TOMAS COMEÇOU A GOSTAR de Beethoven para agradar a Tereza, mas não era muito apaixonado por música e duvido que conhecesse a verdadeira história do famoso tema de Beethoven, “muss es sein? es muss sein!”

Tinha acontecido o seguinte: um certo Sr. Dembscher devia cinquenta florins a Beethoven e o compositor, que vivia sempre sem um tostão, foi cobrar dele. “Muss es sein? Será preciso?”, suspirou o pobre Sr. Dembscher, e Beethoven respondeu com um sorriso malicioso: “Es muss sein! Sim, é preciso!” Anotou essas palavras em seu caderno de apontamentos e compôs, com esse motivo realista, uma pequena peça para quatro vozes: três vozes cantam “es muss sein, ja, ja, ja, é preciso, é preciso, sim sim sim”, e a quarta voz acrescenta: “heraus mit dem Beutel! abra sua bolsa!

O tema tornou-se, um ano mais tarde, o núcleo do quarto movimento do último quarteto opus 135. Beethoven não pensava mais na bolsa de Dembscher. As palavras “es muss sein!” iam assumindo para ele uma tonalidade cada vez mais solene, como se tivessem sido pronunciadas pelo Destino. Na língua de Kant, mesmo a palavra “Bom dia”, devidamente articulada, pode parecer uma tese metafísica. O alemão é uma língua de palavras pesadas. “Es muss sein!”, de brincadeira, passou a “der scher gefasste Enthschulss“; “é preciso” tornou-se uma decisão gravemente pensada.

Beethoven transformara, portanto, uma inspiração cômica num quarteto sério, uma brincadeira em verdade metafísica. É um exemplo interessante da passagem do leve para o pesado (portanto, segundo Parmênides, da mudança do positivo em negativo). Coisa curiosa, essa mutação não nos surpreende. Mas ficaríamos indignados se Beethoven passasse do tom sério de seu quarteto para uma brincadeira leve sobre a bolsa de Dembscher. E, no entanto, estaria agindo inteiramente de acordo com o pensamento de Parmênides: passaria do pesado ao leve, portanto do negativo ao positivo! No começo haveria (sob a forma de esboço imperfeito) uma grande verdade metafísica e no fim (como obra terminada) a mais leve das brincadeiras. Só que não sabemos mais pensar como Parmênides.

Creio que no fundo Tomas se irritava há muito tempo com esse agressivo, solene e austero “es muss sein!”, e que existia nele um desejo secreto de mudar o pesado em leve, segundo o critério de Parmênides. Lembremo-nos de que, no passado, bastara-lhe um minuto para decidir que nunca mais veria a primeira mulher e o filho, e que ficara aliviado quando seu pai e sua mãe romperam com ele. O que era isso senão um gesto súbito, nada racional, pelo qual rejeitava aquilo que se impunha como uma obrigação pesada, um “es muss sein!”?

Evidentemente, tratava-se então de um “es muss sein!” exterior, imposto pelas convenções sociais, ao passo que o “es muss sein!” de seu amor pela medicina era uma necessidade interior. Justamente por isso, era pior. Pois o imperativo interior é ainda mais forte e incita mais fortemente à revolta.

Ser cirurgião é abrir a superfície das coisas e olhar o que se esconde dentro delas. Talvez tenha sido isso que despertou em Tomas o desejo de ver o que havia do outro lado, além do “es muss sein!” Em outras palavras, de ver o que sobra da vida quando o homem abre mão de tudo que considerara até então como missão.

Quando, porém, foi se apresentar à amável diretora da companhia de limpeza de vidros e vitrinas de Praga, o resultado de sua decisão lhe pareceu de súbito em sua irrevogável realidade e ele quase teve medo. Viveu nesse pânico os primeiros dias do novo emprego. Uma vez superada (mais ou menos no fim de semana) a estranheza espantosa de sua nova vida, constatou que começava longas férias.

Fazia coisas às quais não atribuía nenhuma importância, e isso era bom. Compreendia a felicidade das pessoas (das quais até então sentira pena) que exercem uma atividade às quais não foram levadas por um “ein muss sein!” interior e que podem esquecê-la quando vão para casa. Jamais conhecera essa feliz indiferença. Antigamente, quando uma operação não corria como esperava, ficava desesperado e não conseguia dormir. Perdia até o gosto pelas mulheres. O “es muss sein!” de seu trabalho era como um vampiro que lhe sugava o sangue.

Agora, percorria as ruas de Praga com sua longa vara de lavar vidraças e constatava, surpreendido, que se sentia dez anos mais moço. As vendedoras das grandes lojas chamavam-no de “doutor” (o tam-tam de Praga continuava funcionando perfeitamente) e lhe pediam conselho sobre seus resfriados, dores lombares, menstruação atrasada. Quase sentiam vergonha quando o viam jogando água nas vitrinas ou enrolando um pano na ponta da vara para lavar uma fachada. Se pudessem abandonar os clientes na lina, certamente iriam tomar a vara de suas mãos para lavar as vitrinas em seu lugar.

Tomas trabalhava sobretudo em lojas grandes, mas às vezes a empresa o mandava também a clientes particulares. Nessa época, as pessoas viviam ainda numa certa euforia de solidariedade em relação à perseguição em massa aos intelectuais tchecos. Quanto os antigos pacientes souberam que Tomas virara lavador de vidros, passaram a telefonar à companhia, chamando-o. Eles o recebiam com uma garrafa de champanhe ou de aguardente, escreviam no recibo que lavara treze janelas e em seguida ficavam duas horas conversando e bebendo com ele. Quando partia para a casa de outros clientes particulares ou para uma outra loja, estava em ótima forma. As famílias dos oficiais russo se estabeleciam no país, as rádios transmitiam discursos ameaçadores de funcionários do Ministério do Interior que substituíam os jornalistas credenciados, e enquanto isso ele perambula entre dois copos de vinho pelas ruas de Praga, no estado de espírito de um homem que vai de festa em festa. Eram suas grandes férias.

Voltava à vida de solteiro. Pois, de repente, estava sem Tereza. Só a via de noite, quando ela voltava do bar e ele abria um olho no primeiro sono; depois, de manhã, era ela que estava sonolenta e ele que se apressava para o trabalho. Tinha dezesseis horas só para si e era um espaço de liberdade que lhe era oferecido de maneira totalmente imprevista. E para ele, desde a juventude, liberdade significava mulheres.

KUNDERA, Milan, A insustentável leveza do ser. Trad. de Teresa B. Crvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

(Foto: Milan Kundera pagando de galã gato)