Reflexões sobre o milênio: E.M. Cioran e John Gray em diálogo

“Minha visão do futuro é tão exata que, se eu tivesse filhos, os estrangularia no ato.”

“Posso compreender e justificar todas as anomalias, tanto em amor como em tudo; mas que haja impotentes entre os imbecis, isso é algo que me ultrapassa.”

“Antigamente, quando o espaço se encontrava menos abarrotado, menos infestado de homens, umas seitas, indubitavelmente inspiradas por uma força benéfica, preconizavam e praticavam a castração; por um paradoxo infernal, elas desapareceram no momento preciso em que sua doutrina teria sido mais oportuna e mais salutar do que nunca. Maníacos da procriação, bípedes de rostos desvalorizados, perdemos todo atrativo uns para os outros, e somente sobre uma terra semideserta, povoada no máximo de alguns milhares de habitantes, nossas fisionomias poderiam reencontrar seu antigo prestígio. A multiplicação de nossos semelhantes beira a imundície; o dever de amá-los beira o absurdo. Isto não impede que todos os nossos pensamentos estejam contaminados pela presença do humano, que exalem o cheiro do humano e que não consigam desembaraçar-se dele.”

CIORAN

Há aproximadamente 65 milhões de anos, os dinossauros e três quartos de todas as outras espécies subitamente pereceram. A causa é controvertida, mas muitos cientistas acreditam que a extinção em massa tenha sido o resultado da colisão de um meteoro com a Terra. As espécies atuais estão desaparecendo a uma taxa destinada a suplantar a daquela última grande extinção. A causa não é nenhuma catástrofe cósmica. Como diz Lovelock, é uma praga de gente.

“O lance de dados de Darwin não foi favorável à Terra”, observa Wilson. A jogada de sorte que trouxe a espécie humana ao seu poder atual implicou a ruína para outras incontáveis formas de vida. Quando os humanos chagaram ao Novo Mundo, há cerca de 12 mil anos, o continente abundava em mamutes, mastodontes, camelos, gigantescas preguiças terrestres e dúzias de espécies similares. A maior parte dessas espécies nativas foi perseguida até a extinção. Segundo Diamond, a América do Norte perdeu cerca de 70% de seus grandes mamíferos, e a América do Sul, 80%.

A destruição do mundo natural não é o resultado do capitalismo global, da industrialização, da “civilização ocidental” ou de quaisquer falhas em instituições humanas. É a consequência do sucesso evolucionário de um primata excepcionalmente rapace. Ao longo de toda a história e pré-história, o avanço humano coincidiu com a devastação ecológica.

É verdade que uns poucos povos tradicionais viveram em equilíbrio com a Terra por longos períodos. Os inuits e os bosquímanos tropeçavam de leve nos modos de vida com os quais se deparavam. Nós não podemos caminhar sobre a Terra assim tão delicadamente. O Homo rapiens tornou-se numeroso demais.

O estudo das populações não é uma ciência muito exata. Ninguém antecipou o colapso populacional que está ocorrendo na Rússia europeia pós-comunista, nem a escala da queda de fertilidade que está ocorrendo em muitas partes do mundo. É grande a margem de erro em cálculos de fertilidade e expectativa de vida. Mesmo assim, é inevitável um outro grande crescimento. Como Morrison observa, “mesmo se considerarmos uma taxa de natalidade declinante, devido a fatores sociais, e uma taxa de mortalidade crescente, devido a fome, doença e genocídio, os atuais mais de seis bilhões que compõem a população global serão pelo menos 1,2 bilhões a mais por volta de 2050”.

Uma população humana aproximando-se dos oito bilhões só pode ser mantida devastando a Terra. Se hábitats selvagens passarem a ser usados para cultivo humano e habitação, se as florestas tropicais puderem ser transformadas em desertos verdes, se a engenharia genética possibilitar colheitas cada vez mais abundantes a serem extraídas de solos cada vez mais debilitados, então os humanos terão criado para si mesmos uma nova era geológica, a Eremozóica, a Idade da Solidão, na qual pouco restará sobre a Terra além deles mesmos e do meio ambiente protéico que os mantém vivos.

É uma visão aterradora, mas é apenas um pesadelo. Ou os próprios mecanismos autorreguladores da Terra tornarão o planeta menos habitável para os humanos ou os efeitos colaterais de suas próprias atividades abreviarão o atual crescimento de seu número.

Lovelock sugere quatro possíveis consequências da primatemaia disseminada: “destruição dos organismos patogênicos invasores; infecção crônica; destruição do hospedeiro, ou simbiose – uma duradoura relação de benefício mútuo entre o hospedeiro e o invasor”.

Das quatro consequências, a última é a menos provável. A humanidade jamais iniciará uma simbiose com a Terra. Ainda assim, ela não destruirá seu planeta hospedeiro, o terceiro resultado possível de Lovelock. A biosfera é mais antiga e mais forte do que os humanos jamais o serão. Como escreve Margulis, “nenhuma cultura humana, a despeito de sua capacidade inventiva, pode matar a vida neste planeta, mesmo que tente”.

GRAY, John, Cachorros de palha. Trad. de Maria Lucia de Oliveira. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2007.