“Caindo da redenção: escrever e pensar para além da salvação em Baudelaire, Cioran, Fondane, Agamben e Nancy” (Joseph Acquisto)

Muito embora decididamente ateísta em sua orientação, os desenvolvimentos recentes na teoria literária e na filosofia continental suscitaram um interesse renovado pelo teológico. Na aurora de estudos como o de Charles Taylor, Uma era secular, os estudiosos colocaram em questão a hipótese da secularização pela qual o nascimento da modernidade no Ocidente representou uma ruptura definitiva com a visão de mundo religiosa a favor de uma secularização progressiva do pensamento e da prática que tenta tirar as consequências do “desencantamento” do mundo, na famosa frase de Max Weber, emprestada de Friedrich Schiller. Não significa negar, é claro, que muitos filósofos, escritores e artistas mantiveram crenças religiosas ou uma visão de vida religiosa, mas que as principais tendências da arte e do pensamento, desde a metade do século XIX, tenderam a descartar o engajamento teológico [theological engagement] a favor de novos modelos seculares de inspiração. O pensamento continental recente, contudo, sugeriu que nunca houve tal ruptura definitiva e que, enquanto a arte e o pensamento podem ser ateísticos em sua orientação, não se pode simplesmente dizer que descartou ou superou o teológico. De fato, pode-se dizer que a arte e o pensamento modernos dependem dele [teológico]. Desde o começo, a famosa frase de Nietzsche de que “Deus está morto, e nós o matamos” é atravessada pela ressonância teológica tradicional do Deus inocente assumindo os pecados da humanidade e morrendo para redimi-la, e os escritos do próprio Nietzsche estão cheios de um vocabulário teologicamente ressonante, desde noções como “transfiguração” e “redenção”, no Nascimento da tragédia, à prosa quase bíblica de Assim falou Zaratustra. Não significa dizer que o ateísmo de Nietzsche não é sincero, mas que o enredamento de Nietzsche no discurso que ele queria superar complica uma divisão simples entre teísmo e ateísmo, e a possibilidade de uma passagem simples de um ao outro… [+]

ACQUISTO, Joseph, The fall out of redemption: writing and thinking beyond salvation in Baudelaire, Cioran, Fondane, Agamben, and Nancy. New York: Bloomsbury, 2015.

Obs: não é por nada, mas o livro está disponível de graça, em pdf, no Libgen.io (não está mais aqui quem falou…)