“Relatório sobre um relatório de atividade universitária (1938-1939)” (Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes)

(Re)lendo o relatório “sur mon activité universitaire pendant l’année universitaire 1938-1939”, do jovem Cioran. Que delícia digestiva após um almoço não menos delicioso (ensopado de peixe com pirão, além de 4 potinhos de uma sobremesa cujo nome não me recordo, e pouco importa, o importante sendo o manjar em si, cuja quantidade consumida não faz senão trair um dos meus pecados capitais, ao menos nas circunstâncias atuais). Alimento do corpo, alimento do espírito…

O “rapport d’études” em questão é um breve documento que integra o volume Cahier de l’Herne Cioran, um relatório de estudo dos primeiros anos de Cioran em Paris, no contexto de sua primeira ida à França, antes do seu breve – e incógnito – retorno à Romênia, e de seu estabelecimento definitivo em Paris, a partir de 1940. Um relatório breve e objetivo sobre seus planos acadêmicos, uma apresentação esquemática das questões, autores, temas a serem abordados naquela que seria sua tese de doutorado, e que, para a nossa fortuna maior, nunca passou de um projeto – abandonado em nome de algo mais importante, do essencial, a existência como autocriação filopoética, ao cabo de um enriquecedor périplo de bicicleta através da França, no intuito de conhecer aqueles que lhe pareciam ser os locais mais preciosos a serem visitados: a Bretanha, o Vale do Loire, Provença, entre outros…

A tese acadêmica não existe, nunca foi concluída, sequer iniciada de fato (é provável que o jovem estudante nunca tivera a real intenção de dedicar-se a ela. Uma vez tendo sua estadia na França garantida, mandou-a às favas. Aleluia, glória a Deus! E imaginar um Cioran professor, participando de reuniões de departamento, panelinhas político-partidárias, aturando alunos e orientandos… (interessante exercício de imaginação).

Em vez de uma carreira, do métier de professor universitário, o “antifilósofo” optou pela liberdade de fazer da desocupação (désoeuvrement) uma ocupação, um estilo de vida à margem da academia e do mainstream literário: um Diógenes moderno enxertado num moraliste; combinação heteróclita de Pirro, Marco Aurélio e Pascal – “combinação de Jó e de Sócrates”, segundo Gabriel Liiceanu; “um Buda de pacotilha”, na fórmula do próprio Cioran…

A tese de doutorado nunca passou de um pretexto. Ele precisava apenas garantir a  bolsa de estudos, e, para isso, as assinaturas, carimbos e pareceres de alguns professores da Sorbonne, alguns com mais boa-vontade do que outros (vide Jean Baruzi). Assim que possível, seria o caso de desaparecer dos corredores da universidade, para bem longe dos muros da academia, para dedicar-se ao essencial: devir aquele E.M. Cioran, (re)criar(-se) em língua francesa. De onde o Breviário de decomposição (1949).

Voltemos então ao relatório, na falta da tese em si, para ver o que contem de interessante, de significativo, em se tratando da decisão de uma vida (de uma obra-vida) e daquilo que, a partir de seus interesses filosóficos de outrora, reflete-se na obra viva desse pensador marginal e alheio à instituição universitária – em suas palavras, “a morte do espírito”, tanto quanto, ainda segundo ele, qualquer instituição que seja, e que, enquanto instituição, cessa de ser vivente, tornando-se exangue, marmóreo, sepulcral.

O tema original a ser trabalhado: “a idéia do mal e do pecado em Nietzsche e Kierkegaard”, reformulado em seguida para tratar do “conflito da vida e da consciência em Nietzsche”. Problema que, deixando de ancorar-se no pensamento e na obra de Nietzsche, tornar-se-á, uma vez tendo se apartado do antigo mestre, não menos um problema cioraniano, a questão cioraniana por excelência: o conflito entre lucidez e vida, lucidez e ilusão, percepção da irrealidade última do que existe e o mundo não como representação (Schopenhauer), mas como “não-lugar universal” (Cioran).

Um perigo metodológico lucidamente detectado pelo autor, de onde o imperativo de “laicizar certas verdades que, por sua natureza mesma, prestam-se demasiado ao fervor e ao subjetivismo”: o risco de (re)cair na pura teologia – o que se pode compreender, ao mesmo tempo que é em parte iluminado, pelo background romeno ortodoxo desse que (como Nietzsche) era filho de sacerdote cristão (no seu caso, romeno-ortodoxo, não protestante-luterano). A mesma precaução metodológica (que sua obra intimista parece em grande medida contrariar, quando não ignorar completamente) não poderia deixar de nos remeter aos livros romenos do jovem autor transilvano que abandonaria sua língua materna para converter-se ao idioma de Pascal e Baudelaire (pensamos especialmente em Nos cumes do desespero e Lacrimi si sfinti, entre outros).

Aquela que deveria ser a tese de doutorado de Cioran compreenderia quatro partes,  (citemo-las), além de uma conclusão:

“1) O conflito entre vida e consciência — motivo dominante em Nietzsche. Transposição do dualismo ao plano do vitalismo: espírito-matéria. Enquanto que o dualismo apresenta um alcance metafísico, o vitalismo se limita ao plano psicológico. A primazia da experiência individual e da vida convertida num absoluto; o espiritual perde toda autonomia.

2) Os valores da vida e os valores do espírito. A tendência a tudo dissociar e rebaixar [..] O mundo do espírito que emana da vida e que se volta contra ela. A dialética que daí resulta e suas expressões em Nietzsche, Bergson e Simmel — Kierkegaard como predecessor.

3) O problema da decadência — o mal na história. Para Nietzsche, a decadência é a diminuição do irracional, da vida; a obra usurpadora do espírito. A exasperação do conflito consciência-vida. Só há decadência na história onde há exacerbação da consciência.

4) A ruína das normas — a incompatibilidade entre a construção de uma moral e a exigência vitalista. A impossibilidade de fundar uma ética fora da autonomia espiritual.

5) Conclusão.”

O jovem universitário demonstra ter muito claramente definido e delimitado tanto o(s) objeto(s) quanto o método (intuitivo-vitalista) de sua investigação. Destaca-se a recorrência de Nietzsche enquanto referência filosófica, paralelamente à inscrição de Kierkegaard como predecessor de toda uma corrente filosófica existencial.

Não é difícil adivinhar como toda essa problemática formalmente colocada encontra-se presente na obra viva de Cioran, na sua criação enquanto poiética do fragmento. Encontram-se nela os interesses, preocupações e obsessões, os procedimentos e a terminologia, de um filósofo existencial e antirracionalista, despreocupado com a objetividade do conceito e a totalidade do sistema, a favor da organicidade e da experiência viva, singular e inalienável. A problemática filosófica crucial pode ser resumida na fórmula do “conflito consciência-vida”, de onde a antinomia trágica que caracteriza a vida do espírito segundo Cioran. O jovem doutorando ressalta: “Essa questão não comporta para mim apenas uma questão abstrata, mas tento demonstrar também quais consequências têm no plano histórico certos princípios da filosofia vitalista.

Destaca-se também a relação intrínseca entre a problemática do mal e a ideia teológica (que o aproxima de Kierkegaard) do pecado original, continuamente implicada em sua obra (cf. O Livro das Ilusões, Lacrimi şi sfinţi, La chute dans le temps, entre outros); o conflito irredutível entre o espiritual e o vital, de onde o drama da lucidez enquanto princípio de corrupção das fontes da vida (unidade inconsciente); a decadência espírito em função do racionalismo progressivo na história, culminação do pecado original.

O preconceito academicista que consiste em negar ao autor do Breviário de Decomposição (1949) a qualificação de filósofo deriva não apenas da questão acerca das formas de expressão e dos gêneros discursivos como da temática a partir da qual se desenvolve a sua obra:Deus e o mal são dois dos temas maiores aos quais ele retorna incessantemente em seus livros, do primeiro ao último. Leiamos a seguinte passagem de  Lacrimi şi sfinţi, suprimida da edição francesa: “O espírito metafísico só se mostra criador transcendendo os problemas intermediários. Quais são estes? Os que não entram no capítulo final de uma metafísica. E este capítulo trata exclusivamente de Deus. É surpreendente como um espírito metafísico possa aplicar-se ainda a algum objeto que não Ele. E não apenas a metafísica; ninguém que tenha ouvido falar de Deus deveria rebaixar-se a outros problemas.” (Lágrimas y santos, Hermida Editores, p. 112). E caso se objete que trata-se aí de um jovem Cioran ultrapassado pelo écrivain Cioran, de expressão francesa, o qual doravante renegaria suas antigas obsessões metafísicas e teológicas, basta citar um aforismo de O inconveniente de ter nascido: “Deus é o que sobrevive à evidência de que nada merece ser pensado.”

Por fim, cumpre notar a imensa importância conferida pelo jovem universitário à cultura francesa, particularmente a tradição dos moralistes. Dentre eles, Cioran menciona em seu relatório de atividade universitária não os mais célebres, como La Rochefoucauld e Chamfort, mas Joubert, especialmente apreciado em virtude de sua obscuridade se comparado a aqueles. Segundo Cioran, concentram-se em Joubert “toda a concisão, a explosão e o brilho dos grandes moralistas (Pascel, La Rochefoucauld, Vauvernagues), e todo o prestígio do romantismo, reforçado nele pela amizade e intimidade de Chateaubriand.” Além destes, merecem destaque também, no âmbito da cultura francesa, Flaubert, Stendhal, Baudelaire, Mallarmé, Barrès e Proust.

Concluindo o relatório, Cioran aproveita para ressaltar que teve o privilégio de frequentar os círculos intelectuais franceses, graças aos quais pôde conhecer e experimentar, diretamente, a vida espiritual da França, apreendendo “por minha experiência pessoal a complexidade do espírito francês” e compreendendo também “o quanto a crítica de racionalismo estéril  que os alemães fazem aos franceses é superficial e falsa.” Segundo o estrangeiro recém-chegado, “há na França um clima de efervescência intelectual que impele e constrange a ser mais soi-même como não se seria naturalmente. O prolongamento da minha estadia parece-me, assim, o único meio de não deixar nenhuma lacuna em minha formação espiritual e em minha carreira intelectual.”

22/06/2018

Referências:

CIORAN, E., Lágrimas y santos. Trad. de Christian Santacroce. Madrid: Hermida Editores, 2017.

TACOU, L.; PIEDNOIR, V. (eds.). CAHIER L’HERNE CIORAN. Paris: L’Herne, 2009.