O irreligioso, o demoníaco, o que incapacita para a ação ou nos deixa sem defesa ideal contra nossas más tendências, é o pessimismo que Goethe põe na boca de Mefistófeles quando o faz dizer: “Tudo quanto nasceu merece soçobrar” (denn alles was entsteht ist wert dass es zugrunde geht). Este é o pessimismo que nós, homens, chamamos mau, e não aquele outro que ante o temor de que, ao final, tudo se aniquile, consiste em deplorá-lo e lutar contra esse temor. Mefistófeles afirma que tudo o que nasce merece ser aniquilado, mas não que soçobre  ou seja aniquilado, e nós afirmamos que tudo quanto nasceu merece elevar-se, eternizar-se, ainda que não consiga nada disso. A posição moral é a contrária.

Sim, tudo merece eternizar-se, absolutamente tudo, até o mal mesmo, pois o que chamamos de mal, ao eternizar-se, perderia sua maldade, perdendo sua temporalidade. Pois a essência do mal esteja em sua temporalidade, em que não se dirija a um fim último e permanente.

E por acaso não seria demasiado dizer aqui algo dessa distinção, uma das mais confusas que há, entre o que se costuma chamar pessimismo e otimismo, confusão não menor do que aquela que impera ao distinguir-se o individualismo do socialismo. Apenas cabe dar-se conta do que seja esse pessimismo.

Hoje, precisamente, acabo de ler em The Nation (número de 6 de julho de 1912) um editorial intitulado: Um inferno dramático (A dramatic Inferno), referente a uma tradução inglesa das obras de Strindberg, e que se inicia com estas judiciosas observações: “Se houvesse no mundo um pessimismo sincero e total, seria necessariamente silencioso. A desesperação que encontra voz em um modo social é o grito de angústia que um irmão lança a outro quando ambos vão tropeçando por um vale de sombras populado de camaradas. Em sua angústia, atesta que há algo bom na vida, porque pressupõe simpatia… O pesar real, o desespero sincero, é mudo e cego; não escreve livros nem sente impulso algum a carregar um Universo intolerável com um monumento mais duradouro que o bronze”. Neste juízo há, sem dúvida, um sofisma, porque o homem a quem dói, para desabafar, chora e até grita, ainda que esteja só e ninguém o ouça, se bem que isto ocorra por hábitos sociais. Mas o leão isolado no deserto não ruge se lhe dói um dente? Mas, isso a parte, não cabe negar o fundo de verdade dessas reflexões. O pessimismo que protesta e se defende não pode dizer-se que seja tal pessimismo. E, portanto, não o é, em rigor, o que reconhece que nada deve soçobrar ainda que tudo soçobre, e o é aquele que declara que tudo deve soçobrar, ainda que nada soçobre.