“Revolta, niilismo e religiosidade: a ontologia da liberdade em Dostoi√©vski” (Eduardo Armaroli Noguchi)

XI Congresso Internacional da ABRALIC.¬†Tessituras, Intera√ß√Ķes, Converg√™ncias.¬† USP ‚Äď S√£o Paulo, Brasil. 13 a 17 de julho de 2008.

RESUMO: O texto pretende abordar a obra de Fiódor Dostoiévski na tentativa de fazer uma leitura filosófica de seus romances. Para isso, o tema central que será destacado é a noção de liberdade: um exame daquilo que se poderia chamar uma antropologia filosófica implícita nos livros do romancista russo. São os paradoxos da liberdade humana que impulsionam a argumentação de Dostoiévski.
Palavras-chave: Dostoiévski, Filosofia da Religião, Filosofia e Literatura

Introdução

O objetivo deste estudo é investigar a possibilidade de se abstrair um discurso filosófico coerente dos romances de Dostoiévski. Este discurso peculiar poderia ser provisoriamente denominado como uma ontologia da liberdade. A finalidade é demonstrar que a obra de Dostoiévski pode ser entendida como uma antecipação de várias das vertentes filosóficas que dominaram o século XX. Para isso, o texto buscará explicitar a radicalidade da questão da liberdade em Dostoiévski a partir de algumas
no√ß√Ķes chaves, como revolta, niilismo e religiosidade.

I

A pretens√£o de se abstrair uma filosofia da obra ficcional de Fi√≥dor Dostoi√©vski ficou expl√≠cita desde os primeiros trabalhos que se dedicaram √† obra do romancista russo, e tornou-se central para alguns estudiosos contempor√Ęneos, como Pierre Lambl√© e Sergio Givone (LAMBL√Č, 2001; GIVONE, 1984). Um ponto que parece incontest√°vel, √© que a pot√™ncia cr√≠tica do discurso de Dostoi√©vski levou a filosofia de sua √©poca a um profundo questionamento de si mesma. O percurso de personagens como o homem do subsolo, Rask√≥lnikov, Hippolit, Stavr√≥guim, Kirillov e Ivan Karam√°zov, mostram conseq√ľ√™ncias desastrosas que podem nascer de id√©ias filos√≥ficas aparentemente ‚Äúclaras e distintas‚ÄĚ, para usar um termo de Descartes. Segundo explica o professor Lu√≠s Felipe Pond√©, em Dostoi√©vski torna-se mais tr√°gico o j√° milenar problema filos√≥fico do relativismo, pois o romancista russo atesta a fal√™ncia da aposta moderna no poder redentor da raz√£o, ‚Äúna suposta consist√™ncia da natureza humana racional‚ÄĚ (POND√Č, 2003. p. 15). O nome dado para essa situa√ß√£o √© niilismo.

Todavia, al√©m desse poder cr√≠tico √© v√°lido investigar como na arte de Dostoi√©vski desenvolveu-se um pensamento que teve decisiva influ√™ncia na constitui√ß√£o da filosofia do s√©culo XX. Nikolai Berdiaev considera Dostoi√©vski ‚Äúo maior fil√≥sofo russo‚ÄĚ; e conclui: ‚Äútalvez a filosofia lhe tenha dado pouco, mas ela pode tomar muito dele‚ÄĚ (BERDIAEV, 1921. p. 35). Mais recentemente, Pierre Lambl√© tamb√©m ap√≥ia esta opini√£o dizendo que Dostoi√©vski ‚Äú√© um aut√™ntico fil√≥sofo, um pensador l√≥gico e rigoroso, possuindo uma vis√£o de mundo completa e coerente‚ÄĚ (LAMBL√Č, 2001. p. 10). Por outro lado, perspectivas interpretativas como as de Leon Chest√≥v ou Mikhail Bakhtin, de diferentes maneiras, inviabilizaram quase totalmente a abstra√ß√£o de um discurso positivo a partir dos romances de Dostoi√©vski. Para encontrar um caminho entre estas diferentes interpreta√ß√Ķes √© necess√°rio se ater a algumas quest√Ķes essenciais.

Primeiramente, √© preciso acentuar o fato, j√° destacado por Bakhtin, de que Dostoi√©vski era essencialmente um artista, e n√£o um fil√≥sofo ou um jornalista pol√≠tico. √Č verdade que na R√ļssia pr√©revolucion√°ria a literatura tinha um papel especial. Segundo Josef Frank, devido √† censura do governo a literatura era ‚Äúa √ļnica forma na qual os russos podiam ver discutidos os verdadeiros problemas com os quais se preocupavam e que seus governantes sempre acharam melhor que eles ignorassem‚ÄĚ (FRANK, 1992. p.63). Tamb√©m Isahia Berlin ressalta que a ‚Äúliteratura tornou-se o campo de batalha no qual se travavam as principais quest√Ķes sociais e pol√≠ticas da vida‚ÄĚ (BERLIN, 1988. p. 266). Todavia, apesar deste evidente car√°ter pol√≠tico e filos√≥fico adquirido pela produ√ß√£o liter√°ria russa, no caso de Dostoi√©vski √© preciso concordar com Luigi Pareyson quando ele diz que o pensamento do romancista russo apenas pode surgir como uma conseq√ľ√™ncia ‚Äúda complexidade de sua arte‚ÄĚ (PAREYSON, 1993. p. 13). De acordo com Boris Schnaiderman, o extraordin√°rio √© que a reflex√£o de Dostoi√©vski, ‚Äúrealizada sempre em termos ficcionais, tenha deixado marca t√£o forte na evolu√ß√£o do pensamento, como se constata, particularmente, em Nietzsche e no existencialismo franc√™s, a tal ponto que a obra de Camus √© praticamente inconceb√≠vel sem o di√°logo com Dostoi√©vski‚ÄĚ (SCHNAIDERMAN).

Em segundo lugar, √© necess√°rio enfrentar alguns problemas legados pelos v√°rios int√©rpretes que se debru√ßaram sobre a obra de Dostoi√©vski. H√° pelo menos duas perspectivas interpretativas que causam um inc√īmodo ru√≠do na pretens√£o de encontrar uma unidade no pensamento do romancista russo. A primeira √© aquela desenvolvida por Mikhail Bakhtin, que embora se intitulando como um trabalho de cr√≠tica liter√°ria tem claras conseq√ľ√™ncias filos√≥ficas. Segundo Bakhtin, Dostoi√©vski seria o criador de uma nova esp√©cie de romance, que teria como caracter√≠stica principal a independ√™ncia da consci√™ncia dos personagens em rela√ß√£o ao autor Contrariamente aos tipos romanescos onde o autor constitui uma voz onisciente, dominados pelo que Bakhtin chama ‚Äúidealismo monol√≥gico‚ÄĚ, os romances de Dostoi√©vski seriam constru√≠dos sobre o princ√≠pio dial√≥gico, dando origem a um novo g√™nero romanesco, o romance polif√īnico: ‚ÄúA multiplicidade de vozes e consci√™ncias independentes e imisc√≠veis e a aut√™ntica polifonia de vozes plenivalentes constituem, de fato, a peculiaridade fundamental dos romances de Dostoi√©vski‚ÄĚ (BAKHTIN, 2002. p. 4). Como muitos estudiosos de Dostoi√©vski perceberam, o problema √© que a no√ß√£o de polifonia, entendida num sentido forte, impossibilita qualquer tentativa de organizar seu pensamento. A arte de Dostoi√©vski se resumiria a dar voz ao conflito, sendo incapaz de escapar da eterna discord√Ęncia de perspectivas… [PDF]