O SER HUMANO não foi feito para a unidade ou derivados: é um mamífero doente. Foi feito na unidade (pode-se concedê-lo, hipoteticamente), a partir dela, mas estava destinado a perdê-la. Que digo? Tratou de fugir para bem longe dela, apagá-la de sua memória para todos os séculos, por horror ao tédio e à monotonia, e, como se não fosse o suficiente, para garantir que nunca mais tornaria a encontrá-la, tratou de arruiná-la, até pulverizá-la, como o verme no fruto…

Desde então, corremos em direção ao futuro, ao desconhecido, possuídos pelo demônio do ineditismo, fugimos até mesmo do mínimo recordo de uma unidade inatual, doravante não mais possível, dessa plenitude pré-existente que, confundindo-se com nada, só pode causar vertigem e dessabor. Nossa experiência histórica carece de direção e finalidade; não passa da sucessão de vãos esforços para não re-cair no tédio e na indistinção da “unidade” perdida. De onde a nostalgia de um tempo anterior ao tempo, incapacidade de habitar o presente por anseio do passado, e a paranoia ansiosa por um absoluto, um tempo perfeito ao final do tempo (e ainda assim, no interior dele!), ou seja, a incapacidade de habitar o presente por anseio do porvir.

O ser humano é um animal problemático, e diria mesmo disfuncional, porque foi “feito” insuficiente, ou “superficiente”, inacabado ou acabado demais, um protótipo de “ser” por vir, em devir, sempre devindo, sem nunca tornar-se, um projeto irrealizável, perfeitamente em aberto… Por esta razão, equilibra-se na cabeça de agulha do presente como um malabarista na corda-bamba, artista circense por vezes mais hábil, por vezes mais desastroso — em todo caso, o palhaço (e o terrorista) “metafísico” do reino animal. Forçosamente, há de cair para um dos “lados”, para trás ou para frente; manter-se de pé na corda-bamba do presente, eis o seu desafio, e a sua preocupação inconsciente de cada dia, de cada instante…

Auscultemos Cioran:

Enquanto possuímos uma vontade própria e nos apegamos a ela (é a censura que fizeram a Lúcifer), a vingança é um imperativo, uma necessidade orgânica que define o universo da diversidade, do “eu”, e que não tem nenhum sentido no universo da identidade. Se fosse verdade que “é no Uno que respiramos” (Plotino), de quem nos vingaríamos aí onde toda diferença desaparece, onde comungamos com o indiscernível e perdemos nossos contornos? Na realidade, respiramos no múltiplo; nosso reino é o do “eu”, e não há salvação através do “eu”. Existir é condescender à sensação, logo à afirmação de si; daí o não saber (com sua consequência direta: a vingança), princípio de fantasmagoria, fonte de nossa peregrinação sobre a Terra. Quanto mais procuramos nos afastar de nosso eu, mais nos absorvemos nele. De nada nos adianta fazê-lo explodir: no momento mesmo em que pensamos haver conseguido, eis que ele aparece mais seguro do que nunca; tudo o que fazemos para arruiná-lo só consegue aumentar sua força e sua solidez, e tal é seu vigor e sua perversidade que se dilata ainda melhor no sofrimento do que no gozo. Se isto ocorre com o eu, o mesmo acontece, com maior razão, com os atos. Quando nos julgamos livres deles, estamos mais presos do que nunca: mesmo degradados a meros simulacros, os atos têm poder sobre nós e nos escravizam. E se realizamos alguma empresa, seja por persuasão ou pela força, acabamos sempre por aderir a ela, por converter-nos em seus escravos ou em seus iludidos. Ninguém se move sem submeter-se ao múltiplo, às aparências, ao “eu”. Agir é cometer um delito contra o absoluto. (“Odisséia do rancor”, História e utopia)

Sob a roupagem mitológica cristã (“Lúcifer”, etc.), no fundo do seu discurso Cioran está veiculando uma concepção oriental, notadamente budista (tradição Mahayana, escola Madhyamika, de Nagarjuna), da existência e da condição humana. Sem ter isto em mente, forçosamente se equivocará ao interpretar o significado sutil do que ele entende por “ação (humana)” ao final da passagem acima, e o seu oposto, a inação, ou não-ação. Enganar-se-ia quem pensasse que se trata aí de uma apologia da apatia, do conformismo, da passividade, quando o que está em questão, colocado implicitamente, no subtexto, é a noção oriental de wu-wei: “não-ação”, ou seja, “ação espontânea”, “sem esforço”, e também “sem finalidade”, “objetivo”, ao sabor do acaso, reconhecendo o caráter ilusório de toda motivação e de toda finalidade. Wu-wei é mais ou menos como saber andar de bicicleta sem as mãos (e sem perder a cabeça). “O sábio não faz projetos”, observa Cioran — assim como o sábio reconhece a importância divina do trabalho manual, varrer o chão por exemplo…

Se há uma característica que aproxima Cioran e Camus, apesar de suas divergências (e são cruciais), enquanto os distancia, a ambos, de um filósofo trágico como Clément Rosset, é a nostalgia comum dessa unidade desfeita, perdida, arruinada, de onde a aspiração de dois pensamentos que não saberiam limitar-se ao domínio do relativo, do contingente, do meramente histórico e secular. De onde também os seus respectivos pessimismos, inapeláveis ou não. Divergências à parte, todos os três têm em comum a postulação do imperativo, da necessidade de afirmar o momento presente, concreto, singular, irrepetível, como o espaço privilegiado da existência, do pensamento e da ação humanas, em detrimento de toda nostalgia, de todo passadismo, assim como de toda ansiedade, de todo utopismo. Rosset parece fazê-lo sem maiores embaraços; Camus admite, a propósito de seu Homem revoltado, que se funda no sentimento da nostalgia de uma unidade (“paraíso”) já não mais disponível, uma comunidade humana harmônica e universal; Cioran, por fim, é aquele que mais abertamente reconhece, afirma a contradição existencial — cheia de lágrimas e sangue — entre o imperativo de afirmar e habitar o eterno presente, e a impossibilidade de fazê-lo, a persistência irredutível e sempiterna tanto dessa nostalgia melancólica quanto da necessidade agressiva de pensar, refletir, projetar, especular, enfim, lançar-se, em pensamento e ações (e a escrita é uma forma de ação), no devir, ao porvir.

Metafísica, num e noutro caso (Cioran, Camus), necessidade de interpretar, explicar, dar sentido, significar. Para empregar uma deliciosa analogia de Rosset, enquanto ele mesmo se dispensa o esforço de “misturar ingredientes para compor um molho ou um prato culinário” (ou seja, fazer metafísica, sistemática ou não), tanto Camus quanto Cioran não podem evitar a tentação de fazê-lo, ou ao menos esboçá-lo, arriscá-lo. No caso de Camus, o resultado é um molho ou um prato culinário absurdo; no caso de Cioran, niilista e irrealista, um simulacro, um ersatz, um pseudo-molho, infinitamente artificialista e infinitamente organicista (!), tão mais saboroso e vistoso, e viscoso, de modo exótico, incomum, quanto mais “falso”, mais pseudós. Rosset sequer tenta fazer qualquer tipo de síntese, diferentemente de Cioran e Camus, cujas sínteses são mais ou menos frustradas, como não poderiam deixar de ser, e como eles mesmos provavelmente desejam que elas sejam.

Onde não há unidade atual, abre-se o espaço para todos os dualismos. O ser humano, e com maior razão o ocidental (“esse herói de Dostoiévski com uma conta no banco”, como diz Cioran) é, com toda razão, o animal dualista por excelência, animal dividido, cindido, partido ao meio, a perfeita definição da hýbris, de tudo o que é composto, complexo, misturado, impuro, desmedido, temerário. A dualidade é para nós uma necessidade, uma condição de possibilidade, elemento vital tão indispensável quanto o ar que respiramos. “Ser” e “não-ser”, “bem” e “mal”, “nós” e “eles”, Corinthians e (é) Palmeiras… Só Rimbaud compreendeu: “Eu é um outro“, e se aposentou precocemente — enlouqueceu docemente…

Não é só em matéria de metafísica e teologia que a nossa dependência dualista se manifesta; também nas esferas seculares da vida e do pensamento. Sobretudo, em política,

domínio de pseudoproblemas, onde se dilata o mau filósofo que reside em cada um de nós, domínio do qual gostaria de afastar-me por uma razão banal, uma evidência que aparece a meus olhos como uma revelação: a política gira unicamente em torno do homem. Tendo perdido o gosto pelos seres, esforço-me em vão por adquirir o gosto pelas coisas; limitado forçosamente pelo intervalo que os separa, exercito-me e esgoto-me à sua sombra. Sombras também essas nações cuja sorte me intriga, menos por elas mesmas que pelo pretexto que me oferecem de vingar-me do que não tem nem contorno nem forma, de entidades e de símbolos. (“Sobre dois tipos de sociedade”, História e utopia)

Declaração digna de um “Cão Celestial“. A História, nossa história, da qual somos ao mesmo tempo os sujeitos e o objeto, os senhores e as vítimas, é a história do eterno retorno do dualismo, do não-um, da desunidade, da dualidade, irredutível e sempre mais densa, mais complexa, mais problemática, mais decadente. Só há devir histórico, só há duração porque recusamos, instintiva e inconscientemente, a cada ato, a cada pensamento, a unidade, qualquer unidade, porque nos deleitamos no múltiplo e no disperso, na dissociação, na dissensão, na intriga, no conflito (o que evoca Heráclito como aquele que mais bem intuiu do que se trata o “Ser”). Tenhamos certeza de que, se um dia forem abolidos todos os dualismos, a História confirmará o Novo Testamento ou a Fenomenologia do Espírito, ou então a humanidade conhecerá enfim o Vazio, equivalente negativo (ou “neutro”) do Ser, do Espírito ou de Deus (unidade positiva, demasiado “positiva” para ser factível); “abismo” luminoso, nada pleno, transbordante; Queda para o alto, vertigem deliciosa e alegre, cócegas no espírito… (and there’s a light that never goes out)

Para terminar, fiquemos com mais uma pérola de Cioran, neste caso extraída do Breviário de decomposição:

Podemos até descobrir o erro de um ser, desvelar a inanidade de seus desígnios e de suas empresas; mas, como arrancá-lo de seu encarniçado apego ao tempo, quando esconde um fanatismo tão inveterado quanto seus instintos, tão antigo quanto seus preconceitos? Trazemos conosco, como um tesouro irrecusável, um monte de crenças e de certezas indignas. Mesmo quem consegue desembaraçar-se delas e vencê-las, permanece – no deserto de sua lucidez – ainda fanático: de si mesmo, de sua própria existência; humilhou todas as suas obsessões, salvo o terreno em que afloram; perdeu todos os seus pontos fixos, salvo a fixidez da qual provém. A vida tem dogmas mais imutáveis que a teologia, pois cada existência está ancorada em infalibilidades que fazem empalidecer as elucubrações da demência ou da fé. O cético mesmo, apaixonado por suas dúvidas, mostra-se fanático pelo ceticismo. O homem é o ser dogmático por excelência; e seus dogmas são tanto mais profundos quando não os formula, quando os ignora e os segue.

Todos nós cremos em muito mais coisas do que pensamos, abrigamos intolerâncias, cultivamos prevenções sangrentas e, defendendo nossas ideias com meios extremos, percorremos o mundo como fortalezas ambulantes e irrefragáveis. Cada um é para si mesmo um dogma supremo; nenhuma teologia protege seu deus como nós protegemos nosso eu; e este eu, se o assediamos com dúvidas e o colocamos em questão, é apenas por uma falsa elegância de nosso orgulho: a causa está ganha de antemão.

Como escapar ao absoluto de si mesmo? Seria preciso imaginar um ser desprovido de instintos, que não portasse nenhum nome e a quem fosse desconhecida sua própria imagem. Mas tudo no mundo nos devolve nossos traços; e a própria noite nunca é bastante espessa para impedir que nos miremos. Demasiado presentes a nós mesmos, nossa inexistência antes do nascimento e depois da morte só influi sobre nós como ideia e apenas alguns instantes; sentimos a febre de nossa duração como uma eternidade falsificada, mas que, entretanto, permanece inesgotável em seu princípio.

Está ainda por nascer quem não se adore a si mesmo. Tudo o que vive se aprecia; de outro modo, de onde viria o pavor que faz estragos nas profundidades e nas superfícies da vida? Cada um é para si o único ponto fixo no universo. E se alguém morre por uma ideia, é porque é sua ideia, e sua ideia é sua vida. Nenhuma crítica de nenhuma razão despertará o homem de seu “sono dogmático”. Poderá abalar as certezas irrefletidas que abundam na filosofia e substituir as afirmações rígidas por outras mais flexíveis, mas como, por um método racional, conseguirá sacudir a criatura, adormecida sobre seus próprios dogmas, sem fazê-la perecer? (“Os dogmas inconscientes”, Breviário de decomposição)

Assim como Maurice Blanchot fala de “uma outra noite”, pode-se falar, com toda razão, após Kant (e mesmo antes dele), de um outro “sono dogmático”…

Rodrigo Inácio R. Sá Menezes, 05/05/2018