“Reflex√Ķes sobre o niilismo” (Maurice Blanchot)

1. Nietzsche, hoje

Que houve com Nietzsche, hoje? Essa pergunta √© inicialmente aned√≥tica: ela interessa √† hist√≥ria e √†s fofocas da hist√≥ria. Ela visa em seguida aos int√©rpretes e √†s interpreta√ß√Ķes de Nietzsche, tais como os encontramos na Alemanha e na Fran√ßa: trata-se, observemos, dos maiores nomes, Jaspers, Heidegger, Luk√°cs, Karl L√∂with, Bataille, Jean Wahl, mais recentemente Fink e, na Fran√ßa, Foucault, Deleuze, Klossowski. Ela nos ajuda a ver por que o pensamento do niilismo, apear de conservar hist√≥rica, pol√≠tica e literariamente todo o seu vigor, parece, gra√ßas √†s pr√≥prias verifica√ß√Ķes que recebe do tempo, quase ing√™nuo e como que o sonho ainda tranquilo de uma √©poca melhor.

Ao publicar uma nova edi√ß√£o de Nietzsche e ao revelar as condi√ß√Ķes na qual a estabeleceu, Karl Schlechta fez um grande barulho. Nada disse, por√©m, que j√° n√£o se soubesse confusamente. Mas disse-o com provas que nos faltavam. Ele pr√≥prio, ao entrar em 1934 nos Arquivos Nietzsche para trabalhar numa edi√ß√£o cr√≠tica, n√£o pressentia de modo algum o que o aguardava. Nietzsche estava ent√£o entregue √† mentira, mentira consciente, resoluta e por vezes refinada, que ia da utiliza√ß√£o de um pensamento livre para os fins do anti-semitismo at√© a grosseira fabrica√ß√£o mitol√≥gica organizada por ambi√ß√Ķes pseudo-religiosas. Mas o “verdadeiro” Nietzsche, com a massa de documentos in√©ditos, repousava silenciosamente na casa mesma onde reinavam a aus√™ncia de escr√ļpulos e a necessidade de fazer-se valer. Para tentar penetrar at√© ele, era necess√°rio, portanto, entrar “no antro da velha leoa”, a fatal irm√£ de Nietzsche que n√£o tardou a i√ßar a bandeira de seu irm√£o sobre as ameias do imp√©rio milenar e que acolhia em seu antro, como os h√≥spedes mais bem-vindos, “alguns dos grandes carniceiros da √©poca”. Trabalhando em tais circunst√Ęncias, os eruditos — dos quais Schlechta n√£o era o √ļnico a preparar ou a propor uma publica√ß√£o enfim completa e sem no√ß√Ķes preconcebidas — viam-se mais como conspiradores do que como pac√≠ficos fil√≥logos.

Essa falsificação, sinistra, mas simplista e superficial, como toda falsificação política (Hitler não tinha ideia de Nietzsche e não se importava com ele), teria apenas um interesse medíocre se não fosse a consequência de uma falsificação mais grave, que dizia respeito à própria obra e que vinha se desenvolvendo há mais de trinta anos.

Desde 1895, a senhora F√∂rster-Nietzsche conseguira que sua m√£e lhe cedesse todos os direitos, inclusive os financeiros, sobre todos os pap√©is que constitu√≠am a imensa heran√ßa de um pensamento que ela iria explorar com energia. Para come√ßar, afastou todos os verdadeiros amigos de seu irm√£o e empenhou-se em torn√°-los suspeitos, mantendo pr√≥ximo a si apenas o fraco Peter Gast que, por ser o √ļnico capaz de decifrar os manuscritos ileg√≠veis, tornou-se, contra a vontade, o art√≠fice de suas ambi√ß√Ķes desmesuradas. Em 1906, um dos que colaboraram com ela e com Peter Gast, o Dr. Horneffer, j√° havia revelado as condi√ß√Ķes desarrazoadas em que ela os obrigava a trabalhar. A massa de textos in√©ditos era imensa. O primeiro cuidado, antes de qualquer tentativa de publica√ß√£o, teria sido de ao menos l√™-los todos e recopi√°-los. Mas isso exigia muito tempo. Era preciso publicar o mais r√°pido poss√≠vel e sempre mais e mais volumes. A necessidade de dinheiro, o gosto pela representa√ß√£o, a febre doentia de ilustrar-se por interm√©dio desse grande nome — que deveria ser transformado em moda — n√£o lhe davam descanso.

Mas ela queria mais. Sua preocupa√ß√£o era fazer de Nietzsche um verdadeiro fil√≥sofo no sentido corrente do termo, e enriquecer sua obra com um livro central em que todas as suas afirma√ß√Ķes positivas encontrariam lugar numa organiza√ß√£o sistem√°tica. Como esse livro n√£o existia, ela serviu-se de um t√≠tulo e de um plano — escolhido entre v√°rios outros — e pediu a seus colaboradores que despejassem nesse caixilho, como que ao acaso, a massa de notas p√≥stumas, tiradas dos cadernos os mais variados e constitu√≠das em grande parte de textos que Nietzsche havia descartado de seus livros precedentes. Assim nasceu Vontade de pot√™ncia, cuja primeira edi√ß√£o cont√©m 483 aforismos e a segunda, gra√ßas a um enriquecimento significativo, 1067 — e que acabou se impondo, em parte gra√ßas ao brilho de seu t√≠tulo, como uma das obras principais dos tempos modernos.

Vontade de pot√™ncia¬†n√£o √©, portanto, um livro de Nietzsche. Trata-se de uma obra fabricada pelos editores e falsificada, no sentido de que o que Nietzsche havia escrito aqui e acol√°, ao longo de anos atravessados pelas mais diversas inten√ß√Ķes, sem ordem e sem sistema, √©-nos apresentado como os materiais de uma obra sistem√°tica, preparada e concebida como tal. Karl Schlechta mostra que essa fabrica√ß√£o √© arbitr√°ria. A ordem adotada √© pouco defens√°vel. Estamos na presen√ßa de notas fortuitas com as quais ningu√©m tem o direito de formar um conjunto. O √ļnico m√©todo honesto de apresenta√ß√£o consiste em suprimir a ordena√ß√£o, inventada pelos editores precedentes e retornar √† situa√ß√£o dos manuscritos, seguindo a ordem cronol√≥gica. Foi o que tentou fazer Schlechta, mas ainda de maneira bastante critic√°vel, no volume III das Obras de Nietzsche publicadas a seus cuidados e onde, pela primeira vez, perdemos de vista essa falsa grande obra, criada por um ato de viol√™ncia e em torno da qual se organizou a capta√ß√£o ideol√≥gica de um pensamento essencialmente pouco apreens√≠vel.

Por que o destino de Nietzsche foi ser entregue a fals√°rios? Por que esse esp√≠rito que punha quase que acima de tudo a probidade no esp√≠rito de pesquisa deu azo a manobras contra as quais protestara de antem√£o ao afirmar: “Antes de tudo, n√£o me confundam…” “√Č costume tomarem-me por outro. Prestariam-me um grande servi√ßo protegendo-me de tais confus√Ķes.” Mas ele disse tamb√©m: “Todo pensador profundo teme mais ser compreendido do que mal compreendido.” De onde vem essa esp√©cie de trapa√ßa que permitiu, n√£o sem boa f√©, impor uma compila√ß√£o de editores como a obra essencial? De preconceitos, e sobretudo daquele grande preconceito que afirma n√£o haver grande fil√≥sofo sem uma grande obra sistem√°tica. Decerto a senhora F√∂rster-Nietzsche demonstrava sua falta de aptid√£o para captar a medida de um tal pensamento ao desejar v√™-lo expresso antes numa boa e s√≥lida obra do que naqueles livros tornados fr√≠volos a seus olhos por sua forma excessivamente liter√°ria. Como se a maneira de pensar e de escrever de Nietzsche n√£o fosse em princ√≠pio fragment√°ria. Karl Schlechta fez a respeito observa√ß√Ķes parcialmente justas: Nietzsche tinha uma plenitude quase infinita de ideias precisas, separadas e rigorosamente formul√°veis, e cada uma delas, √† maneira de um pequeno organismo, estava viva. A unidade bastante frouxa de todos esses pensamentos era a secreta inten√ß√£o de conjunto que apenas em Nietzsche permanecia presente, de uma presen√ßa oculta e atormentadora. Isso se exprime por uma certa dire√ß√£o, sens√≠vel em cada texto, e que o orienta. Mas ocorre que, de tempos em tempos, pela for√ßa de atra√ß√£o de um “t√≠tulo”, v√°rios desses organismos se re√ļnem em um conjunto maior que, por sua vez, tornam vivo. Esse processo se realiza com extraordin√°ria rapidez: como que formada pelas secre√ß√Ķes de uma √°gua-m√£e supersaturada tornadas cristalinas, a obra num instante se faz vis√≠vel e presente. Cristaliza√ß√£o que frequentemente fracassa. O plano tal √© abandonado, o que n√£o significa que ele n√£o possa reemergir depois de anos, quando outros livros ter√£o utilizado os materiais para os quais o plano havia sido meditado. √Č o que se deu com Vontade de pot√™ncia, anunciado na p√°gina de rosto de Para al√©m do bem e do mal e posteriormente abandonado em prol das obras “pol√™micas” do final. (Mais adiante proporei, no entanto, uma interpreta√ß√£o totalmente diferente da “escrita fragment√°ria”.)

BLANCHOT, Maurice, “Reflex√Ķes sobre o niilismo”, A conversa infinita II. Trad. de Jo√£o Moura Jr. S√£o Paulo: Escuta, 2007.