Rio de Janeiro: Zahar, 2006, 192 páginas.
Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges.

1027026-350x360Esse livro investiga uma das preocupações centrais de nossa era ao sondar a natureza do tédio, quando ele se origina, como nos aflige e por que, ao que parece, somos incapazes de superá-lo por qualquer ato de vontade.

De forma leve e espirituosa, com citações abrangentes que abarcam nomes como Heidegger, Nietzsche, Madonna e Warhol, traz uma ampla exposição dos vários aspectos do tédio e sua relação com a modernidade, apontando o Romantismo como importante base histórica.

Organizado em quatro partes – Problema, Histórias, Fenomenologia e Ética –, a obra reúne observações tomadas da filosofia, da literatura, da psicologia e da cultura popular. O maior mérito do autor – professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Bergen, na Noruega – é tratar do tédio sem ser entediante.

Sobre o autor: LARS SVENDSEN é professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Bergen, na Noruega. É autor de muitos livros, entre os quais Man, Morals and Genes: A Critique of Biologism e The Philosophy of Evil.

O TÉDIO COMO PROBLEMA FILOSÓFICO

Na condição de filósofos, temos de tentar, de vez em quando, tratar de grandes questões. Se não o fazemos, perdemos de vista o que, para começar, nos levou a estudar filosofia. Em minha opinião, o problema do tédio é uma dessas grandes questões, e sua análise deveria revelar algo importante sobre as condições em que vivemos. Não deveríamos – e, de fato, não podemos – evitar considerar de quando em quando nossa atitude em relação à questão do que significa ser. Pode haver muitas razões iniciais para refletirmos sobre nossa vida, mas o que há de especial nas experiências existenciais fundamentais é que elas nos levam, inevitavelmente, a questionar nossa própria existência. O tédio profundo é uma experiência existencial fundamental. Como Jon Hellesnes perguntou: “O que pode ser mais existencialmente perturbador que o tédio?”

As grandes questões não são necessariamente as questões eternas; o tédio, por exemplo, só passou a ser um fenômeno cultural central há cerca de dois séculos. É impossível, claro, determinar quando ele surgiu. Ademais, naturalmente teve precursores. Mas ele se destaca como um fenômeno típico da modernidade. Em geral, os precursores ficaram restritos a grupos pequenos, como a nobreza e o clero, ao passo que o tédio da modernidade tem amplo efeito e pode hoje ser encarado como um fenômeno relevante para praticamente todos no mundo ocidental. Em geral, o tédio é considerado aleatório em relação à natureza do homem, mas isto se baseia em suposições no mínimo duvidosas com respeito ao que seja esta última. Seria igualmente possível afirmar que o tédio está incorporado à natureza humana, mas, para isso, é preciso pressupor que existe algo que pode ser chamado de “natureza humana” – o que me parece problemático. A postulação de uma dada natureza tende a encerrar qualquer discussão adicional. Pois, como mostra Aristóteles, dirigimos nossa atenção, em primeiro lugar, ao que é passível de mudança. Ao postular uma natureza, estamos sustentando que ela não pode ser mudada. É também tentador afirmar a existência de uma natureza humana completamente neutra e atribuir ao homem um potencial igualmente grande para experimentar tanto tristeza quanto felicidade, tanto entusiasmo quanto tédio.   Nesse caso, a explicação para este último deverá ser encontrada exclusivamente no ambiente social do indivíduo. Não acredito, contudo, que se possa fazer uma distinção clara entre aspectos psicológicos e sociais quando se lida com um fenômeno como o tédio, e um sociologismo redutivo é tão insustentável quanto um psicologismo. Por isso, escolho abordar o assunto de um ângulo diferente, adotando uma perspectiva baseada, em parte, na história das idéias e, em parte, na fenomenologia. Nietzsche salientou que “o erro hereditário de todos os filósofos” é basear-se no homem de uma época particular e depois transformar isso numa verdade eterna. Assim, vou me contentar em declarar que o tédio é um fenômeno muito sério que afeta muita gente. Aristóteles insistiu em que a virtude não é natural, mas tampouco é antinatural. O mesmo se aplica ao tédio. Além disso, pode-se levar a cabo uma investigação sobre esse tema sem pressupor nenhuma constante antropológica, isto é, qualquer coisa dada independentemente de um espaço especificamente social e histórico. Estamos lidando aqui com uma investigação do homem numa situação histórica particular. É sobre nós que estou escrevendo, nós que vivemos à sombra do Romantismo, como românticos inveterados, sem a fé hiperbólica do Romantismo no poder da imaginação para transformar o mundo.

Embora toda boa filosofia deva conter um elemento importante de autoconhecimento, ela não precisa necessariamente tomar a forma de uma confissão inspirada nas Confissões de santo Agostinho. Muitos me perguntaram se me envolvi com este projeto porque sofria de tédio, mas o que sinto pessoalmente não deveria ser de nenhum interesse para os leitores. Não concebo a filosofia como uma atividade confessional, vejo a antes como uma atividade que trabalha para obter clareza – uma clareza que, reconhecidamente, nunca é mais que temporária –, na esperança de que a pequena área sobre a qual temos a impressão de ter lançado luz venha a ser também relevante para outros. De um ponto de vista filosófico, minha condição particular é irrelevante, ainda que, naturalmente, seja importante para mim.

Fiz um pequeno levantamento, não científico, entre colegas, alunos, amigos e conhecidos, e revelou-se que, em geral, eles eram incapazes de dizer se estavam entediados ou não – embora alguns tenham respondido na afirmativa ou na negativa e uma pessoa tenha até sustentado que nunca se sentira entediada. Aos leitores que, por ventura, nunca tenham se sentido entediados, posso dizer, à guisa de comparação, que o tédio profundo está relacionado, fenomenologicamente falando, à insônia, em que o “eu” perde sua identidade na escuridão, preso num vazio aparentemente infinito. Tentamos adormecer, damos talvez alguns passos hesitantes, mas não alcançamos o sono, e acabamos numa terra de ninguém, entre o estado de vigília e o sono. No Livro do desassossego, Fernando Pessoa escreveu:

Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem.

O tédio de Pessoa é óbvio – é distinto em toda a sua falta de forma. No entanto, é da natureza das coisas que poucos sejam capazes de dar uma resposta inequívoca quando perguntados se estão entediados ou não. Em primeiro lugar, estados de espírito, de maneira geral, raramente são objetos intencionais para nós – são precisamente algo em que nos encontramos, não algo para que olhamos conscientemente. Em segundo lugar, o tédio é um estado de espírito tipificado pela falta de qualidade, o que o torna mais elusivo que outros. O pároco de aldeia de George Bernanos fornece uma excelente descrição da natureza imperceptível do tédio em Diário de um cura de aldeia:

Eu me dizia, assim, que os homens são consumidos pelo tédio. Naturalmente, temos que refletir um pouco para perceber isto – não é coisa que se veja de imediato. É uma espécie de poeira. Vamos para cá e para lá sem vê-la, a aspiramos, a comemos, a bebemos, e ela é tão fina que nem sequer range entre nossos dentes. Mas basta pararmos por um momento, e ela assenta como um manto sobre nosso rosto e nossas mãos. Temos de estar a sacudir constantemente de nós essa chuva de cinzas. É por isso que as pessoas são tão agitadas.

É perfeitamente possível estar entediado sem ter consciência disso. E é possível estar entediado sem ser capaz de apontar qualquer razão ou causa. Os que afirmaram, em meu pequeno levantamento, estar profundamente entediados foram, muitas vezes, incapazes de expor com precisão o motivo; não era isso ou aquilo que os afligia, tratava-se antes de um tédio sem nome, sem forma, sem objeto. Isso lembra o que Freud disse acerca da melancolia, enfatizando uma semelhança entre esta e a tristeza, já que ambas contêm uma consciência de perda. Mas enquanto a pessoa triste tem sempre um objeto de perda específico, o melancólico não sabe exatamente o que perdeu…. [PDF]