“Considerações sobre escrita e existência a partir de Emil Cioran” (Cassiano Clemente Russo do Amaral)

Factótum – Revista de Filosofia, 19, 2018, pp. 90-95

Cassiano Clemente Russo do Amaral é mestre em Filosofia pela São Paulo State University (Brasil).
E-mail: cassiano.russo155@gmail.com

Resumo: Pretende-se, neste artigo, mostrar uma possível aproximação entre escrita e existência com base em alguns comentários de Emil Cioran (1911-1995) e na experiência de pura negatividade enquanto manifestação vital da morte de Deus. Neste registro, procuramos compreender a experiência humana no campo da escrita como terapêutica do homem que já não encontra fundamentação metafísico-teológica para sua existência no mundo, sendo sua ação insignificante e sem sentido num deserto de negatividade e ausência de esperança, restando-lhe a escrita como possibilidade de transfiguração da dor na palavra, numa espécie de confissão de si para si, como grafia do sofrimento e do vazio, frutos da insubstancialidade ontológica própria do universo do autor de Do Inconveniente de Ter Nascido.
Palavras-chave: Cioran, morte de Deus, negatividade, terapêutica, escrita.

Abstract: This article intends to show a possible approximation between writing and existence based on some comments by Emil Cioran (1911-1995) and the experience of pure negativity as a vital manifestation of God’s death. In this register, we try to understand the human experience in the field of writing as a therapeutic of man who no longer finds metaphysical and theological grounding for his existence in the world, his action being insignificant and meaningless in a desert of negativity and absence of hope, leaving him the written as a possibility for the transfiguration of pain in the word, in a kind of confession of self for itself, as a spelling of suffering and emptiness, fruits of the ontological insubstantiality of the universe of the author of The Trouble with Being Born.
Keywords: Cioran, death of God, negativity, therapy, writing

1. Introdução

Este artigo tem como ponto de partida a horizontalidade do homem moderno, expressa em A Gaia Ciência, de Friedrich Nietzsche (1844-1900), mediante o anúncio da morte de Deus, e se propõe à seguinte indagação: se a morte de Deus, enquanto impossibilidade de uma positividade em termos de respaldo teórico para o homem moderno, condenado a vagar pelo deserto da dúvida e da negação, marcaria a impossibilidade de se alcançar o Sagrado, ou Deus, não haveria no ato de escrever uma maneira de ainda viver mediante uma terapêutica da escrita? Uma espécie de alívio do sofrimento mediante a transfiguração da dor num mundo tomado pelo sentimento de nada?

Cabe-nos observar que, em se tratando de Cioran, não podemos afirmar que o autor romeno fosse propriamente um filósofo que defendesse explicitamente a morte de Deus, mas sim alguém que adota uma postura cínica quanto a uma divindade, isto é, não se trata, pois, de dizer que Deus não existe — Cioran é indiferente a esse tipo de afirmação —, trata-se de assumir que o autor é um místico sem fé, pois, conforme se verifica em suas obras, há uma espécie de diálogo aberto com alguma instância superior, no sentido de que Cioran recorre ao vocábulo Deus frequentemente, porém não o admite enquanto vivência por sua total falta de fé. Neste sentido, a morte de Deus, no caso Cioran, adquire uma espécie de misé en scene filosófica: não se trata mais de discutir tal morte, mas de viver “como se” essa morte fosse um truísmo prescindível a qualquer discussão, uma vez que, ainda em termos de misé en scene, ela seria um “fato”. Assim, o que importa é a vida, apesar dela mesma. Atentemo-nos, portanto, para o fato de Cioran confrontar-se com Deus, numa espécie de revolta metafísica por meio da escrita, não assumindo nem negando Sua existência. Eis o “teatro” de Cioran com a divindade: qualquer coisa como uma peça sobre Deus perante o público leitor, algo sobre a cisão no indivíduo tomado pelo to be or not to be quanto ao próprio Deus. Esta questão pode ser vista nos seguintes termos: “Só os indivíduos rachados possuem aberturas para o além” (Cioran, 2010: 100). Nesta direção, Cioran está aberto para o além na condição de uma misé en scene com o divino, sendo o próprio filósofo paradoxalmente um ateu crente…. [PDF]