“‘Dostoiévski e a dialética: Fetichismo da forma, utopia como conteúdo’: um prefácio” (Manuel da Costa Pinto)

Estadão, 18 de maio de 2018

Prefácio ao livro “Dostoiévski e a dialética: Fetichismo da forma, utopia como conteúdo” (Editora Hedra), de Flávio Ricardo Vassoler.

Em Cioran, l’Hérétique, biografia intelectual do ensaísta romeno – e filósofo dostoievskiano – Emil Cioran, o jornalista francês Patrice Bollon faz uma breve e aguda observação que pode servir como porta de entrada para este Dostoiévski e a dialética: Fetichismo da forma, utopia como conteúdo, de Flávio Ricardo Vassoler. Depois de afirmar que na França (e, poderíamos acrescentar, na maioria dos países ocidentais) não é comum que se veja em Dostoiévski mais do que um grande romancista e um genial psicólogo das profundezas da alma humana, Bollon lembra que, para leitores e intelectuais russos como Chestov e Berdiaev, o escritor é considerado um pensador metafísico, derivando de sua visão do homem uma filosofia política que, de resto, é considerada “reacionária”.

A rica fortuna crítica de Dostoiévski no Brasil e a vigorosa escola de tradutores do russo que aqui se formou, tendo como ponto de partida justamente a publicação das obras do autor de Crime e castigo, não escapam à observação de Bollon – o que torna ainda mais preciosa a contribuição de Vassoler. Originalmente tese de doutorado do escritor e pesquisador paulista, Dostoiévski e a dialética extrai da ficção do romancista e contista russo, bem como de seus ensaios, cartas e textos jornalísticos ou memorialísticos, uma “teleologia teológica” como horizonte de superação ainda inconcluso – à época do escritor e em nossa própria época – das aporias de sua forma de pensar a política (em especial o socialismo) e o cristianismo (em especial a confissão ortodoxa).

Sem deixar de fazer um close reading de diferentes passagens da obra de Dostoiévski, dentro de uma linhagem de intérpretes que se irradia a partir de Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra, Vassoler identifica nele uma antropologia de tipo teológico-metafísico que, por seu caráter escatológico (no sentido de doutrina sobre o destino último da humanidade e sobre o juízo final), tem implicações éticas e pragmáticas: suas personagens encarnam ações e valores antitéticos que, no âmbito dos vetores ocidentalistas/racionalistas e eslavófilos/espiritualistas do contexto histórico e ideológico da Rússia tsarista, apontam simultaneamente para uma tentação niilista e para um desejo de redenção que permanecem abertos, irresolvidos. Mas que – eis uma primeira afirmação, tão polêmica quanto original, nessa obra repleta de iluminações polêmicas e originais – já apontam para a síntese dialética superadora das contradições de nosso mundo cindido, de nossa existência alienada da totalidade, na forma de uma utopia histórico-transcendental realizável.

Dostoiévski utopista, Dostoiévski profeta, nada disso é novidade na seara da recepção do escritor – e Vassoler, a rigor, não endossa tal imagem, em geral mais retórica do que conceitualmente consistente. A diferença é que, ao detectar elementos utópicos ou proféticos em Dostoiévski, ele reivindica “o teor de verdade do conteúdo de suas obras como a articulação de uma filosofia da história”. Ou seja, a utopia, em Dostoiévski, só permanece sendo um “não-lugar” (conforme o significado da expressão cunhada por Thomas More há 500 anos) porque as condições objetivas para seu acontecer ainda não vieram ao ponto crítico de fusão e transformação – mas elas podem vir, ou fatalmente virão, quando então o hesitante vaticínio de Lukács, ao final de A teoria do romance, terá se cumprido: Dostoiévski como Homero ou Dante de um mundo novo, o arauto do momento em que deixamos “o estado da absoluta pecaminosidade” (o pecaminoso, aqui, entendido não em seu significado catequético, mas como dimensão da Queda bíblica que, no plano literário, fez do romance uma “epopeia do mundo abandonado por deus”, segundo a fórmula do pensador húngaro).

Ao mesmo tempo, as tais condições objetivas de superação de nosso mundo cindido – que este livro de Vassoler nos convida a enxergar em Dostoiévski – são tudo, menos objetivas: dependem daquilo que ele chama de “cicatrização do espírito”, por sua vez uma vivência que pertence à ordem supramundana ou, no mínimo, à esfera da decisão soteriológica ilustrada pela parábola de O sonho de um homem ridículo.

A utopia de Dostoiévski seria então realizável porque histórica e transcendental porque dependente de um voluntarismo espiritual – proposição que coloca Vassoler numa dupla perspectiva: de um lado, materialista-dialética, explicitamente baseada na Teoria Crítica de Adorno; de outro, religiosa, espiritualista ou mesmo espírita, já que um dos autores mobilizados por seu arsenal teórico é ninguém menos do que Allan Kardec.

Essa é outra proposição audaciosa do livro, considerando que o criador do espiritismo não goza de prestígio intelectual nem entre aqueles que leem Dostoiévski em chave estritamente literária, nem entre aqueles que, assimilando o escritor russo ao campo da filosofia da história ou da filosofia da religião, descartam o kardecismo como doutrina e matéria de fé sem ossatura teológica. E fato é que o próprio Dostoiévski faz considerações ambíguas sobre o espiritismo em seu Diário de um escritor, no qual há três artigos (datados do ano de 1876) que transitam da sátira à dúvida, mas nos quais ele também ridiculariza aqueles que descartam de modo automático qualquer experiência mística ou de transcendência.

Num livro que dialoga tanto com Hegel, Marx, Lukács e Adorno quanto com teóricos de literatura como (e em primeiro lugar) Mikhail Bakhtin, Vassoler não está colocando a doutrina de Kardec no mesmo registro de decodificação do real, mas no registro de um alargamento do existente que aparece nas cogitações de Dostoiévski e de suas personagens. Trata-se, antes, de localizar na obra do escritor um movimento de negação determinada ora do socialismo (utópico e científico), ora do irracionalismo religioso, para então atingir a superação dialética que opera uma cicatrização das feridas espirituais sem as quais não seria possível fazer triunfar, no tempo da história e do mundo, aquela teleologia teológica que tem como premissa inegociável a dimensão supramundana do homem: “O teor de verdade de igualdade e justiça do socialismo”, escreve Vassoler, “é rearticulado com o princípio cristão de eternidade da alma – segundo Dostoiévski, a base substancial para a constituição da eticidade objetiva para além do niilismo que só faz sentenciar que se Deus não existe, tudo é permitido –, de modo a que (…) seja possível vislumbrar a filosofia da história como o ímpeto de reconciliação da utopia”.

Por aí se vê o quanto a leitura dialética de Dostoiévski proposta por Vassoler não apenas se coloca na esteira daquela mirada que entrevê no escritor um pensador e um filósofo da história como, ao iluminar os conteúdos emancipatórios de sua utopia histórico-transcendental, vai na contramão da imagem de um engajamento reacionário que a ele se atrelou a despeito do caráter revolucionário de seu “romance polifônico”. E a menção ao conceito de Mikhail Bakhtin, formulado em Problemas da poética de Dostoiévski, para descrever a miríade de vozes que habita os livros do escritor serve aqui para ressaltar o verdadeiro tour de force que Vassoler realiza em relação ao teórico russo, num corpo a corpo com as noções bakhtinianas de polifonia e dialogismo.

Pois se, num primeiro momento, a “impossibilidade de criar uma nova totalidade a partir da voz particular de uma determinada personagem” coloca Bakhtin em consonância com Lukács e sua visão do romance dostoievskiano como expressão do colapso histórico do mundo objetivo (no qual seria igualmente impossível atingir uma nova totalidade a partir da perspectiva fragmentada das personagens do escritor), num segundo momento, Vassoler entra em diatribe com Bakhtin e, munido da Teoria Crítica, argumenta que Bakhtin, ao ontologizar ou essencializar a dialogia, proscreve a dimensão temporal (o elemento mesmo dos desenvolvimentos e das transformações dialéticas) e transforma os romances de Dostoiévski em verdadeiras catedrais polifônicas, estáticas no tempo e sem devir histórico. Com isso (e conforme o subtítulo do presente livro) a forma dialógica se transmuta num fetichismo da forma que, na ausência de uma percepção dos movimentos (transcendentais, espirituais) de resistência à reificação existentes em Dostoiévski, oblitera o acesso a seus conteúdos utópicos e emancipadores, dentro de um processo no qual Vassoler – em mais um momento de inflexão polêmica – aproxima o dialogismo de Dostoiévski à dinâmica marxista de alienação do trabalho, fetichização da mercadoria e criação de mais-valia (que se transforma em “menos-valia” no subsolo e na estepe da vida danificada das personagens dostoievskianas).

A reflexão de Vassoler é suficientemente clara, obsessivamente minuciosa, para que suas reviravoltas teóricas fiquem apenas indicadas, sem maior aprofundamento, nesta apresentação de Dostoiévski e a dialética. Faltaria ressaltar, entretanto, algo que talvez só o privilégio de conhecer o autor pessoalmente permita perceber nas entrelinhas de sua escrita: uma paixão pela discussão de ideias e uma urgência na leitura de Dostoiévski que colocam suas altercações com leitores e teóricos dostoievskianos no mesmo diapasão das famosas “cenas de conclave” (expressão de Leonid Grossman) em que as personagens do escritor russo defendem pontos de vista como se disso dependesse a salvação do mundo e a redenção de suas almas. Mas creio que mesmo o leitor que não conheça de perto Flávio Ricardo Vassoler poderá sentir, após percorrer as páginas incandescentes deste livro, aquilo que pode ser resumido pelas seguintes palavras: ardor e coragem intelectual.

Manuel da Costa Pinto é mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), jornalista e crítico literário do jornal Folha de S.Paulo. Foi um dos criadores da revista Cult, da qual foi editor por seis anos. Autor dos livros Albert Camus: um elogio do ensaio (Ateliê, 1998), Literatura brasileira hoje (Publifolha, 2004) e Paisagens interiores e outros ensaios (B4 Editora, 2012). Organizador das antologias A inteligência e o cadafalso (Record, 1998), de Albert Camus, Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (Publifolha, 2006) e Crônica brasileira contemporânea (Editora Moderna, 2013), entre outras.

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