“Cioran passando na alfândega do céu. Sainete em um ato” (Mircea Lăzărescu)

A ALMA DE CIORAN chega a uma das passagens de um mundo ao outro. A instância é completada e o guardião começa a ser o seu dossiê:

— Durante toda sua vida, este senhor aqui presente sustentou ardentemente, em textos publicados em romeno e em francês, que:

  1. A vida é uma tortura insuportável, de onde o desespero e o pensamento do suicídio;
  2. O fato de ter nascido é uma maldição; os homens devem cessar toda procriação;
  3. Normalmente, o homem é um animal doente; a saúde é de uma monotonia intolerável;
  4. É insensato e nocivo agir, trabalhar, agitar-se por um futuro melhor, crer no progresso;
  5. As únicas coisas acessíveis: permanecer na horizontal e nada fazer (apenas pensar), passear sem rumo dia e noite, esticar-se nos cemitérios e contemplar o céu, escutar a música de Bach e esperar os instantes de êxtase;
  6. Deus é um parceiro transcendente que se pode confrontar, mas… ele é demasiado complexo, tanto que, em suas regiões distantes, Ele se confunde com o nada, o vazio, de modo que…

—  Está correto, meu senhor?

Cioran: Sim, correto. O devir é uma miséria, e…

O Grande Inquisidor: Em que se baseia o senhor ao emitir as afirmações acima? Quais são os seus argumentos, as suas justificações?

Cioran: Não quero convencer ninguém. O que eu digo é claro e evidente. Está ao alcance de todos enxergá-lo, compreendê-lo. Para mim, está claríssimo!

— O Grande Inquisidor: Como se pode chegar ao ponto em que tudo isso se torna tão claro, tão certo? O êxtase oferece tais certezas? E como se pode aceder ao êxtase? Há métodos mais recomendáveis que outros, como a dúvida de Descartes, a dedução transcendental de Kant, a posta em parênteses de Husserl?

Cioran: Não quero saber desses filósofos secos e loucos de matemática. Quando e onde os matemáticos falam da morte, do sofrimento?

O advogado do diabo: Quero intervir. O meu cliente indicou diversas vezes uma via legal: a música de Bach. É perfeitamente possível que todos os encantamentos e as evocações dos deuses em benefício de todos os rituais que se possa imaginar, tenham relação com a música. Mas permaneçamos em Bach. Se uma cantata ou uma missa se digire a Deus, que a dirige a Ele? O seu compositor apenas? Apenas o senhor Cioran que a escuta na sua solidão cósmica? Aqueles que a tocam, que a cantam? Ou antes todos aqueles que se fazem presentes na igreja, toda a eclésia que participa da missa? As pessoas que mergulham em um hino endereçado à divindade não acederam a Deus pela música tanto quanto aquele que a escuta na solidão? Quem está mais próximo da transcendência, o padre que conduz a missa ou Bach que toca no órgão a música que ele mesmo compôs? E os deuses, não amam eles essa música superessencial? Não se inclinam eles sobre a parte solene da invocação, da festa que lhes é dedicada, ou também prestam atenção à música que se faz acompanhar da dança desencadeada, das bacantes que exprimem a tragédia? A música das danças humanas não é, ela também, música, mesmo quando desliza em direção ao êxtase? Ou a música lírica? Ou a música de trovadores? É verdade que a política deve tanto a Beethoven e à música dos triunfos? Ou então a música pitagórica das esferas, dos começos, da matéria e das matemáticas é preferível à lamentável música humana? E Darwin, ele não escreveu, no século XIX, após o seu diálogo com Herbert Spencer, que a música tem um papel evolutivo por sua implicação na seleção sexual das espécies, que…

Cioran (grito): Basta! Quanto a mim, eu falei das Variações Goldberg… e também…

Desce a cortina.

Na saída da sala, um dos assessores diz ao colega:

“Seja como for, este triste louco tem razão. Observe aqueles que se apaixonam pelos seus trabalhos, que não têm mais tempo à sua disposição, vítimas da obsessão do ganho, E, nas férias, entendiam-se até a morte, vão à praia, andam de esqui ou praticam o sexo. Tentam desesperadamente preencher o tempo, chegam até a se drogar com a televisão ou a Internet. O nosso cliente me faz pensar nos monges dos monastérios que a semana inteira rogavam ardentemente ao seu Deus para que os invadissem, cada tarde de domingo, um terrível vazio. Felizmente a democracia nos permite escutar todo mundo!”

LĂZĂRESCU, Mircea, Souffrance extase et haute folie pendant le XXe siècle. Chronique des trois jours de la commémoration du centenaire de la naissance de Cioran, racontée par un psychiatre. Préface, notes et traduction du roumain par Mihaela-Gențiana Stănișor. Timișoara: Brumar, 2013.

Tradução do francês: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes