“Cachorros de palha: 10 anos” – Uma entrevista com John Gray

Por Cássio Leite Vieira, Ciência Hoje, vol. 50, no. 298, novembro de 2012 [PDF]

Cachorros de palha, livro que comemora 10 anos de lançamento, foi – e continuará sendo – polêmico. Seu autor, o filósofo político britânico John Gray, ex-catedrático de pensamento europeu na London School of Economics, foi – e continuará sendo – tachado de pessimista e/ou catastrofista.

Mas há intelectuais igualmente renomados que o consideram uma mente brilhante, capaz de esmiuçar, como poucos outros filósofos, a espécie humana, de forma reveladora. Humanismo é o tema do livro, de uma crueza devastadora (ver ‘Lâmina cravada no cérebro’).

Para Gray, humanos – que se comportam como um patógeno, como células cancerosas – são seres que acreditam que o conhecimento científico e a tecnologia os libertarão dos limites que constrangem a vida de outros animais. Segundo ele – colaborador do jornal The Guardian e da revista New Statesman –, a espécie humana, violenta em sua essência, caminha para sua autoaniquilação.

Hoje, Gray, afastado da academia, dedica-se apenas a escrever livros e resenhas. Depois de alguma insistência, a Ciência Hoje conseguiu arrancar-lhe as respostas que seguem. “São curtas, mas elas dizem tudo que quero dizer.”

Há 10 anos, Cachorros de palha era publicado. Como o livro foi recebido? O que levou o senhor ao tema do humanismo?

Foi recebido com uma mistura de raiva, descrença e prazer. Desde então, tem chegado ao meu conhecimento que o livro foi apreciado principalmente por escritores, poetas, pintores, músicos e psicoterapeutas – do meu ponto de vista, um público ideal de leitores. Fui levado ao humanismo pelo fato de ele, nestes últimos tempos, ter sido – do mesmo modo que o cristianismo foi no passado – o credo de pessoas desinteressantes, convencionais e desatentas.

Dez anos depois, o senhor mudaria algo no livro? Se sim, o quê?

Não há nada no livro que eu gostaria de mudar. No entanto, meu próximo livro, The silence of animals: on progress and other modern myths [O silêncio dos animais: sobre o progresso e outros mitos modernos], que será publicado pela editora Penguin, em fevereiro do ano que vem, é uma sequência que desenvolve, em novas direções, temas de Cachorros de palha.

O fascismo e o comunismo são citados no livro como as grandes utopias do século passado. Este começo de século tem alguma utopia? Se sim, qual?

A utopia que colapsou pouco depois do começo deste século foi a do livre mercado. A utopia que persiste é a da ciência – a fantasia de que o acúmulo de conhecimento irá permitir ao animal humano transcender sua própria natureza. Não é possível saber qual será a próxima utopia, mas, certamente, haverá outras. Um mundo sem a violência e a loucura da utopia é, em si, uma utopia; talvez, a mais inacreditável de todas elas.

Que tipo de reflexão a leitura de Cachorros de palha traria em relação a encontros mundiais, como o recente Rio+20?

Sem comentários. Nenhum desses encontros tem importância.

Depois de ler Cachorros de palha, é quase inevitável um profundo gosto de pessimismo, um tipo de ‘não há futuro’. Fica-se com a impressão – ou certeza, para alguns – de que realmente não há progresso fora da ciência; que não temos como controlar a tecnologia; que não há livre-arbítrio; que humanos são, na verdade, Homo ‘rapiens’, espalhando destruição e guerras… Como, então, deveria viver uma pessoa que aceita essa visão pós-humanista do mundo?

Todas as grandes religiões e filosofias são ‘pessimistas’, no sentido de que rejeitam a fé moderna no progresso. Se você quer saber como mentes menos medíocres viveram no passado, leia [o escritor e filósofo romano] Sêneca [4 a.C.-65] ou [o escritor e ensaísta francês Michel de] Montaigne [1533-1592], ou estude os ensinamentos de [o filósofo grego] Epicuro [341- 270 a.C.] ou [do príncipe hindu Siddharta Gautama (c. 563-483 a.C.), mais conhecido como] Buda.

O senhor afirma no livro que sociedades baseadas na liberdade serão raras no futuro – anarquia e tirania serão a regra. Que causas estão por trás desses cenários?

Liberdade não é uma condição natural dos humanos, mas, sim, um artifício que foi criado ao longo da civilização. Já que o animal humano não muda de modo significativo, o artifício da liberdade nunca dura muito. As piores ameaças à liberdade atualmente são o crescimento da população, a escassez de recursos e o fundamentalismo na religião e na ciência.

O psicólogo evolucionista norte-americano Steven Pinker, em seu recente livro The better angels of our nature [Os melhores anjos da nossa natureza, sem tradução para o português], e o historiador francês Robert Muchembled, em History of violence [História da violência, também sem tradução], afirmam que a violência tem diminuído entre os humanos e que estamos vivendo a era mais pacífica de nossa história. Outros dizem que nossa empatia com os animais e com a natureza está crescendo. Esses fatos, de algum modo, não parecem contrariar o cenário que o senhor apresenta em Cachorros de palha, já que eles parecem representar progresso ético e social?

Não está havendo declínio na violência, apenas mudanças nos modos como ela está sendo cometida. Em relação ao total da população, os Estados Unidos têm a maior proporção do mundo de presos – um nível extraordinário de violência. O tráfico humano é apenas outro nome para a escravidão, que é também uma forma de violência. México e Colômbia estão sofrendo uma terrível violência por causa de uma absurda ‘guerra contra as drogas’. Aqueles que dizem que entramos em um ‘longo período de paz’ são tão infantilmente míopes quanto os economistas que nos diziam que havíamos entrado em um ‘longo período de vertiginoso crescimento econômico’.

O senhor afirma que a humanidade irá desaparecer da Terra. No entanto, [o filósofo escocês David] Hume [1711-1776] considera os humanos uma espécie muito inventiva. O senhor não acha que, em vez de produzir as condições necessárias para causar a própria extinção do planeta, a humanidade irá trabalhar no sentido oposto, criando uma sociedade tecnológica, mesmo que ela seja virtual?

A tecnologia não pode erradicar a destrutividade humana; pode apenas multiplicar seu escopo. Os humanos, certamente, irão se extinguir, do mesmo modo que todos os outros animais. Mas eu não espero que isso ocorra em um futuro próximo. A literatura, o cinema, a mídia e mesmo as artes têm esboçado os humanos como capazes de amar uns aos outros, serem solidários, repartir em tempos difíceis, terem compaixão, morrer se necessário pelo outro ou – nas palavras de um crítico que resenhou Cachorros de palha – compor sinfonias e contar piadas… Nesse contexto, que tipo de argumentos o senhor apresentaria para convencer uma pessoa de que nós não somos diferentes de outros animais? Outros animais também demonstram coragem, empatia e inventividade, embora nenhum deles – exceto os humanos – tenha até agora criado o suicídio com bombas, a tortura e o genocídio.

Ao final do segundo capítulo de Cachorros de palha, o senhor deixa uma pergunta sem resposta: para viver, de que ilusões poderíamos nos livrar e de quais não? O senhor se aventuraria a responder àquela questão agora?

Não dou conselhos. Pode ser que diferentes pessoas precisem de verdades e inverdades diferentes.

Várias passagens de Cachorros de palha citam [o filósofo alemão Arthur] Schopenhauer [1788-1860] e Hume. Que lições desses filósofos seriam úteis hoje?

Hume e Schopenhauer são mais inteligentes que a maioria dos filósofos no entendimento das limitações radicais da razão humana. Mas, ultimamente, acho que bons poetas são mais inteligentes que praticamente todos os filósofos. Ricardo Reis e Alberto Caeiro, heterônimos de [o português] Fernando Pessoa [1888-1935], têm mais a nos ensinar do que [o filósofo e matemático britânico] Bertrand Russell [1872-1970] ou [o filósofo e escritor francês] [Jean-Paul] Sartre [1905-1980]. Os poemas do [argentino] [Jorge Luis] Borges [1899-1986] contêm muito mais sabedoria que as páginas de [o filósofo alemão Friedrich] Nietzsche [1844-1900]. Os versos de [os britânicos] Thomas Hardy [1840-1928] e Edward Thomas [1878-1917] são muito mais esclarecedores que os trabalhos de [o filósofo e economista britânico] John Stuart Mill [1806-1873]. Os poemas de [os norte-americanos] Wallace Stevens [1879-1955] e John Ashbery demonstram um refinamento intelectual que nenhum filósofo de hoje consegue igualar. Se você quer a verdadeira filosofia, leia poesia – ou se você não gosta de poesia, [leia] as ficções realistas de [o britânico] Joseph Conrad [1857-1924], [o francês] Marcel Proust [1871-1922] e [o russo, Nobel de 1933] Ivan Bunin [1870-1953], entre outros grandes escritores da prosa moderna.