros…

O que importa é saber morrer, e saber morrer é saber viver, e aprender a viver é aprender a morrer e a estar morto. Isto disse Platão. Compare a agonia infinita da morte de Ivan Ilitch com a leveza flautista da morte de Sócrates…

(Aí me aparece uma múmia, cheirando a formol, uma aparição no meu sonho! sussurrando no meu ouvido: “há coisas mais importantes nesta vida do que ser feliz, do que a felicidade humana, aqui, no mundo, nesta vida!”; menos idealisticamente, numa glosa trágica, ela diria: “a alegria é uma ilusão, tentação, pecado! sê triste, sê triste!” — não teve coragem de vociferar a múmia, mas isto li em seus pensamentos…)

Pecado do virtuoso (e o cristão comete tanto este pecado, que Kierkegaard se questionou, “como ser cristão?”, no interior do cristianismo): condenar o pecado do pecador; por pior que seja este pecado, e ele é terrível, o acusador se mostra mais podre, no momento mesmo de sua acusação, confiante de orgulho e de virtude, do que o pecador ao qual ele aponta e que acusa.

Profunda intuição do cristianismo… Diria Cioran:

Para escapar às seduções do orgulho, só há uma atitude, a que preconiza Ignácio de Loyola (na verdade, ela é corrente no cristianismo): considerar que todos os nossos dons, todos os nossos êxitos, nada disso vem de nossos méritos, mas da boa-vontade de Deus para conosco: nossas próprias obras, é a ele que as devemos, à sua assistência, à sua graça, à sua misericórdia. Se nós somos excepcionais, esta excepção, esta excelência é designada do alto; ela nos é dada; não temos nenhum direito de nos gabar dela. Eis, talvez, a única via que leva à humildade. Ainda assim, para se servir dela, é preciso ter a fé. (Cahiers : 1957-1972)

E, para implodir a Ética filosófica:

Saber que é impossível estabelecer quem é inocente e quem é culpável, e ainda assim continuar a julgar, é o que fazemos todos nós, mais ou menos. Eu só poderia ficar contente se um dia chegasse a não mais emitir nenhum julgamento sobre ninguém. Vaidade à parte, acontece-me às vezes de compreender e de justificar tudo e todos. O algoz não é mais livre do que a vítima. A partir do momento em que praticamos o métier de existir, somos como os outros, não valemos nada a mais do que eles. (Cahiers : 1957-1972)