“Altas culturas: discussão e dis-cultura de Decadentes” (Rodrigo Inácio R. Menezes)

“Posso compreender e justificar todas as anomalias, tanto em amor como em tudo; mas que haja impotentes entre os imbecis, isso é algo que me ultrapassa.”

CIORAN, Silogismos da amargura

Alta cultura? Baixa cultura? Em todo caso, papo de bactéria pensante; discussão de filisteu bem-nascido. Há muitos anos, conversava eu com um jovem intelectual catolicíssimo, fervoroso (loiro, alto, bonito, olhos azuis, parecia príncipe), que se queixava da expansão da “baixa cultura” (ou seja, o que ele não gosta) e do declínio da “alta cultura” (o que ele gosta).

Trata-se de uma discussão filosoficamente estética. Ou seja, aisthesis, “sensação”, aquilo que é singular, subjetivo, incomparável, incomensurável. É a pedra no sapato da Filosofia quando se mete a refletir e discutir sobre a Arte, a Beleza, o gosto estético, etc…

Ao menos por uma perspectiva cioraniana, isto é uma grande baboseira, discurso de pedante inseguro. E, a julgar pelo niilismo do filósofo, alguns apreciadores de Bach não ficariam nem um pouco mais bem na fita do que fãs de Pablo Vittar…

Este preconceito elitista, classista e tradicionalista pode funcionar a partir de Roger Scruton (“bundão”, “pomada”, “coxinha”), mas não de Cioran. O que serve para desconstruir certos mitos relacionados ao Pessimista do Século: “reacionário”, “moralista”, “elitista”, “machista”, e daí em diante…

Sem dúvida, Cioran é um espírito da Velha Guarda; apesar de nascido em 1911, poderia ser considerado um filho do século XIX (tardio). Amava Bach. E Brahms. E Amália Rodrigues. E tanto mais: apreciava a Música, não importa o contexto, a particularidade, a “roupagem”.

Prova disso é a anedota relatada por José Thomaz Brum: certa feita, de viagem em Londres, Cioran passa na frente de um pub, onde está tocando “A whiter shade of pale”, da banda Procol Harum. Detalhe: o início da canção é um sample de uma composição bachiana. Cioran ouviu, parou, e pirou (não se sabe se continuou a caminhada ou se parou no pub para tomar um pint de Guinness).

Certamente, Cioran não curtia rock, heavy metal, música eletrônica (comercial ou experimental), fico até curioso qual seria sua opinião sobre John Cage. O que é praticamente uma certeza é que, como ele repudiava a crendice da evolução/progresso histórico, e todo tipo de pretexto ou justificativa metafísica do Caos, não incorreria no erro de ser como um Roger Scruton em cagar a regra de que a Arte (a Beleza) morreu após… Marcel Duchamp. Roger Scruton é um careta babaca — apesar de um enorme filósofo (não me surpreende que a neodireita embasbacada, frustrada, insegura, o idolatre).

Uma única coisa importava para o Transilvano: ter um ritmo, manter-se nele, desdobrá-lo, perseverar nele…

Agora veja bem: quem reza a cartilha do rock progressivo odeia o hardcore e o punk; quem ama música acústica odeia sintetizador; quem reza para Bach quer que quem escuta sertanejo, ou Pablo Vittar, queime no inferno…

Querido (ou querida): o fato de você apreciar o que você aprecia só significa que você aprecia o que você aprecia, e que o mundo é diverso, plural, fragmentado, e que a história devem, os tempos passam — e os Santos fedem quando morrem…

Moral da história: quem está preocupado com o estilo de música que os outros escutam (e eu estou, quero dizer, se não me agrada, não quero uma bazuca sonora passando na frente da minha casa amplificando o horror), quero dizer, quem está preocupado ao ponto de fiscalizar, catalogar, censurar, proscrever, este é o mesmo tipo que o pastor-comedor e fiscal-de-cu (estilo Malafaia-Feliciano); fiscalize cu, fiscalize gosto musical; fiscalize sua cara na minha mão caso eu te espanque sem querer, querendo.

Aí eu pergunto: qual a diferença de ter um êxtase musical escutando Bach, Brahms, música folclórica cigana, kuduro angolano, Giorgio Moroder, The Beatles ou The Rolling Stones, algum super-grupo de rap, G.G. Allin, ou alguma banda perversa de black metal? Qual a diferença de amar isto ou aquilo — desde que se ama, de verdade, algo? Jura? Sério?

Você pode amar Bach, e ser repudiável enquanto “amante de Bach”…. (eu tiraria fora esta última frase, mas não conto com bons entendedores, menos ainda neodireitóides, então mantê-la-ei)

OBS: O que mais me agrada, o que mais me enche de saliva, e de sangue nos olhos, é que não apenas a Direita conservadora católica não gosta de Pablo Vittar e correlatos… a Esquerda petista, patética, velha, enferrujada, anal-ógica, também não gosta. É aí que o jogo fica mais interessante…

Rodrigo Inácio R. Sá Menezes (06/05/2018)