Existe um tipo de brinquedo que vem se multiplicando há algum tempo,e sobre o qual nada tenho de bom ou ruim a dizer. Refiro-me ao brinquedo científico.
Charles Baudelaire, “A filosofia dos brinquedos”

O QUE A CIÊNCIA NÃO NOS DIZ

Em seu romance antiutópico sobre um país fictício, Erewhon (anagrama do inglês “nowhere“, lugar nenhum), publicado anonimamente em 1872, o romancista vitoriano Samuel Butler cita alguém por ele identificado como outro escritor (na verdade ele próprio), afirmando:

Não há segurança […] contra o supremo desenvolvimento da consciência mecânica no fato de as máquinas possuírem hoje pouca consciência. Um molusco não tem muita consciência. Reflitamos no extraordinário avanço feito pelas máquinas nos últimos séculos, notando como os reinos animal e vegetal avançam lentamente. As máquinas mais altamente organizadas são criaturas não tanto de ontem, mas dos cinco últimos minutos, por assim dizer, em comparação com o tempo passado. Admitamos, a bem da argumentação, que os seres conscientes existem há cerca de vinte milhões de anos: vejam-se os passos largos dados pelas máquinas nos últimos mil! Acaso não poderia o mundo durar mais vinte milhões de anos? Neste caso, o que não haverão elas de se tornar no fim?

Quando Butler escreveu esse trecho, um século e meio atrás, a ideia de uma máquina consciente devia parecer tão fantástica que nem merecia ser levada em consideração. Hoje há quem espere que essas máquinas estejam entre nós dentro de algumas décadas. Seria absurdo questionar o aumento do conhecimento científico que nos possibilita imaginar máquinas assim. Mas como poderá sua chegada afetar a maneira como nos vemos? Acaso as veremos com mecanismos estúpidos imitando com habilidade a consciência humana? Ou aceitaremos que dispõem de algo parecido com nossa autoconsciência? O que quer que venhamos a decidir, as respostas não nos serão dadas pela ciência. Pode parecer curioso que a ciência nos possibilite fazer máquinas assim mas não seja capaz de nos dizer o que foi que fizemos. Mas a ciência não fornece nenhuma imagem definitiva das coisas. A prática da investigação científica tem sido acompanhada de muitas diferentes visões de mundo. Entre os cientistas do Renascimento, a ciência e a magia eram aliadas muito próximas. Sem que o soubessem, alguns dos pensadores científicos mais militantes do século XX adotaram uma visão das coisas que é essencialmente gnóstica.

Hoje em dia nada está investido de tanta autoridade quanto a ciência, mas na verdade não existe nada como “a visão científica do mundo”. A ciência é um método de investigação, e não uma visão de mundo. O conhecimento se expande em velocidade acelerada; mas nenhum avanço da ciência será capaz de nos dizer se o materialismo é verdadeiro ou falso, ou se os seres humanos são dotados de livre-arbítrio. A crença de que o mundo é formado de matéria é uma especulação metafísica, e não uma teoria suscetível de ser testada. A ciência pode ser capaz de explicar os acontecimentos em termos de causa e efeito. Em certas explicações; pode ser capaz de formular leis da natureza. Mas o que significa o fato de algo causar algo mais, e o que é uma lei da natureza? São perguntas para a filosofia ou a religião, e não para a ciência.

Embora talvez seja o meio mais eficaz de explicar como o mundo funciona, a ciência não pode explicar suas próprias realizações. A investigação científica talvez tenha êxito porque tudo que existe obedece a algumas leis simples, que os seres humanos começaram a identificar. A ordem da mente humana talvez espelhe a do cosmo. Mais uma vez, o sucesso da ciência pode derivar do fato de seus praticantes habitarem um cantinho do universo que não é caótico. Talvez a desordem da mente humana é que melhor reflita a realidade.

É uma questão interessante tentar saber como adquirimos nossa visão de mundo. Não resta dúvida de que a razão desempenha um papel, mas as necessidades humanas de significado e propósito geralmente são mais importantes. As vezes, o gosto pessoal pode ser o fator decisivo. Não há como afirmar que, uma vez feito todo o trabalho da razão, restará apenas uma visão do mundo. Pode haver muitas que se ajustem a tudo que pode ser conhecido. Nesse caso, podemos perfeitamente escolher a visão do mundo que consideremos mais interessante ou bela. Adotar uma visão de mundo mais se parece com a escolha de uma pintura para pendurar na sala do que com o teste de uma teoria científica. O teste consiste em saber como ela se adapta à nossa vida. Como é que a visão de que os seres humanos são máquinas se adapta à nossa vida no momento?

Nos últimos séculos, muitos têm sustentado que a ciência mostra que o materialismo é verdadeiro, concluindo que qualquer outra visão das coisas é uma ilusão a ser afastada. Mas esse catecismo moderno é equivocado. Ainda que a ciência pudesse demonstrar a verdade do materialismo, não se seguiria daí que qualquer outra visão do mundo deva ser rejeitada. Muito possivelmente o resultado da investigação científica será que a mente humana não pode funcionar sem mitos e fantasias. Neste caso, a ciência nos devolveria a nossas ilusões.

Seja ou não verdadeiro o materialismo, não tem fundamento a ideia de que os seres humanos sejam especiais por serem autoconscientes. Não-há nada especificamente humano na centelha de sensibilidade normalmente chamada de consciência. Os golfinhos adoram se contemplar no espelho ao fazer sexo, e os chimpanzés reagem à morte dos entes queridos praticamente do mesmo jeito que os seres humanos. Pode-se objetar que esses animais não têm um entendimento claro do tipo de criatura que são ou do que significa morrer. Mas tampouco sob esses aspectos eles são diferentes dos seres humanos.

A ideia de que a consciência é um mistério é um preconceito herdado do monoteísmo. No início do século XVII, o filósofo francês René Descartes considerava que os animais, à parte os seres humanos, eram máquinas desprovidas de sensações. Naturalmente, era uma reafirmação em termos racionalistas da crença cristã de que apenas os seres humanos têm alma. Ainda que mente e matéria fossem categoricamente distintas, isto não significaria que apenas os seres humanos têm mente. Foi relatado que, para testar suas teorias, Descartes costumava atirar animais pela janela e observar suas reações. Ante comportamentos assim, poderíamos razoavelmente concluir que os seres humanos é que são as máquinas desprovidas de sensações.

Além de acreditar que apenas os seres humanos são providos de mente, Descartes dava como líquido e certo que a mente sempre tem consciência das próprias atividades. Era parte da distinção categórica que estabelecia entre mente e matéria. Mas por que deveria a consciência ser tudo ou nada? Não é assim nos seres humanos. Boa parte de nossa vida é passada no sono; no estado desperto, somos possuídos por sonhos meio esquecidos. Em vez de a mente estar sempre consciente de suas atividades, boa parte do que ela faz lhe é desconhecido.

O mistério não é a consciência, mas as sensações vivenciadas por todo ser sensível. Seja ou não autoconsciente, qualquer criatura habita um mundo que em certa medida criou. Ninguém entende como ocorre esse processo de criação, e não há motivos para supor que alguém venha a entendê-lo. Como o universo pode abranger uma quantidade possivelmente infinita de mundos subjetivos não é, com toda evidência, um problema solúvel. Se admitirmos que a consciência tem diferentes graus, aceitaremos que a vida do espírito pode irromper em qualquer lugar. Além dos seres humanos, a autoconsciência pode existir não apenas em outros animais como em plantas, águas-vivas, vermes e muitas outras coisas vivas. A ironia do materialismo é que implica exatamente isso. Como sabemos que os seres humanos são conscientes, segue-se — como observou Leopardi ao escrever sobre a alma dos animais — que sabemos que outras coisas vivas também são conscientes. Também sabemos que o mesmo preceito um dia se aplicará às máquinas. Da mesma maneira, todo mundo dá como certo que, se existe um livre–arbítrio, apenas os seres humanos podem tê-lo. Mas se a consciência pode existir em muitas espécies, por que não também a liberdade de escolha? Considerando-se como o comportamento humano pode ser tristemente previsível, talvez fizesse mais sentido perguntar se os gorilas, os golfinhos e as máquinas têm livre-arbítrio. A ideia de que só poderia existir em nós mesmos é mais um exemplo do dogma, derivado da religião, e não da ciên-cia, segundo o qual os seres humanos são separados do mundo natural.

O que parece singularmente humano não é a consciência nem o livre–arbítrio, mas o conflito interno — os impulsos conflitantes que nos separam de nós mesmos. Nenhum outro animal busca a satisfação dos próprios desejos e ao mesmo tempo a amaldiçoa; passa a vida no terror da morte mas se dispõe a morrer para preservar uma imagem de si mesmo; mata a própria espécie em nome de sonhos. Não é a autoconsciência, mas a divisão de si mesmo, que nos torna humanos.

Não parece claro como essa divisão surgiu. Não existe uma teoria científica convincente sobre a questão. A melhor análise ainda é a do livro do Gênesis. Mas a melhor interpretação desse mito insondavelmente rico talvez não seja a sugerida por Herr C. no conto de Kleist. Uma versão da interpretação tradicional talvez seja mais verdadeira e subversiva das duas maneiras de pensar.

Como Herr C., os pensadores modernos imaginaram que os seres humanos podem alcançar um estado de liberdade comendo mais da Árvore do Conhecimento, de tal maneira que — em dado momento de um futuro distante — venham a se tornar seres plenamente conscientes. Depois, os seres humanos serão verdadeiramente livres. Mas ainda que isso fosse possível, algo teria sido perdido. Como observou Herr C., uma marionete plenamente consciente seria um deus. Não seria humana.

Aqueles que gostariam de criar uma versão superior da humanidade pretendem criar uma marionete assim. Dando como certo que a auto-consciência é o atributo que define os seres humanos, ignoram o fato de que muitas das partes da vida humana que são mais caracteristicamente humanas têm muito pouco a ver com o pensamento consciente. Temos tão pouca ideia da maneira como entendemos uns aos outros quanto do modo de autorregulação de nosso corpo. Uma vida plenamente examinada — se fosse possível — poderia muito bem ser totalmente sem valor.

Os racionalistas gostam de pensar que a parte inconsciente da mente é uma relíquia de nossa ancestralidade animal, que poderá ser deixada para trás com novas etapas evolutivas. Muito mais que pensamento consciente, contudo, é nossa mente animal que nos faz como somos. A ciência, a arte e as relações humanas surgem de processos de que só podemos ter urna consciência indistinta. As forças criativas mais essencialmente humanas não seriam necessariamente expandidas se os seres humanos fossem mais plenamente conscientes. Como os golens das lendas medievais, um robô dotado apenas de conhecimento consciente seria ainda mais estúpido que seus criadores humanos.

Felizmente, a evolução não funciona assim. Quando surgirem no mundo, as máquinas pensantes serão obra de animais falhos e intermitentemente lúcidos com mentes cheias de contrassensos e ilusões. Em tempo, como percebeu Bruno Schulz, a matéria — o verdadeiro demiurgo — vai incutir vida dos manequins. Do pó e da terra — “como a sorte, o destino” —, o espírito renascerá. Em mutação sob a pressão da entropia, as máquinas inventadas pelos seres humanos vão desenvolver falhas e defeitos próprios. Logo, não terão mais consciência de partes da própria mente; repressão, negação e fantasia toldarão o céu vazio da consciência. Surgindo de um mundo interior que não entendem, impulsos antagônicos governarão seu comportamento. No fim das contas, essas máquinas meio capengas terão a impressão de estar escolhendo seu caminho na vida. Como no caso dos seres humanos, pode ser uma ilusão; mas à medida que a sensação se impõe, vai gerar o que nos seres humanos costumava ser chamado de alma.

ÉTICA PARA FANTOCHES

Como poderá viver o fantoche? Caberia supor que um fantoche não tem escolha na questão. Mas a Über-Marionete — criatura semelhante ao títere que, em consequência dos acidentes da evolução, adquiriu autoconsciência — está fadada a viver como se decidisse o que faz. De vez em quando pode entrar em modo contemplativo, encarando a vida como algo que lhe foi dado. Mas quando o fantoche age, não pode deixar de se sentir livre.

As Über-marionetes têm irredutivelmente muitos pontos de vista divergentes sobre a maneira como deveriam viver. Como esses fantoches pensantes são iguais sob certos aspectos em qualquer lugar,. alguns valores são humanamente universais. Ser torturado ou perseguido é ruim, qualquer que seja a cultura a que se pertença; ser objeto de atenção e gentileza é bom. Mas esses valores muitas vezes estão em conflito uns com os outros e com as virtudes específicas de diferentes modos de vida. Os valores universais não redundam em uma moral universal. A menos que se acredite que os valores humanos têm uma origem fora do mundo humano, devemos encarar os seres humanos tal como se apresentam — com suas morais em perpétua guerra.

Ao mesmo tempo, certas morais se baseiam em uma interpretação mais verdadeira da situação humana que outras. Levando em conta apenas a tradição ocidental, a ética grega difere da moral do judaísmo e do cristianismo em alguns aspectos fundamentais. Mas os três diferem das formas predominantes da moral moderna, e nesses aspectos é que se mostram mais valiosas essas variedades mais antigas do pensamento moral.

Os gregos antigos não entendiam a ética como um conjunto de comandos e proibições, mas como toda a arte da vida. Para florescer, os seres humanos precisavam de virtudes; os maus estados mentais e o mau caráter podiam ser um obstáculo para a boa vida. Mas não havia uma ideia de mal nessa maneira grega de pensar. Para Sócrates, quem conhece a verdadeira natureza das coisas não pode deixar de ser bom. A crença de que os seres humanos deixam de levar a boa vida por ignorância reaparece no pensamento moderno: à medida que aumenta o conhecimento científico, acreditam muitos hoje, aumentará também a bondade humana.

Em Sócrates, essa crença no poder salvador do conhecimento expressava uma fé metafísica: se uma pessoa sábia não podia deixar de ser boa, era por se identificar com uma ordem perfeita das coisas que existia além do reino dos sentidos. Quem lê apenas histórias convencionais da filosofia jamais saberá que o santo do racionalismo consultava oráculos, buscava significado em sonhos e obedecia a um guia interno a que se referia como “a voz de Deus”. Sócrates nunca abriu mão completamente do antigo xamanismo grego; mas suas insinuações iam muito além dessas crenças e práticas. Afirmando que nada sabia ao certo, ele jamais duvidou que o mundo fosse racional. No fundo da crença socrática na razão está uma equação mística do verdadeiro e do bom. Esquecidas ou negadas suas origens, ela se tornou a base do racionalismo ocidental — a versão oca do ensinamento de Sócrates que Nietzsche zombeteiramente chamava de socratismo.

Felizmente não havia apenas filosofia na Grécia antiga. Os trágicos gregos expressavam uma versão mais verdadeira da experiência humana: virtude e raciocínio não bastam para que os seres humanos levem uma vida digna. O mito grego conta a mesma história. Tendo formado os seres humanos a partir da argila, Prometeu lhes confere a posição ereta e o uso do fogo. Zeus pune Prometeu acorrentando-o a uma rocha, onde leva pela eternidade uma vida sem sono nem alívio de seus tormentos. Até a autoafirmação de um deus acaba em orgulho e arrogância, sempre punidos.

O judaísmo contém algo semelhante ao senso grego da tragédia: apesar de no fim ter aceito a vontade de Deus, o fato de Jó ter questionado a justiça divina representava um desafio a qualquer crença na suprema harmonia moral. Em contraste, ao afirmar que Deus pode redimir qualquer mal e até anular a morte, o cristianismo mostra que é uma fé antitrágica. Se Jesus, tendo morrido na cruz, continuasse morto, teria sido uma tragédia. Na história cristã, contudo, ele ressuscitou e voltou ao mundo. Mas o cristianismo está ainda mais próximo da compreensão antiga da tragédia do que das formas modernas de pensar. Tal como desenvolvido por Paulo e Agostinho, o cristianismo reconhecia que nada que os seres humanos venham a fazer será capaz de resgatá-los de seu estado decaído. Aqui os cristãos não são tão diferentes dos gregos antigos, que sabiam que nada protege os seres humanos do destino.

Onde essas morais antigas se mostram superiores às morais modernas é na compreensão de que a humanidade jamais poderá superar suas limitações intrínsecas. Só em tempos recentes os seres humanos passaram a se considerar potencialmente divinos. Os pensadores antigos eram mais inteligentes, além de mais honestos. Sabiam que a ação humana é capaz de mudar o mundo, às vezes para o bem. Também sabiam que as civilizações surgem e desaparecem; o que foi conquistado se perderá, será reconquistado e outra vez perdido, em um ciclo tão natural quanto as estações.

Essa visão das coisas foi articulada em uma carta de Otávio César, também conhecido como Augusto, fundador do Império Romano, escrita durante uma viagem marítima em 14 a.C.:

Roma não é eterna; não importa. Roma cairá; não importa. O bárbaro conquistará; não importa. Houve um momento de Roma, e ele não morrerá completamente; o bárbaro vai se transformar na Roma que conquistar; a língua vai abrandar sua língua rude; a visão do que ele destrói circulará em seu sangue. E em um tempo tão incessante quanto esse mar salgado sobre o qual estou tão fragilmente suspenso, o custo é nada, é menos que nada.

Hoje, praticamente ninguém seria capaz de aceitar uma ética assim estoica. A carta é ficção — trecho do romance Augustus, de John Williams, publicado em 1972. Mas não resta muita dúvida de que atitudes como essa de Augusto eram comuns no mundo antigo. As Meditações de Marco Aurélio, um registro das ideias de um imperador romano que viveu e governou cem anos depois de Augusto, contêm muitas expressões semelhantes de filosofia estoica. Como o autor da carta fictícia, Aurélio exorta a uma decidida defesa da civilização contra a barbárie, sem qualquer esperança de que a civilização possa afinal prevalecer.

Vivendo antes do triunfo do cristianismo, Augusto e Aurélio não imaginavam que a história tivesse um significado global. Não havia nenhum fio oculto de redenção ou aperfeiçoamento na passagem dos acontecimentos. Formados em uma mistura coagulada de socratismo e retalhos de cristianismo deteriorado, os pensadores modernos condenam aí uma suposta voz do desespero. No mundo antigo, ela expressava saúde e clareza mental. Se essa sanidade não pode ser resgatada hoje, é porque a crença monoteísta de que a história tem um significado continua a moldar a maneira moderna de pensar, mesmo depois da rejeição do próprio monoteísmo. O mais radical crítico moderno da religião, Nietzsche lastimava a influência formadora do monoteísmo, ao mesmo tempo exibindo ele próprio essa influência. A figura absurda do Übermensch encarna a fantasia de que a história pode ser dotada de significado por força da vontade humana. Pretendendo em suas primeiras obras restabelecer o senso da tragédia, Nietzsche acabou promovendo mais uma versão do projeto moderno de autoafirmação humana.

Para rejeitar qualquer ideia de Deus, é preciso aceitar que a “humanidade” — o sujeito universal que encontra redenção na história — tampouco existe. O fato de poucos serem capazes disto é um dos motivos pelos quais a ética da Antiguidade é irrecuperável. Mas há um outro motivo: defender a civilização é uma tarefa intratavelmente difícil, ao passo que a barbárie vem com a promessa de transgressão e excitação. A fragilidade da civilização é testemunha do perene sonho de uma vida sem restrições.

Antes de significar qualquer coisa, a civilização implica contenção no uso da força; mas quando serve a objetivos aparentemente nobres, a violência tem um glamour irresistível. Como os astecas, a humanidade moderna está presa à matança; mas as visões com que justifica as carnificinas em massa são mais primitivas e irreais que os deuses zombeteiros dos astecas. Guerras e revoluções empreendidas em nome da liberdade universal exigiram sacrifícios humanos em uma escala que os astecas nem poderiam imaginar. O que Leopardi chamava de “barbárie da razão” revelou-se mais selvagem que a barbárie do passado.

A liberdade entre os seres humanos não é uma condição humana natural. É a prática da não interferência recíproca — uma habilidade rara que é aprendida gradual e rapidamente esquecida. O objetivo dessa liberdade “negativa” não é promover a transformação evolutiva dos seres humanos em seres racionais ou permitir-lhes governar a si mesmos; é proteger os seres humanos uns dos outros. Dividido contra si mesmo, o animal humano é antinaturalmente violento por sua própria natureza. A antiquada liberdade da não interferência aceita esse fato. Exatamente por esse motivo, tal liberdade não pode deixar de ser desvalorizada em uma época na qual qualquer referência às falhas do animal humano é condenada como blasfêmia.

No momento, as práticas em que essa liberdade se manifesta — habeas corpus, tribunais abertos, o império da lei — estão sendo comprometidas ou descartadas. Paralelamente ao sequestro e às execuções secretas, a tortura foi adotada como arma essencial na luta pelos direitos humanos. As únicas salvaguardas da liberdade que jamais foram ainda que parcialmente eficazes estão sendo descartadas na busca de ficções. Ao mesmo tempo, novas espécies de despotismo surgem em muitas partes do mundo. Governos contemporâneos recorrem às mais recentes tecnologias para desenvolver técnicas hipermodernas de controle muito mais invasivas que as das tiranias tradicionais. Se algum tipo de liberdade pode ser encontrado nessas condições, será uma versão da variedade interior que era valorizada pelos pensadores do mundo antigo. Em alguma futura virada do ciclo, a liberdade nas relações dos seres humanos uns com os outros poderá retornar; mas no presente e no futuro previsível com clareza, é apenas a liberdade que pode ser rea-lizada dentro de cada ser humano que pode ser segura. Nada é mais alheio ao espírito de nossa época que sugerir que alguém busque a liberdade interior, pois dá a entender que existe dúvida quanto à crença prevalecente de que o mundo humano está melhorando. Com toda evidência, muitos não são capazes de dispensar essa crença confortadora. O mais caridoso é deixá-los em seu sono. Mas para os de mente mais ousada, talvez valha a pena examinar — ainda que apenas como uma experiência do pensamento — o que pode significar hoje a liberdade interior.

GRAVIDADE E QUEDA

Tal como apresentadas por Herr C., as marionetes têm uma vantagem sobre os seres humanos: os fantoches podem desafiar a gravidade. Basta lembrar sua entusiástica descrição: “esses fantoches têm a vantagem de ser resistentes à gravidade. Do peso da matéria, o fator que mais atua contra o dançarino, são totalmente ignorantes: pois a força que os eleva no ar é maior que a que os prende ao solo […].” A marionete é capaz de resistir à gravidade porque não precisa decidir como vai viver. Os seres humanos são vacilantes em seus movimentos, eternamente a ponto de cair. Mas e a Über-marionete — o ser humano que sabe que é uma máquina? Deveria acaso invejar o gracioso automatismo do fantoche?

Na história contada por Herr C., os seres humanos se libertam quando se tornam plenamente conscientes. Para essas criaturas divinas, não pode haver nada misterioso. O mistério se dissipa com uma consciência cada vez maior, e a verdadeira liberdade significa viver de acordo com essa luz interior. Trata-se, naturalmente, de uma crença muito antiga — a fé dos gnósticos, e também de Sócrates. Ambos acreditavam que a liberdade era alcançada pela posse de um tipo especial de conhecimento. O racionalismo moderno é outra versão dessa religião. Os evangelistas contemporâneos da evolução, os trans-humanistas e os tecnofuturistas também são seguidores desse credo. Todos promovem o projeto de ex-pulsar o mistério da mente.

O problema desse projeto é que ele tem como efeito confinar a mente em si mesma. Em um mundo no qual nada existe que não possa ser explicado, tudo que acontece se encaixa em um esquema oculto. No gnosticismo, o mundo é o brinquedo de um demiurgo. Para os teóricos da conspiração, a história é escrita por ações ocultas. Para os racionalistas seculares, o esclarecimento é comprometido pelas forças sinistras da superstição e da reação. Temos aqui um padrão: na tentativa de exorcizar o mistério da mente, o indivíduo acaba — como Philip K. Dick — preso em um universo paranoico e possuído por demônios.

Depois de aparentemente aniquilado pelo cristianismo, o gnosticismo conquistou o mundo. A crença no poder libertador do conhecimento tornou-se a ilusão dominante da humanidade moderna. A maioria quer acreditar que algum tipo de explicação ou compreensão vai libertá-los de seus conflitos. Mas estar dividido em relação a si mesmo tem a ver com ser autoconsciente. É a verdade no mito do Gênesis: a Queda não é um acontecimento no início da história, mas a condição intrínseca dos seres autoconscientes.

Só criaturas falhas e ignorantes como os seres humanos podem ser livres da maneira como os seres humanos são livres. Não sabemos como a matéria sonhou nosso mundo para criá-lo; não sabemos o que acontece, se é que acontece, quando o sonho acaba e nós morremos. Ansiamos por um tipo de conhecimento que nos tornasse diferentes do que somos — embora não saibamos dizer o que gostaríamos de ser. Por que tentar fugir de si mesmo? Aceitar o fato do não saber possibilita uma liberdade interna muito diferente da perseguida pelos gnósticos. Quem dispõe dessa capacidade negativa não desejará um modo superior de consciência; sua mente comum vai lhe proporcionar tudo de que precisa. Em vez de tentar impor sentido à própria , vida, o indivíduo se limitará a permitir que o significado venha e vá. Em vez de sonhar em se tornar um fantoche resoluto, vai se render à confusão da escolha e abrir caminho no vacilante mundo humano. Über-marionetes não precisam esperar poder voar para ser livres. Sem expectativa de ascender ao céu, podem encontrar liberdade caindo na terra.

GRAY, John, A alma da marionete. Um breve ensaio sobre a liberdade humana. Trad. de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2018.