“A categoria do religioso nos Cahiers de Cioran” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Cioran não é um crente. Ele não possui o “órgão da fé”, como faz questão de deixar claro. É um douteur incurable (“duvidador incurável”) e, mais do que isso, um negador incurável. Não é, decididamente, um pensador cristão como Kierkegaard, Unamuno, ou mesmo Dostoiévski, muito embora se sinta familiarizado a eles. Ao mesmo tempo, não julga nada disso necessário para ser, à sua maneira heterodoxa, um espírito religioso. Para Cioran, o religioso é fundamentalmente uma categoria antropológica e extra-dogmática, uma questão de intensidade, de vibração, não de conteúdo, o que seria acessório, relativo, intercambiável. Sendo assim, “Deus se determina como momento de nossos frenesis, e o mundo em que vivemos raramente se torna objeto da sensibilidade religiosa pelo fato de que não se pode pensá-lo senão nos instantes neutros.” (Le crépuscule des pensées) Décadas mais tarde, escreverá esta confissão, em Écartèlement: “Não queria viver em um mundo esvaziado de todo sentimento religioso. Não me refiro à fé, mas a essa vibração interior que, independentemente de qualquer crença, nos projeta em Deus e às vezes inclusive mais acima.”

Nada mais equívoco (no sentido aristotélico de equivocidade) do que o ateísmo de Cioran. Para ele, os ateus (e Nietzsche se inclui aqui) “provam que apontam a alguém. Deveriam ser menos orgulhosos; sua emancipação não é assim tão completa quanto pensam: eles se fazem de Deus exatamente a mesma ideia que os crentes.” (Le mauvais démiurge) Em todo caso, afirmando-o ou negando-o, “é lamentável, é degradante assimilar a divindade a uma pessoa”, e é justamente isso que o homem ocidental, teísta ou a-teísta, tende a fazer. “Mesmo o descrente aspira a conversar com o ‘Único’, pois não é fácil relacionar-se com o nada”, explica ele a Sylvie Jaudeau; essa dificuldade é desconhecida do budismo, acrescenta, pois o budismo “não está baseado, como o cristianismo, no diálogo. Deus não lhe é necessário. Só conta a consciência do sofrimento.” (Entrevistas com Sylvie Jaudeau)

Por mais que queiramos nos desembaraçar de nossas origens judaico-cristãs, que lutemos para eliminar do espírito as toxinas da religião, permanecemos sendo demasiado cristãos. Fazendo sua “genealogia do fanatismo”, Cioran escreve: “Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridículo.” (Breviário de decomposição) De resto, John Gray e outros intelectuais contemporâneos, como Norman Cohn, examinaram as raízes religiosas, de cunho milenarista, das modernas utopias e movimentos revolucionários, qualquer que seja a sua orientação ideológica. “As religiões políticas modernas”, escreve Gray, “podem rejeitar o cristianismo, mas não dispensam a demonologia. Os jacobinos, os bolcheviques e os nazistas acreditavam todos ser alvo de amplas conspirações, exatamente como os radicais islâmicos atualmente.” (Missa negra: religião apocalíptica e o fim das utopias, p. 45)

Na interpretação de Peter Sloterdijk, Cioran peca pelo “excesso da palavra sincera”*, o que o faria merecer o posto de prior da “Ordem da Santa Louca Temeridade” imaginada por Nietzsche. “Pensar contra si” é o imperativo de probidade que Cioran se impõe; de onde, segundo Sloterdijk, a ausência do “pathos de distância” e a “falta de tato” pela qual a sua sinceridade beira a indecência. O autor de origem romena é impiedoso no inventário moral de si mesmo: “Há em mim elementos cristãos, demasiado cristãos: a tentação da mendicidade, do deserto, os acessos demenciais de compaixão. Diferentes expressões da renúncia. – As toxinas cristãs nos deixaram no sangue o veneno de um absoluto que nos corta a respiração, mas sem o qual já não podemos viver”, lê-se na última página da versão original de Lacrimi şi sfinţi (confissão suprimida da edição francesa).

Mas Cioran é demasiado escrupuloso, demasiado exigente para caber no cristianismo ou em qualquer ortodoxia que seja. Sua reivindicada lucidez o impede de aderir, mantendo-o aquém e à margem de toda crença, doutrina, instituição. “Todas as posições de um homem sem posição”, bem descreveu Sloterdijk. Em todo caso, permanece um sentimento religioso da existência, uma paixão e uma vibração inefáveis que, a despeito de toda fé, o “projeta em Deus e às vezes mais acima“. Abaixo, uma seleção de fragmentos extraídos dos Cahiers de Cioran acerca da categoria do religioso.

Parler affaires quand on n’est de nulle part, se démener dans le quotidien quand on vit un drame religieux!

“Falar de negócios quando não se é de parte alguma, agitar-se no cotidiano quando se vive um drama religioso!”

§

Qui dit mythe proclame son incroyance, sa totale absence de sens religieux.
Il faut penser à Dieu, et non à la religion, à l’extase, et non à la mystique. La différence entre le théoricien de la religion et le croyant est aussi grande qu’entre le psychiatre et le fou.

“Quem diz mito proclama sua descrença, sua total ausência de sentido religioso.
É preciso pensar em Deus e não na religião, no êxtase e não na mística. A diferença entre o teórico da religião e o crente é tão grande como entre o psiquiatra e o louco.”

§

J’aurai connu jusqu’à la satiété le drame religieux de l’incroyant. La nullité de l’ici, et l’inexistence de l’ailleurs, … écrasé par deux certitudes.

“Eu terei conhecido até a saciedade o drama religioso do descrente. A nulidade de aqui e a inexistência do alhures, … esmagado por duas certezas.”

§

Seuls sont à plaindre ceux qui, avec un fonds religieux, ne peuvent s’arrêter à aucune religion et trébuchent (excès de lucidité ou impuissance?) au seuil de l’absolu. Avec quelle admiration ne contemplent-ils pas quiconque sait prier !

“Apenas podem queixar-se aqueles que, com um fundo religioso, não podem deter-se em nenhuma religião e tropeçam (excesso de lucidez ou impotência?) no limiar do absoluto. Com que admiração não contemplam eles quem quer que saiba rezar!”

§

Je m’ennuierais même en Dieu, surtout en Dieu. Cette peur d’un ennui suprême, j’y vois la raison de mon inaccomplissement religieux.
(Quand on souffre d’un vide chronique, on a peur de s’ennuyer
partout, même en Dieu.)

“Eu me entediaria mesmo em Deus, sobretudo em Deus. Esse medo de um tédio supremo, vejo nele a razão da minha incompletude religiosa.
(Quando se sofre de um vazio crônico, tem-se medo de entediar-se em toda parte, inclusive em Deus.)”

§

Dieu même ne pourrait dire où j’en suis en matière non pas de foi, mais de religion. J’adhère si peu à ce monde qu’il m’est impossible de me considérer comme un incroyant ! Par cette inadhésion j’appartiens au «religieux» (pour parler comme Kierkegaard).

“Deus mesmo não saberia dizer onde me encontro em matéria não de fé, mas de religião. Eu adiro tão pouco a este mundo que me é impossível considerar-me como um descrente! Por essa inadesão eu pertenço ao ‘religioso’ (para falar como Kierkegaard).”

§

Je n’ai jamais eu de religion (dans le sens étymologique) puisque je n’ai jamais été relié à rien. Je n’ai eu que la nostalgie de la religion, le soupir religieux.

“Eu nunca tive religião (no sentido etimológico), pois nunca estive ligado a nada. Tive apenas a nostalgia da religião, o suspiro religioso.”

§

Qu’est-ce qui est religieux ? C’est quelque chose qui s’approfondit en nous aux dépens du monde, c’est une progression vers un silence chantant.

“O que é o religioso? É algo que se aprofunda em nós em detrimento do mundo, é uma progressão em direção a um silêncio cantante.”

§

Quand je parle de «délivrance », je ne fais pas de littérature; je réponds à un appel surgi de mon esprit et de ma physiologie, de tout ce que j’ai de bon et de mauvais, de tout ce qu’il y a de religieux dans ma désolation. Le seul « mythe » auquel j’adhère sans restriction est celui du Paradis perdu.

“Quando falo de ‘libertação’, não estou fazendo literatura; estou respondendo a um apelo surgido do meu espírito e da minha fisiologia, de tudo o que tenho de bom e de mau, de tudo o que há de religioso na minha desolação. O único ‘mito’ ao qual eu adiro sem restrição é aquele do Paraíso perdido.”

§

Personne n’est plus religieux que moi. Ni moins. Je suis à la fois plus près et plus loin de l’Absolu que n’importe qui.

“Ninguém é mais religioso do que eu. Nem menos. Estou ao mesmo tempo mais próximo e mais distante do Absoluto do que qualquer um.”

§

Ce qu’il y a de plus profond en nous, c’est le souci religieux. Dès qu’il s’empare de nous, on dirait que nous remontons aux sources mêmes de notre être. Et d’ailleurs cela est vrai, puisque la religion se confond avec nos commencements, avec ce qu’il y avait de meilleur en eux.

“O que há de mais profundo em nós é a preocupação religiosa. A partir do momento em que ela se apodera de nós, dir-se-ia que remontamos às fontes mesmas do nosso ser. E, de resto, isso é verdade pois a religião se confunde com os nossos começos, com o que havia de melhor neles.”

§

Je ne suis peut-être pas un esprit religieux, mais seul un esprit religieux peut me comprendre.
(En lisant un manuscrit de George Bâlan sur mes livres roumains.)

“Talvez eu não seja um espírito religioso, mas apenas um espírito religioso pode me compreender.
(Lendo um manuscrito de George Bălan sobre meus livros romenos.)”

§

En écoutant Les Sept Paroles du Christ de Haydn – je me disais tout à l’heure que mon scepticisme est au fond religieux et que ce n’est pas pour rien que les esprits dont je me sens le plus proche sont Pascal et Dostoïevski.

“Escutando As Sete Palavras do Cristo de Haydn – eu me dizia agora à pouco que meu ceticismo é de fundo religioso, e que não é por acaso que os espírito dos quais eu me sinto mais próximo são Pascal e Dostoiévski.”

§

Je viens de donner une interview pour Time Magazine: pendant deux heures j’ai parlé de moi, j’entends que j’ai répondu aux questions qu’on m’a posées sur tous les sujets imaginables. En France, je ne me serais pas prêté à une opération pareille; mais comme dans l’occurrence, il s’agit d’un autre continent … J’ai dit à ce journaliste que la vie était pour moi «an intriguing Nothingness ». Je voulais dire que ce qui rendait à mes yeux la vie intéressante, c’était justement le fait qu’elle était impossible et impraticable. J’aurais dû lui dire que j’étais « a religious-minded nihilist » (un nihiliste à l’esprit religieux).

“Acabo de dar uma entrevista para a Time Magazine: durante horas falei de mim, e acho que respondi às questões que me fizeram sobre todos os assuntos imagináveis. Na França, eu não me daria semelhante trabalho; mas como, no caso, trata-se de outro continente… Eu disse a aquele jornalista que a vida é para mim ‘an intriguing Nothingness’ [um nada intrigante]. Queria dizer que o que a torna interessante aos meus olhos é justamente o fato de que ela é impossível e impraticável. Eu deveria ter-lhe dito que eu era ‘a religious-minded nihilist’ (um niilista de espírito religioso).”

§

Je disais tout à l’heure que je suis taré. C’est par ce côté aussi que je suis « religieux ». Je n’ai pas la foi, mais je remplis certaines des conditions qui y poussent, je suis mal à l’aise dans ma peau, dans mon enveloppe terrestre. Il me faudrait accéder à une autre forme
d’insécurité : c’est tout ce que je puis espérer face aux certitudes du croyant.

“Eu dizia agora há pouco que sou tarado. É por esse lado também que sou ‘religioso’. Eu não tenho a fé, mas preencho certas condições que levam a ela, não me sinto à vontade na minha pele, no meu envelope terrestre. Ser-me-ia necessário aceder a outra forma de insegurança: é tudo o que posso esperar face às certezas do crente.”

§

Je n’ai jamais su de façon précise en quel sens je suis religieux, et si j’ai autre chose qu’un fonds religieux. Peut-être suis-je une nature religieuse à rebours. À vrai dire, je ne peux fournir aucune précision là-dessus. Je suis « religieux » comme l’est tout être qui se trouve à l’orée de l’existence, et qui ne sera jamais un vrai existant.
Il y a une certaine forme de déséquilibre qui participe automatiquement de la religion. Mais quelle est cette forme?

“Eu nunca soube precisamente em que sentido sou religioso, e se possuo algo mais que um fundo religioso. Talvez eu seja uma natureza religiosa às avessas. A bem dizer, não posso fornecer nenhuma precisão a esse respeito. Eu sou ‘religioso’ como o é todo ser que se encontra à beira da existência, e que não será nunca um verdadeiro existente.
Há certa forma forma de desequilíbrio que participa automaticamente da religião. Mas qual é esta forma?”

§

Je suis un incroyant qui ne lit que des penseurs religieux. La raison profonde en est qu’eux seuls ont touché à certains abîmes. Les « laïques » y sont réfractaires ou impropres.

“Eu sou um descrente que só lê pensadores religiosos. A razão profunda disso é que apenas eles tocaram certos abismos. Os ‘laicos’ lhe são refratários ou impróprios.”

§

Ce n’est pas l’absurdité qui s’oppose au mystère, c’est le rien. Le mystère est signe d’être. Là où il est, il indique une plénitude cachée.
Tant qu’on a le sentiment du mystère, on conserve implicitement une dimension religieuse. Car être religieux, c’est sentir le mystère, même en dehors de toute forme de foi.
Un sceptique, dans la mesure où il éprouve ce sentiment, risque de faire un jour un saut hors du doute.
Je dois reconnaître que je ne ressens pas toujours la présence du mystère. Parfois j’y suis totalement insensible. Ainsi dans l’ennui, tout me semble dépourvu d’arrière-plan, de possibilité de déboucher sur quelque chose, sur quelque réalité heureusement inaccessible mais inexistante. L’ennui, comme évaluation globale du réel, est à l’antipode du mystérieux. Dans l’ennui, plus rien ne nous fascine, même pas le rien de l’ennui. (Le mystère fascine, car même l’effroi inspire quelque chose de fascinant.)

“Não é o absurdo que se opõe ao mistério, é o nada. O mistério é signo de ser. Aí onde ele é, indica uma plenitude oculta.
Quanto mais se tem o sentimento do mistério, conserva-se implicitamente uma dimensão religiosa. Pois ser religioso é sentir o mistério, mesmo fora de toda forma de fé.
Um cético, na medida em que experimenta esse sentimento, pode dar um salto para fora da dúvida.
Devo reconhecer que nem sempre sinto a presença do mistério. Às vezes sou totalmente insensível a ele. Assim, no tédio, tudo me parece desprovido de profundidade, de possibilidade de desembocar em algo, em alguma realidade felizmente inacessível, mas inexistente. O tédio, como avaliação global do real, está na antípoda do misterioso. No tédio, nada mais nos fascina, nem mesmo o nada do tédio. (O mistério fascina, pois mesmo o terror inspira algo de fascinante.)”

CIORAN, E.M., Cahiers : 1957-1972. Paris: Gallimard, 1997.

Tradução: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes