“Cioran, a obsess√£o de um ateu por Deus” (Roberto Righetto)

INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS, 7 de agosto de 2018

‚ÄúAjuda-me, Senhor, a esgotar o desgosto e a piedade por mim mesmo, a n√£o sentir mais o infinito horror!‚ÄĚ ‚ÄúEm mim tudo termina em ora√ß√£o e em blasf√™mia, tudo se torna invoca√ß√£o e rejei√ß√£o.‚ÄĚ ‚ÄúNo c√ļmulo das minhas d√ļvidas, preciso de uma sombra de absoluto, um pouco de Deus.‚ÄĚ ‚ÄúA quem rezar no fundo deste universo ressequido?‚ÄĚ ‚ÄúDeus, o grande estrangeiro‚ÄĚ: s√£o apenas alguns dos milhares de aforismos deslumbrantes que¬†Cioran¬†dedicou √† ‚Äúquest√£o Deus‚ÄĚ.

A reportagem é de Roberto Righetto, publicada em Avvenire, 05-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Anticrist√£o e geralmente inimigo das religi√Ķes reveladas, fascinado pelo¬†budismo¬†e apaixonado pela¬†m√≠stica, o escritor romeno¬†Emil Cioran¬†(1911-1995) nunca deixou, ao longo de sua exist√™ncia, de se esfor√ßar e de se atormentar, n√£o tanto em torno da exist√™ncia de Deus, mas sobre a sua aus√™ncia.

For√ßado a renunciar a crer em Deus por falta de f√©, ele que era filho de um pope ortodoxo, que na¬†Rom√™nia¬†tinha respirado um h√ļmus popular intensamente crist√£o e que, desde jovem, havia rejeitado aquele mundo em que n√£o se encontrava, na realidade, nunca se curou dessa ferida. E continuou perenemente a invoc√°-lo ou a se lan√ßar contra ele.

Prova disso é um livro do amigo e aluno Gabriel Liiceanu: Emil Cioran. Itinerari di una vita [Emil Cioran. Itinerários de uma vida] (Ed. Mimesis, 152 páginas), uma homenagem do fundador da editora Humanitas, que, na Romênia, publicou todas as obras de Cioran.

O livro reconstr√≥i a sua vida, desde a inf√Ęncia passada no vilarejo de¬†Rasinari¬†(o √ļnico per√≠odo definido como realmente feliz) at√© a transfer√™ncia por motivos de estudo para¬†Sibiu¬†e, depois, para¬†Bucareste, at√© que, em 1937, o jovem professor de filosofia consegue obter uma bolsa de estudos em¬†Paris, onde permanecer√° at√© a morte.

No ap√™ndice, h√° tamb√©m o texto da √ļltima entrevista filmada, realizada pelo pr√≥prio¬†Liiceanu¬†em 1990 (al√©m de um di√°logo com a esposa,¬†Simone Bou√©), e √© aqui que, repetidamente, ele retorna ao tema do crer: ‚Äú√Č uma quest√£o muito delicada, porque, na realidade, eu tentei crer: li todos os m√≠sticos, dos quais admirava o estilo e conte√ļdo. Mas depois entendi que estava me iludindo, que n√£o era feito para a f√©. √Č uma fatalidade, n√£o posso me salvar¬†malgr√© moi. N√£o consigo‚ÄĚ.

Muitos o definiram como ‚Äúate√≥logo‚ÄĚ ou ‚Äúte√≥logo do Nada‚ÄĚ, retomando o esquema da¬†teologia negativa¬†pr√≥pria dos grandes m√≠sticos. E, de fato, para ele, ‚ÄúDeus √© a express√£o positiva do nada‚ÄĚ, como ele escreveu e disse em diversas ocasi√Ķes. Desde 1934, quando publicou na¬†Rom√™nia¬†o livro ‚ÄúNos cumes do desespero‚ÄĚ,¬†Cioran¬†subiu os caminhos de uma filosofia da exist√™ncia que abandona todos os sistemas absolutos, uma filosofia que nunca pode ser separada da perene busca de si.

Os anos universit√°rios em¬†Bucareste¬†s√£o consagrados, al√©m dos grandes pensadores alem√£es como¬†Kant¬†e¬†Hegel, tamb√©m √† leitura das obras de¬†Nietzsche,¬†Simmel,¬†Schopenhauer,¬†Ň†estov¬†e¬†Bergson, a quem dedica sua tese de doutorado em 1932.

E, pouco a pouco, emerge a sua relut√Ęncia em rela√ß√£o aos formalismos que n√£o t√™m implica√ß√Ķes na vida concreta, e a escrita se torna uma esp√©cie de terapia. √Äs leituras filos√≥ficas, somam-se as dos m√≠sticos como¬†Teresa d‚Äô√Āvila¬†e¬†Mestre Eckhart, al√©m dos grandes escritores como¬†Shakespeare¬†e¬†Dostoi√©vski, que ele nunca abandonar√°.

Ele escreve em uma frase lapidar nos seus ‚ÄúCadernos‚ÄĚ publicados postumamente: ‚ÄúSou um descrente que l√™ apenas pensadores religiosos. O motivo profundo √© que s√≥ eles enfrentaram certos abismos. Os ‚Äėseculares‚Äô s√£o refrat√°rios ou inadequados a eles‚ÄĚ.

Na realidade, tamb√©m chama a aten√ß√£o que poucos escritores ou¬†te√≥logos crist√£os¬†investigaram a sua figura e o seu pensamento, muitas vezes esnobando-o ou enquadrando-o como ‚Äúniilista‚Ä̬†tout court, sem compreender a subst√Ęncia da inquietude extrema que o animava. E tamb√©m seria interessante reconstruir as suas rela√ß√Ķes com personagens como¬†Gabriel Marcel, o fil√≥sofo existencialista crist√£o de quem era amigo, ou¬†Paul Tillich, o te√≥logo protestante com quem se encontrou v√°rias vezes… [+]