HÁ UMA VULGARIDADE que nos faz admitir qualquer coisa deste mundo, mas que não é bastante poderosa para nos fazer admitir o mundo mesmo. Assim, podemos suportar os males da vida repudiando a Vida, deixar-nos arrastar pelas efusões do desejo rejeitando o Desejo. No assentimento à existência existe uma espécie de baixeza, a qual escapamos graças a nossos orgulhos e a nossos pesares, mas sobretudo graças à melancolia que nos preserva de um deslize para uma afirmação final, arrancada de nossa covardia. Há coisa mais vil do que dizer sim ao mundo? E, no entanto, multiplicamos sem cessar esse consentimento, essa trivial repetição, esse juramento de fidelidade à vida, negado somente por tudo o que em nós recusa a vulgaridade.

Podemos viver como os outros vivem e no entanto esconder um não maior que o mundo: é o infinito da melancolia…

(Só se pode amar os seres que não ultrapassam o mínimo de vulgaridade indispensável para viver. Contudo, seria difícil delimitar a quantidade desta vulgaridade, ainda mais porque nenhum ato poderia eximir-se dela. Todos os proscritos da vida provam que foram insuficientemente sórdidos… Quem triunfa em um conflito com seu próximo surge de um muladar; e quem é vencido paga por uma pureza que não quis sujar. Em todo homem, nada é mais existente e verídico que sua própria vulgaridade, fonte de tudo o que é elementarmente vivo. Mas, por outro lado, quanto mais estabelecido se está na vida, mais desprezível se é. Quem não espalha à sua volta uma vaga irradiação fúnebre, e não deixa ao passar um rastro de melancolia vindo de mundos longínquos, esse pertence à subzoologia e, mais especificamente, à história humana.
A oposição entre a vulgaridade e a melancolia é tão irredutível que, comparada a ela, todas as outras parecem invenções do espírito, arbitrárias e ridículas; mesmo as mais categóricas antinomias embotam-se ante esta oposição em que se afrontam – seguindo uma dosagem predestinada – nossos bas-fonds e nosso fel pensativo.)

CIORAN, E.M., “Dualidade”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro, 2011.