“Giacomo Leopardi – Além do pessimismo, a poesia consoladora” (Adalberto de Queiroz)

Jornal Opção, 09/11/2017

O poeta italiano, considerado anti-Pascal, é um incrédulo, um negativista, um descrente, mas sua poesia toca em algum lugar na alma do cristão que se torna impossível não gostar dele, tanto quanto é impossível descrever esse gosto em poucas palavras

Eu tinha tudo para não gostar da poesia de Giacomo Leopardi afinal o poeta italiano é considerado “o anti-Pascal” – só isso já bastaria para manter distância! – é um incrédulo, um negativista, um descrente etc. e, no entanto, ele me agrada. Por quê? – pergunta o meu interlocutor invisível. Esta crônica é um esboço de resposta e deve ter sequência em outras porque é impossível abarcar a lírica de Leopardi em tão pouco espaço. E, no entanto, há quem diga:

“Falando como quem confessa, a poesia de Leopardi sempre me foi um modelo: formalmente clássica – mas bem romântica na intensidade da emoção…” (Érico Nogueira, poeta e crítico).

Saiba que Giacomo Leopardi nasceu em Recanati, província de Macerata, em 1798 e morreu em Nápoles em 1837, tendo seus restos mortais desde 1839 sido transferidos para o túmulo de Virgílio, situado nos jardins da igreja de Santa Maria di Piedigrotta.

– Bem se vê que as anotações são de um fã do poeta? – argumenta de novo meu interlocutor invisível. Ao que respondo serem apenas informações coligidas para o leitor bem situar a posição do poeta que é considerado por John Macy como “o grande gênio italiano do século XIX…um poeta melancólico, pessimista, mas cantor nato. De quem podemos dizer que foi o Byron da Itália – um Byron menos prolífico, porém mais delicado e apurado na forma.”

Se “de Goethe a Laforgue, passando por Leopardi, a literatura vive a decisão de interpretar as vicissitudes humanas, numa época cheia de mutações na história da espécie[iv]; então, é dever diante de meus seis leitores, também esboçar uma confissão da conturbada relação que passionalmente mantenho com o poeta italiano que soube como poucos fazer de sua poesia no ritmo da natureza, interpretando suas vicissitudes. Estamos diante de um caso muito bem-sucedido de um poeta único, que com seus versos venceu a desventura. No Canto XXXII, (Palinódia) com a epígrafe de Petrarca (“O sempre suspirar a nada leva”), ele anuncia sua cosmovisão:

“Errei, cândido Gino, um tempo enorme
E erroneamente errei. Mísera e vã
Pensei a vida, e mais que as outras oca
A era que decorre. Intolerável
Minha língua soou, e foi, à alegre
Prole mortal, se é que mortal chamá-la
Se deve ou pode. Em meio a assombro e escárnio,
Do Éden aromado onde ela mora,
A prole nobre debochou-me, e disse
Que, desprezado ou infeliz, de gozos
Ou ignorante ou incapaz, pensei
Ser seu o meu destino, e do meu mal
Parceira a espécie. […]
“[…] Reconheci e vi
a pública alegria, e as doçuras
Do destino mortal. E vi o excelso
Estado, vi o valor do que é terreno,
E toda em flor a estrada humana, e vi
Que nada por aqui despraz e dura.
Nem menos conheci estudos, obras
Estupendas, e o gênio e astúcia, e o alto
Saber deste meu século. Nem menos
de Tânger a Catal, da Ursa ao Nilo,
e de Boston a Goa, competindo
No rastro da felicidade arfarem
Reinos, impérios e ducados; tê-la
Ou pela trança flutuante, ou mesmo
Pela pontinha do boá. E vendo,
E meditando sobre as largas folhas
Profundamente, do meu grave, antigo
Erro, e de mim, eu tive então vergonha.”

Referência

Leopardi escreveu poucos versos, mas são versos de uma potência tão significativa que levaram o autor a ser uma referência no cânone ocidental. A herança do leopardismo nas letras brasileiras – segundo Marco Lucchesi – “parece menos discreta de quanto se tem imaginado” – e “manifesta-se em múltiplas formas, do âmbito exegético ao propriamente poético” (Roberto Mulinacci); registrando inúmeras traduções dos 33 Cantos e de parte da prosa do Recanatese em língua portuguesa.

– Leopardi teria sido um romântico típico? A resposta de Carpeaux é um redondo não. O crítico austro-brasileiro sugere que “no modo a-histórico de pensar” é que “reside parte da grandeza do poeta Giacomo Leopardi; só é preciso interpretar essa sua atitude não como protesto romântico contra o seu tempo, e sim como protesto contra todos os tempos. Leopardi não foi romântico: a sua formação era intensamente greco-latina; defendeu como Monti, o uso da mitologia na poesia; detestava o subjetivismo romântico (Cosa odiosíssima è il parlar molto di se); censurou os cinquecentistas porque teriam “romantizado” a Antiguidade, mas ele mesmo também “romantizou”, e tão fortemente que deixou à posteridade uma imagem pálida à maneira de Lamartine. É que o romantismo lhe foi imposto pela vida. Leopardi foi um dos homens mais infelizes de todos os tempos”.

A infelicidade de Leopardi começa com sua doença e espalha-se por sua alma; foi infeliz, principalmente, porque foi um homem doente, mas Carpeaux ressalva: “Doente sim, mas os sofrimentos físicos e as humilhações pessoais não lhe quebraram o espírito forte” [era um homem de pequena estatura e infeliz no amor]. Há nos poemas de Leopardi o que Carpeaux designa por “dureza de pedra de seus versos”; na prosa “a lucidez crítica” que perpassa os diários (principalmente o infinito Zibaldone); e a força moral se mostra nas “Operette morali” – que são um “autêntico sistema filosófico do pessimismo”.

Entretanto, se Leopardi chega ao limite de um pessimismo, “por assim dizer, utilitarista” (como o tédio em nossa Clarice Lispector), ele possui o dom de alcançar na poesia um consolo que nos é dado, como leitores, como antídoto aos males do mundo. Portanto, se de um lado, o pensador condena as funestas ilusões de felicidade, o poeta produz “a poesia consoladora” – e esta e não os diários e a filosofia de Leopardi foi o que conquistou o mundo. Sabe-se mais de sua poesia do que de todo o resto… [+]