MAIS FELIZ do que eu, você se resignou a nosso pó natal; além disso, tem a faculdade de suportar todos os regimes, mesmo os mais rígidos. E não é que você não tenha a nostalgia da fantasia e da desordem, mas não conheço espírito mais refratário que o seu às superstições da “democracia”. Houve uma época, é verdade, em que eu também as detestava, até mais do que você: era jovem e não podia admitir outras verdades que não as minhas, nem conceder ao adversário o direito de ter as suas, de gabar-se delas ou de impô-las. Que os partidos pudessem enfrentar-se sem aniquilar-se era algo que ultrapassava minhas possibilidades de compreensão. Vergonha da Espécie, símbolo de uma humanidade exausta, sem paixões nem convicções, inapta ao absoluto, privada de futuro, limitada em todos os sentidos, incapaz de elevar-se a essa alta sabedoria que me ensinava que o objetivo de uma discussão era pulverizar o opositor: era assim que eu via o regime parlamentar. Por outro lado, os sistemas que queriam eliminá-lo para tomar seu lugar me pareciam belos sem exceção, afinados com o movimento da vida, minha divindade na época. Não sei se devo admirar ou desprezar aquele que, antes dos trinta anos, não sofreu o fascínio de todas as formas de extremismo, ou se devo considerá-lo como um santo ou um cadáver. Por falta de recursos biológicos, não se colocou acima ou abaixo do tempo? Deficiência positiva ou negativa, o que importa! Sem desejo nem vontade de destruir, é suspeito, venceu o demônio ou, o que é mais grave, nunca foi possuído por ele. Viver verdadeiramente é recusar os outros; para aceitá-los, é preciso saber renunciar, violentar-se, agir contra sua própria natureza, enfraquecer-se; só se concebe a liberdade para si mesmo: ao próximo só a concedemos a duras penas; daí a precariedade do liberalismo, desafio a nossos instintos, êxito breve e miraculoso, estado de exceção oposto a nossos imperativos profundos. Somos naturalmente inadequados para ele: só a deterioração de nossas forças nos dá acesso a ele. Miséria de uma raça que deve rebaixar-se por um lado para enobrecer-se pelo outro, e na qual nenhum representante, a menos que seja de uma decrepitude precoce, se dedica a princípios “humanos”. Função de um ardor extinto, de um desequilíbrio, não por excesso, mas por falta de energia, a tolerância não pode seduzir os jovens. Ninguém se envolve impunemente nas lutas políticas; e nossa época deve seu aspecto sanguinário ao culto do qual eles foram objeto: as convulsões recentes emanam deles, da facilidade com que aceitam uma aberração e a traduzem em ato. Dê aos jovens a esperança ou a ocasião de um massacre e eles lhe seguirão cegamente. No final da adolescência, se é fanático por definição; eu também o fui, e até o ridículo. Lembra-se da época em que soltava invectivas incendiárias menos pelo gosto de escandalizar que por necessidade de escapar a uma febre que, sem o exutório da demência verbal, teria me consumido? Convencido de que os males de nossa sociedade vinham dos velhos, concebi a ideia de uma liquidação de todos os cidadãos que tivessem ultrapassado os quarenta anos, princípio da esclerose e da mumificação, limite a partir do qual, acreditava eu, todo indivíduo se torna um insulto para a nação e um fardo para a coletividade. Tão admirável me pareceu o projeto que não hesitava em divulgá-lo; os interessados apreciaram mediocremente o conteúdo da questão e me qualificaram de canibal: minha carreira de benfeitor público começava sob maus presságios. Você mesmo, tão generoso e tão empreendedor, fez tantas reservas e objeções que me levou a abandonar meu projeto. Ele era tão condenável? Exprimia simplesmente o que todo homem que ama seu país deseja no fundo de seu coração: a supressão da metade de seus compatriotas.

CIORAN, E.M. “Sobre dois tipos de sociedade (carta a um amigo longínquo)”, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.