“Do desespero no qual queremos ser n贸s pr贸prios, ou desespero-desafio”(Kierkegaard)

Come莽amos pela mais inferior das formas do desespero, no qual n茫o queremos ser n贸s pr贸prios. Mas aquele em que o queremos, de todos o mais condensado, 茅 o desespero demon铆aco. E n茫o 茅 sequer por est贸ico apego ou por self-idolatria que este eu quer ser ele pr贸prio; n茫o 茅, como no 煤ltimo caso, por uma mentira, 茅 certo, mas tamb茅m em certo sentido para prosseguir no aperfei莽oamento pr贸prio; n茫o, ele pretende-o, por 贸dio 脿 exist锚ncia e segundo a sua mis茅ria; e a esse eu, nem sequer 茅 por revolta ou desafio que se apega, mas para comprometer Deus; n茫o quer arranc谩-lo pela viol锚ncia ao poder que o criou, mas impor-lhe, espec谩-lo contra ele satanicamente… e a coisa 茅 compreens铆vel, uma obje莽茫o verdadeiramente maldosa ergue-se sempre violentamente contra o que a suscitou! Precisamente por causa da sua revolta contra a exist锚ncia, o desesperado gaba-se de possuir uma prova contra ela e contra a sua bondade. Julga ser ele pr贸prio essa prova, e, visto querer s锚-la, quer portanto ser ele pr贸prio 鈥 sim, com o seu tormento! 鈥 para, por meio desse pr贸prio tormento, protestar toda a vida. Ao passo que o desespero-fraqueza foge 脿 consola莽茫o que seria para ele a eternidade, o nosso desesperado demon铆aco tamb茅m n茫o quer saber dela para nada, mas por motivo diferente: essa consola莽茫o perd锚-lo-ia, deitaria por terra a obje莽茫o geral contra a exist锚ncia que ele 茅. Para exprimir isto por uma imagem, suponha-se um erro de impress茫o escapando a um autor, uma gralha dotada de consci锚ncia, e que em revolta contra o autor lhe pro铆be por 贸dio emend谩-la, e lhe grita num desafio absurdo: n茫o! tu n茫o me h谩s de suprimir, ficarei como um testemunho contra ti, como testemunho de que 茅s um escritor med铆ocre!

KIERKEGAARD, S. A., O desespero humano, in: Col. “Os Pensadores”. Trad. de聽Adolfo Casais Monteiro. S茫o Paulo: Abril Cultural, 1979.