“Reflexões sobre a miséria” (Emil Cioran)

Alguns aspectos da vida exprimem uma sentimentalidade lírica quando menos  esperado. O pensamento cristaliza um conteúdo que não pode ultrapassar seus limites e aceita fatalmente a determinação, enquanto que a revolta é comprimida em formas. A miséria é um desses aspectos; diante dela, o pensamento emudece, não ousa afirmar-se, perde todo impulso. Evidentemente, essa atitude é menos característica de quem suporta a miséria que daquele que tenta compreendê-la. O processo de compreensão não deve ser interpretado como o resultado de um cuidado puramente objetivo ou de paradoxos bizarros de um estetismo qualquer. Ele exprime uma perplexidade profunda, à qual não se encontra solução. Diante da miséria, o estetismo torna-se uma forma de vida inadmissível. Cultivar o estético por ele mesmo é negligenciar a estrutura complexa da problemática da vida, é passar superficialmente sobre as antinomias elementares ou sobre as irredutibilidades que caracterizam a natureza qualitativa e múltipla da existência. A miséria torna possível uma concepção espetacular da vida, pois, como a dor ou a doença, exclui as possibilidades de objetivação, ultrapassa todas as intenções dualistas, anula o esforço perspectivista que mantém uma separação permanente.

Revestiu-se o estetismo de uma ilusória aura aristocrática, mas ele se revelou estéril e incompatível com a compreensão da vida. Sua falsa aristocracia é o fruto de uma estilização que, atribuindo primazia ao elemento formal, aparta o núcleo de um conteúdo substancial e concreto.

A miséria destruiu a crença na beleza, o culto da beleza.

Quando Dostoiévski dizia que a beleza salvaria o mundo, não pensava no caráter formal de uma ordem harmoniosa, mas na pureza de um conteúdo de vida,

A propósito do momento histórico atual, notemos que se não mais se crê nas normas da moral, isto se deve ao fenômeno da miséria tanto quanto a razões de ordem filosófica. A ordem moral só tem sentido para quem se enquadra organicamente na vida — biológica e social — e para quem o fluxo irracional da existência pode ter algum charme. Enquanto que a miséria implica uma desintegração do homem fora da vida, uma oscilação dolorosa e uma instabilidade permanente que excluem a possibilidade de um quadro normal.

O que é impressionante na natureza particular da miséria é que em contato com ela nós não pensamos em medidas objetivas de ordem econômica, mas no fato de que é negligenciada pelos homens que conhecem sua existência e que poderiam combatê-la. O mesmo sentimento diante de ruínas: a melancolia e os lamentos não são engendrados pelos escombros, mas pelo fato de que o homem abandonou esses muros, deixou-os desmoronar.

O pensamento torna-se mudo, incapaz de compreender a miséria, porque o elemento antropológico oculta o elemento econômico. Para o homem, a estrutura econômica permanece relativamente exterior; constitui-se mediante um processo independente que a faz resultar da objetividade. O irracional em matéria econômica não possui fundo subjetivo. A eficácia resulta do condicionamento que uma força transcendente ao homem, e da qual necessita, impõe à sua natureza.

Quando se debruça sobre a miséria, considera-se a estrutura econômica em sua transcendência, atribuindo quase todas as responsabilidades aos homens.

A experiência da miséria confirma a tese da vaidade dos ideais, da nulidade ou insignificância dos valores, pois ela aprofunda um fosso entre o mundo da vida concreta e a região ideal do espírito.

Esse dualismo torna a vida impossível pois ele só é considerado válido por alguns. Para eles, a desarmonia íntima é catastrófica.

A vida ordenada e estabilizada é regida por critérios e normas, por um sistema de validações. Tudo é permitido para aquele que vive na miséria. O sistema rígido que fixa os limites das validações perde, neste caso, toda consistência. É por isso que condená-lo representaria um ato de incompreensão.

Se o fenômeno da miséria se apresentava outrora isoladamente, sem equivalentes nos diferentes planos do espírito, ele se faz acompanhar atualmente de um fenômeno correspondente no plano cultural. Acontece que a enorme miséria material que recobre cada vez mais o mundo coincide com um processo de decadência da cultura moderna. Não se trata de uma anterioridade que permitira estabelecer relações de sucessão entre as diversas formas da vida. A decadência da cultura se produziria igualmente sem a miséria atual. Mas a correspondência de planos diferentes dá ao declínio um aspecto muito mais catastrófico que o de precedentes históricos. O desengano do homem atual encontra sua explicação e sua justificação no complexo de condições que confere à nossa época uma configuração muito particular.

Não é inútil mencionar a influência dessa conjuntura sobre os jovens de nossa época. O envelhecimento precoce, a recusa blasé das antigas formas de vida, a incerteza, o pressentimento de uma reviravolta trágica, a gravidade melancólica, tudo isso substitui a espontaneidade ingênua e o impulso à irracionalidade próprios da juventude autêntica. Impondo-se logo o problema social, o indivíduo é arrancado do quadro habitual da vida e lançado no turbilhão e no abismo. Antes, os jovens não se colocavam o problema social; sua insistência nisso é hoje um signo de envelhecimento.

Wilhelm Dilthey disse de Hegel que ele fazia parte das pessoas que nunca foram jovens. Em Tübingen, seus condiscípulos o chamavam der alte Mann [o velho homem]. Se, no seu caso, a explicação desse fenômeno reside em particularidades pessoais, deve-se buscá-la atualmente numa determinação geral, numa estrutura coletiva. A cultura mais recente é o fato de homens que nunca foram jovens. Para eles, a miséria é um fator essencial do envelhecimento.

A instabilidade provocada pela miséria tem por efeito o medo do futuro.

Não pode haver equilíbrio se não se assume o presente. Deslocar a consciência em direção ao futuro anula a vivência ingênua e todas as chances de equilíbrio.

O que causa a infelicidade do homem de hoje é que ele é incapaz de viver no presente.

O futuro é um elemento de incerteza e, de resto, a miséria atual o desintegra. Não há salvação à vista para o homem atual.

CIORAN, Emil, “Réflexions sur la misère”, in Solitude et destin [originalmente em Floarea de foc, 30 de janeiro de 1932]. Paris: Gallimard, 2004, p. 57-61.

Tradução do francês: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes