AS GRANDES ILUSÕES que acompanham o movimento religioso contemporâneo desaparecem em sua maior parte. Não que ele tenham sido completamente artificial e, portanto, artificialmente amplificado. Mas o que o determinava — e que resultava em grande medida de um certo formalismo — arruinou a confiança  na sinceridade da experiência religiosa.

Que sentido pode ter o movimento religioso para a cultura contemporânea? Pode significar seja um esgotamento interior do seu fundo produtivo, seja uma ruptura com os seus pressupostos. Num caso como no outro, simbolizará as suas estruturas e possibilidades íntimas. O esgotamento da cultura moderna é demasiado evidente para aqueles que compreendem o processo latente das culturas, processo que nós conhecemos graças ao caráter simbólico dos valores que ela produz.

A impossibilidade de produzir novos valores,  de criar espontânea e livremente, a orientação ao perspectivismo histórico e ao ecletismo, eis o que revela o sentido do momento final na vida de uma cultura. Se ela é pouco religiosa, a sua atração pela religião testemunha a sua decadência, a sua aproximação da morte, a ruptura do seu equilíbrio interior ou, como dito acima, a ruptura com os seus pressupostos.

A cultura moderna, individualista e racionalista, é desprovida do que constitui a essência da sensibilidade religiosa: o espírito contemplativo. De sua sua ausência, e da ausência de uma orientação ao essencial, deriva também a ausência total do sentido da eternidade. O homem moderno, eminentemente ativo e otimista, está integrado ao devir e o vivencia efetivamente, e é provavelmente a razão pela qual não reflete mais sobre ele. Não surpreende que Hegel seja o único filósofo moderno a ter manifestado uma profunda compreensão do devir. De onde o seu culto por Heráclito.

Na cultura moderna, a religião foi adaptada e transfigurada de tal maneira que perdeu o que constituía a sua especificidade. Assim também o movimento religioso contemporâneo não representa uma forma orgânica da vivência; ele resulta sobretudo da impossibilidade de produzir, doravante, novos valores, impossibilidade manifesta na orientação aos valores religiosos não porque poderiam ser criados e vividos, mas porque constituiriam uma região, uma esfera de valores aos quais nós aspiraríamos. Desde que não se pode mais criar, desde que não se pode mais produzir nada, deve-se fatalmente mudar de orientação. O que não se faz de maneira artificial, mas tampouco de maneira orgânica formal.

Noutros termos, não são o fundo da vida, o conteúdo propriamente dito que mudam, mas a direção, as tendências gerais e as aspirações, que compõem o caráter formal e geral da vida espiritual. O movimento religioso contemporâneo não parte de um fundo orgânico e irracional da vida, mas não é tampouco artificial; ele é a expressão de uma vontade de crer, de natureza formal. Essa vontade de crer é específica e constitutiva dos intelectuais contemporâneos voltados à religião. Há lá um desejo de absoluto, um desejo de se deter no ilimitado, de romper com a ordem esmagadora dos limites estreitos da vida, de ultrapassar o relativo e o histórico.

O movimento religioso, tal como se apresenta nestas últimas décadas, é caracterizado por uma reação às categorias de compreensão da vida que a cultura moderna produziu ao longo do seu processo de formação. Para que essa reação adquira a significação de uma etapa importante, seria necessário que ela partisse de uma estrutura irracional da vida e que representasse uma fórmula orgânica. Mas isto é precisamente o que lhe falta.

A vontade de crer significa de fato uma separação entre os valores e os seus criadores, uma dissensão entre os elementos que teria sido necessário unificar primitivamente. Os criadores de valores têm deles, aqui, a perspectiva, mas não a vivência. A vontade de crer é a expressão dessa orientação perspectivista, que não é absolutamente criadora. O movimento religioso contemporâneo é uma tentativa de romper com a cultura moderna em vias de esgotamento, mas ele não possui nada de um começo de vida (notadamente porque, em vez de produzir novos valores, dirige-se aos valores religiosos como algo que lhe é exterior). A exterioridade e a transcendência dos valores que marcam a vontade crer da consciência contemporânea explicam, a quem é familiar da teoria da cultura ou da axiologia, a esterilidade desse movimento. Se ele suscitou ilusões extraordinárias, estas eram devidas à ausência de perspectiva dos entusiastas que, fascinados pelo ambiente estardalhado no qual apareceram, não souberam avaliá-lo. Se não se compreende a evolução de uma cultura na sua integralidade, não se pode compreender o sentido dos seus momentos particulares.

CIORAN, Emil, “La volonté de croire” [Voinţa de a crede, originalmente em Mişcarea, 25 de fevereiro de 1931], in: Solitude et destin. Paris: Gallimard 2004.

Tradução do francês: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes