Surgunt indocti et rapiunt coelum! Para arrebatar o céu, é preciso renunciar ao saber, aos princípios primeiros, que bebemos no leite materno. E mais. É preciso, conforme tivemos ocasião de nos convencermos ao ler as frases anteriormente citadas, renunciar na generalidade às ideias, quer dizer, pôr em dúvida o seu maravilhoso poder de transmutar em teoria os factos. O pensamento científico dotou de prerrogativas supremas as ideias: decidir e julgar do possível e do impossível, determinar o limite entre a realidade e o sonho, entre o bem e o mal, entre o que se deve e o que se não deve fazer.

Estamos lembrados da raiva com que o homem subterrâneo se atirava às verdades evidentes, cheias de presunção dos seus direitos soberanos e intangíveis. Ouçam o seguinte, mas de S. Petersburgo. A dialética de Dostoievsky, tanto na Voz Subterrânea como em outras obras, pode bem comparar-se à de qualquer dos grandes filósofos europeus; quanto à audácia de pensamento, garanto que poucos génios a Dostoievsky são comparáveis. E quanto ao desprezo por si próprio, repito, Dostoievsky iguala-se aos maiores santos.

“Continuo a falar da gente equilibrada… dos que se humilham logo perante o impossível. Impossibilidade — muralha de pedra. Que muralha? As leis naturais, evidentemente, as conclusões das ciências naturais, a matemática. Ora, discutam lá! Perdão, respondem, é impossível discutir: dois e dois são quatro. A natureza não quer saber da autorização do senhor; nem se preocupa com os seus desejos, nem com saber se as leis naturais lhe agradam ou não. O senhor é obrigado a aceitá-la tal como ela é, e, por conseguinte, às conclusões também. A parede é uma parede, etc., etc. Mas Deus meu, que tenho eu que ver com essas leis, se elas, por esta ou aquela razão, me não agradam? É claro que não posso derrubar a parede às cabeçadas, se não possuo a força necessária para tanto. Não obstante, só porque é uma parede de pedra e eu não tenho as suficientes forças, não me sinto obrigado a fazer as pazes com ela. omo se ela fosse um lenitivo e sugerisse a mínima ideia de paz, lá porque se apoia no dois e dois quatro! Oh, absurdo dos absurdos! É bem mais difícil compreender tudo, tomar consciência de todas as  impossibilidades e muralhas da China, não nos inclinarmos perante nenhuma se não gostamos de  nos inclinar, e chegar, gastas as mais inelutáveis combinações lógicas, às mais terríveis conclusões acerca do tema eterno da responsabilidade própria (embora se veja claramente que não há a mínima responsabilidade), e mergulhar voluptuosamente na inércia, rangendo os dentes, e pensar que nem sequer é possível a revolta contra seja o que for, porque não há e nunca haverá ninguém, porque, provàvelmente, é tudo uma farsa, uma intrujice, uma logomaquia, não se sabe quem nem o quê. E, apesar de todas estas coisas incompreensíveis, sofre-se; e quanto menos se compreende mais se sofre”.

Será possível que já estejam cansados de seguir o pensamento de Dostoievsky, os desesperados esforços para destronar as invencíveis evidências? Não sanem se ele está a falar a sério ou de troça. Pois, na verdade, podemos não nos render perante uma parede intransponível? Podemos, à natureza que, sem pensar em nós, prossegue a sua obra, opor o nosso mísero e mesquinho eu, e qualificar de absurdos os juízos que nos negam tal possibilidade?

Mas é que Dostoievsky se permite duvidar de que a nossa razão tenha o direito de julgar do possível e do impossível. A teoria do conhecimento não levanta esta questão, visto que, se à razão não é dado julgar do possível e do impossível, quem então poderá julgar? E tudo seria possível e impossível, simultâneamente. Ainda por cima, Dostoievsky, como se de fato estivesse a fazer pouco de nós, confessa não dispor das forças suficientes para demolir a parede! Admite, pois, certa impossibilidade, certo limite? Porque afirmava agora mesmo o contrário. Assim tombamos no caos absoluto; nem mesmo no caos: no nada, onde, com as regras, as leis e as ideias, se some a realidade inteira! Parece que, além de certos limites, é necessário suportar isso. O homem, liberto da tirania atroz das ideias, aventura-se em tão estranhas e tão pouco exploradas regiões, que deverá supor que abandonou a realidade e penetrou no eterno nada.

CHESTOV, Leão, As revelações da morte. Trad. de Jorge de Sena. Lisboa: Círculo do Humanismo Cristão, 1960.

(arte: retrato de Chestov por Boris Grigoriev)