“Espírito de porco” (Bernardo Carvalho)

Folha de S. Paulo, “Ilustrada”, 10 de fevereiro de 2001

Admirar E. M. Cioran (1911-95), autor de “Exercícios de Admiração”, não é uma tarefa simples. Porque é o lado vil e demasiado humano que o pensador de origem romena, que se mudou para a França em 1937, destaca, não só nos autores sobre os quais escreve e com os quais se identifica, nem que seja por oposição, mas em si mesmo:

“Como as cartas de Rilke, de que tanto gostava antigamente, agora me parecem exangues e insípidas! Nenhuma alusão é feita nelas ao lado mesquinho da pobreza. Escritas para a posteridade, sua “nobreza” me repugna. (…) Fingir-se espírito puro beira a indecência”.

O que fascina Cioran é o confronto sem encantos com o vazio, não sem antes passar pela consciência do desespero, dos podres, dos maus sentimentos, do fracasso e da própria pusilanimidade, como se só assim fosse possível desmascarar a hipocrisia e a monstruosidade em si e nos outros e revelar o humano na sua dimensão mais verdadeira:

“Os esforços que fazemos para nos afirmar, para nos igualar aos nossos semelhantes e, se possível, superá-los têm razões vis, inconfessáveis, logo profundas. As resoluções nobres (…) carecem inevitavelmente de vigor (…). Tudo pelo que sobressaímos procede de uma origem obscura e suspeita, de nossas profundezas verdadeiras”.

“O que mais gosto nele é da confissão dos seus fracassos”, escreve Cioran sobre o ensaísta italiano Guido Ceronetti. “De todas as criaturas, as menos insuportáveis são as que odeiam os homens. Não se deve nunca fugir de um misantropo.” Ou sobre os próprios exercícios de admiração: “Só existe uma maneira de louvar: inspirar medo àquele que exaltamos, fazê-lo tremer, obrigá-lo a esconder-se longe da estátua que lhe construímos, forçá-lo, através da hipérbole abundante, a apreciar sua mediocridade e admiti-la”.

O título do livro, que estava esgotado no Brasil e agora é relançado pela Rocco, ganha assim um outro sentido, se não ambíguo, pelo menos bem mais complexo do que se poderia imaginar à primeira vista.

Além dos textos (ensaios, prefácios e cartas) sobre escritores admiráveis, como Beckett, Borges e F.Scott Fitzgerald, entre outros, Cioran faz uma exaltação do pensamento reacionário de Joseph de Maistre (1753-1821), menos pelo seu conteúdo absoluto do que por seu efeito relativo, de circunstância, contra a revolução; menos pelo que defende o reacionário do que pela forma e o lugar em que ataca, pelo método, por ser “do contra” e “cultivar o equívoco”: “A indignação é menos um gesto moral que literário, é mesmo a mola da inspiração”.

Para Cioran, é o espírito de porco, de provocação, que mantém o pensamento vivo e em movimento permanente contra as idéias aceitas e consensuais, e nem por isso menos convencionais. Só o pensamento que vai na contramão em permanência, sob o risco de contradições e paradoxos, pode ultrapassar a superfície e as convenções para revelar algo das profundezas.

Vêm daí o valor positivo da negação e o gosto especial do pessimista pelos paradoxos como única forma de dizer o que não pode ser dito: “Para um autor, é um verdadeiro desastre ser compreendido”; “Só o grau da nossa desilusão garante a objetividade dos nossos julgamentos. Mas, sendo a “vida” parcialidade, erro, ilusão e vontade de ilusão, emitir julgamentos objetivos não é passar para o lado da morte?”.

Sua analogia entre as idéias e as revoluções é, nesse caso, paradoxalmente esclarecedora: “Não há movimento de renovação que, no próprio momento em que se aproxima do objetivo, em que se realiza através do Estado, não resvale para o automatismo das velhas instituições e não tome a forma da tradição. (…) É o que acontece com as próprias idéias: quanto mais forem formuladas, explícitas, mais sua eficácia diminuirá. Uma idéia clara é uma idéia sem futuro”.

O paradoxo passa a ser, então, a expressão possível e permanente da inquietude, a busca radical e incessante promovida por uma consciência que sabe que nunca poderá ser absoluta ou mesmo achar o que procura, a não ser pela própria negação: “Todo escritor verdadeiro faz um esforço semelhante. É um destruidor que amplia a existência, que a enriquece minando-a”.


Exercícios de Admiração
Exercices d’Admiration
   
Autor: E. M. Cioran
Tradutor: José Thomaz Brum
Editora: Rocco
Quanto: R$ 18,50 (129 págs.)