A DIVISÃO CLÁSSICA da história em antiga, medieval e moderna cairá breve em desuso; será excluída de nossos livros de estudos. A história contemporânea chega ao termo, e se inicia uma era desconhecida, à qual será preciso dar um nome. Saímos, na verdade, do quadro da história. É um fato, este, de que tivemos a aguda sensação quando irrompeu a guerra mundial. Para os que, então, viam mais longe, se fez evidente que seria coisa impossível um retorno à existência burguesa e aprazível de antes da catástrofe. Muda o ritmo da história: vai-se tornando catastrófico.

Os homens que pressentiam o futuro tinham de há muito percebido que havia catástrofes iminentes e lhes discerniam dos sintomas espirituais sob as aparências de uma vida tranqüila e bem ordenada. É que os acontecimentos se desenrolam na realidade do espírito antes de se manifestarem na realidade exterior da história. Algo se abalou e destruiu na alma do homem moderno antes de se haverem abalado e destruído os seus valores históricos. E o fato de haver hoje entrado todo o universo em dissolução não deve surpreender os que estavam atentos aos movimentos do espírito.

Em nossos dias, parece que os velhos, os seculares fundamentos do mundo europeu estremecem. Tudo o que, na Europa, estava como que estabilizado pelo hábito, se desloca. Em parte nenhuma, seja o que for de que se trate, sentimos firme a terra sob os pés — o terreno é vulcânico e todas as irrupções são possíveis, no material como no espiritual. O velho mundo, a Europa central, se deixa atrair por um mundo novo: o Extremo-Ocidente, ou seja a América; o Extremo-Oriente, ou seja o Japão, para nós misterioso e quase fantasmagórico, e a China. E do fundo da velha Europa se erguem elementos desencadeados que derruem os fundamentos sobre que repousava a sua cultura caduca sempre em continuidade com a antigüidade.

Fôra preciso ser bastante míope para negar que a civilização européia estava a pique de atravessar uma crise que ia assumir, historicamente, importância mundial e cujas conseqüências se perderiam em longínquo e in-determinável futuro. Teria sido pueril e superficial imaginar-se que se poderia reter por meios exteriores esse vertiginoso movimento de devastação a que se acha entregue nosso velho mundo pecador, e voltar, à custa de pequenas modificações, à vida passada de antes da guerra e da revolução russa. Penetramos no reino do desconhecido e do ainda não vivido, e nele penetramos sem alegria, sem radiosa esperança. O futuro é sombrio. Não podemos crer mais nas teorias do progresso que seduziram o décimo nono século e em virtude das quais o futuro próximo deveria ser sempre melhor, mais belo, mais amável do que o passado que se vai. Inclinamo-nos, antes, a julgar que o melhor, o mais belo e o mais amável se encontra não no porvir, porém na eternidade, e que existiu igualmente no passado enquanto o passado comungava com a eternidade e suscitava o eterno.

Ainda está por explicar-se esta crise da civilização européia, iniciada de há muito por diferentes faces e que hoje atinge o apogeu de sua manifestação. A história moderna que termina foi concebida na época do Renascimento. Nós assistimos ao fim do Renascimento.

As cumiadas da cultura, tudo o que era humana criação, na esfera da arte como na do pensamento, faziam de há muito adivinhar um esgota-mento do Renascentismo, qualquer coisa assim como o fim de toda uma época mundial. Esta procura desenfreada de novos filões criadores era sem dúvida uma prova do fim do Renascimento. Mas o que sucede no pináculo da vida repercute em baixo. No próprio fundo da vida social também se preparava o fim do Renascimento. Porque o Renascimento significava um tipo completo de “sensação do universo” e de cultura, e não apenas um conjunto de criações eminentes. A vida do homem, a vida dos povos é um organismo hierárquico completo, no qual as funções superiores e inferiores são inseparavelmente ligadas. Há uma correspondência entre o que se passa nas alturas da vida espiritual e ao fundo da vida material da sociedade. Por isto mesmo, o fim do Renascimento é o fim de toda uma era histórica —de toda a história contemporânea —, e não apenas a extinção de tais ou tais formas criadoras.

O fim do Renascimento é precisamente o fim desse humanismo que lhe servia de base espiritual. Ora, o humanismo não significava simples-mente um renascimento da antigüidade, uma nova moral e um movi-mento das ciências e das artes; era ainda um novo sentimento da vida e uma relação nova com o universo, aparecidos, estes últimos, à aurora dos tempos modernos para reger-lhe a história. Acontece que este novo senti-mento da vida e esta nova relação com o universo chegaram ao seu termo, tendo-se-lhes esgotado todas as possibilidades. Caminhou-se até ao fim das vias do humanismo e das vias do Renascimento; não se pode ir mais além por essas vias.

No fundo, toda a história moderna foi uma dialética imanente de auto-revelação, depois de auto-negação dos mesmos princípios que haviam motivado o seu aparecimento. Há muito que o sentimento humanista da vida perdeu o seu frescor; caiu em estado de decrepitude e não pode mais ser experimentado de maneira tão patética quanto nos dias da moça efervescência do humanismo. No interior do humanismo estalaram contradições destrutivas, minou-lhe a energia um mórbido cepticismo. A fé no homem e nas forças autônomas que o sustinham está abalada até o fundo. Regera ela a história moderna, mas a história moderna se encarregou de a desmantelar. A livre vagabundagem do homem que não conhece mais nenhuma autoridade superior não deu firmeza à sua fé em si mesmo; muito pelo contrário: enfraqueceu irremediavelmente essa fé e comprometeu a consciência que ele tinha de sua identidade.

O humanismo não fortaleceu, debilitou o homem — tal é o término paradoxal da história moderna. Através de sua auto-afirmação, o homem perdeu-se ao invés de se encontrar. Se o homem europeu entrou na história moderna cheio de confiança em si mesmo e em suas capacidades criadoras; se tudo, à aurora desta época, lhe pareceu depender de sua arte, para a qual não via nem fronteiras nem limites, presentemente ele dela sai para penetrar numa época inexplorada, num grande abatimento, a fé em pedaços —a fé que ele tinha em suas próprias forças e no poder de sua arte —, ameaçado do perigo de perder para sempre o núcleo de sua personalidade. Ah, não é nada brilhante o homem saído da história moderna, e que trágica dissimilhança entre o começo e o fim desta história! Partiram-se muitas esperanças. A própria imagem do homem acha-se inteiramente obscurecida. E espíritos dotados de alguma intuição remontariam de boa vontade à Idade Média para pedir-lhe outra vez as verdadeiras origens da vida humana — para, numa palavra, pedir-lhe outra vez o homem. Nosso tempo é um tempo de decadência espiritual, não de reabilitação. Não seriamos nós que poderíamos repetir as palavras que, à aurora da história moderna, pronunciava Ulrich von Hutten: “Os espíritos despertaram. É bom viver!” A história moderna é uma empreitada que não resultou bem, que não glorificou o homem, como o fizera esperar. As promessas do humanismo não foram cumpridas. O homem experimenta uma fadiga imensa e está pronto a apoiar-se sobre qualquer gênero que seja de coletivismo, em que definitivamente desaparecesse a individualidade humana. O homem não pode suportar seu abandono, sua solidão.

BERDIAEV, Nikolai, Uma nova Idade Média: reflexões sobre o destino da Rússia e da Europa. Trad. de Tasso da Silveira. Curitiba: Arcádia, 2017.