“Mecanismos da utopia” (E.M. Cioran)

EM QUALQUER GRANDE CIDADE onde o acaso me leva, surpreendo-me que não se desencadeiem todos os dias revoltas, massacres, uma carnificina sem nome, uma desordem de fim do mundo. Como, em um espaço tão reduzido, podem coexistir tantos homens sem destruir-se, sem odiar-se mortalmente? Na verdade, se odeiam, mas não estão à altura de seu ódio. Esta mediocridade, esta impotência, salva a sociedade, assegura sua duração e sua estabilidade. De vez em quando produz-se algum abalo que nossos instintos aproveitam; depois, continuamos nos olhando nos olhos como se nada tivesse acontecido e coabitamos sem nos despedaçar mutuamente de forma demasiado visível. Tudo retorna à ordem, à calma da ferocidade, tão temível, em última instância, quanto o caos que a havia interrompido.

Mas me surpreende mais ainda que, sendo a sociedade o que é, alguns tenham se empenhado em conceber outra, inteiramente diferente. De onde pode provir tanta ingenuidade, ou tanta loucura? Se a pergunta é normal e trivial, a curiosidade que me leva a fazê-la tem, em compensação, a desculpa de ser maligna.

Em busca de novas provas, e no preciso momento em que estava a ponto de desesperar, tive a ideia de introduzir-me na literatura utópica, de consultar suas “obras-primas”, de impregnar-me delas, de chafurdar nelas. Para minha grande satisfação, encontrei como saciar meu desejo de penitência, meu apetite de mortificação. Passar alguns meses examinando os sonhos de um futuro melhor, de uma sociedade “Ideal”, consumindo o ilegível, que sorte! Apresso-me em acrescentar que esta literatura repugnante é rica em ensinamentos e que, ao frequentá-la, não se perde totalmente o tempo. Desde o princípio se distingue o papel (fecundo ou funesto, não importa) que desempenha, na origem dos acontecimentos, não a felicidade, mas a ideia de felicidade, ideia que explica por que, tendo a idade de ferro a mesma extensão da história, cada época dedica-se a divagar sobre a idade de ouro. Se se pusesse fim a tais divagações, ocorreria uma estagnação total. Só agimos sob a fascinação do impossível: isto significa que uma sociedade incapaz de gerar uma utopia e de consagrar-se a ela está ameaçada de esclerose e de ruína. A sensatez, à qual nada fascina, recomenda a felicidade dada, existente; o homem recusa esta felicidade, e essa simples recusa faz dele um animal histórico, isto é, um amante da felicidade imaginada.

“Logo será o fim de tudo; e haverá um novo céu e uma nova terra”, lemos no Apocalipse. Se eliminamos o céu e conservamos só a “nova terra”, teremos o segredo e a fórmula dos sistemas utópicos; para maior precisão, talvez fosse preciso substituir “terra” por “cidade”; mas isso é apenas um detalhe; o que conta é a perspectiva de um novo acontecimento, a febre de uma espera essencial, de uma parousia degradada, modernizada, da qual surgem esses sistemas tão caros aos deserdados. A miséria é, efetivamente, a grande auxiliar do utopista, a matéria sobre a qual trabalha, a substância com que nutre seus pensamentos, a providência de suas obsessões. Sem ela estaria desocupado, mas ela o ocupa, o atrai ou o molesta, conforme seja rico ou pobre; por outro lado, ela não pode prescindir dele, tem necessidade desse teórico, desse entusiasta do futuro, sobretudo porque ela mesma, meditação interminável sobre a possibilidade de escapar a seu próprio presente, não suportaria sua desolação sem a obsessão por uma outra terra. Vocês duvidam? É porque não experimentaram a indigência completa. Se chegarem a ela, verão que quanto mais desprovido está alguém, mais gasta o tempo e a energia em querer, com o pensamento, reformar tudo, inutilmente. E não penso unicamente nas instituições, criações do homem (estas serão condenadas sem apelação), mas nos objetos, em todos os objetos por mais insignificantes que sejam. Não podendo aceitá-los tal como são, vocês quererão impor a eles suas próprias leis e seus próprios caprichos, fazer o papel de legislador ou de tirano à custa deles, e ainda quererão intervir na vida dos elementos para modificar sua fisionomia e sua estrutura. O ar é irritante: que mude! E também a pedra. E o vegetal, e o homem. Para além das bases do ser, se quererá descer até os fundamentos do caos, para apoderar-se dele, para lá estabelecer-se. Quando não se tem um tostão no bolso, a gente se agita, delira, sonha possuir tudo, e esse tudo, enquanto dura o frenesi, se possui realmente: nos igualamos a Deus, mas ninguém se dá conta disso, nem Deus, nem sequer a gente mesmo. O delírio dos indigentes é gerador de acontecimentos, fonte de história: uma multidão de arrebatados que querem um outro mundo, aqui e agora. São eles que inspiram as utopias, é para eles que elas são escritas. Mas lembremos que utopia significa em parte alguma.

E de onde seriam essas cidades que o mal não toca, onde se glorifica o trabalho e onde ninguém teme a morte? Nelas nos vemos obrigados a uma felicidade feita de idílios geométricos, de êxtases regulamentados, de mil maravilhas repugnantes: assim se apresenta necessariamente o espetáculo de um mundo perfeito, de um mundo fabricado. Com uma minúcia risível, Campanella nos descreve os solares isentos de “gota, reumatismo, catarros, ciática, cólicas, hidropisia, flatulências”… Tudo abunda na Cidade do sol, “porque cada um procura distinguir-se naquilo que faz. O chefe que preside cada coisa é chamado de rei… Mulheres e homens, divididos em grupos, entregam-se ao trabalho, sem jamais infringir as ordens de seus reis, e sem jamais mostrar-se cansados como nós o faríamos. Consideram seus chefes como pais ou irmãos mais velhos”. Tolices similares se encontram em todas as obras do gênero, sobretudo nas de Cabet, Fourier ou Morris, todos desprovidos dessa gota de aspereza, tão necessária às obras, literárias ou outras.

Para conceber uma verdadeira utopia, para esboçar, com convicção, o panorama da sociedade ideal, é preciso uma certa dose de ingenuidade, e mesmo de tolice, que, demasiado aparente, acaba por exasperar o leitor. As únicas utopias legíveis são as falsas, as que, escritas por jogo, diversão ou misantropia, prefiguram ou evocam as Viagens de Gulliver, bíblia do homem desenganado, quintessência de visões não quiméricas, utopia sem esperança. Através de seus sarcasmos, Swift varreu a estupidez de um gênero até quase anulá-lo.

É mais fácil confeccionar uma utopia do que um apocalipse? Ambos têm seus princípios e seus estereótipos. A primeira, cujos lugares-comuns estão mais de acordo com nossos instintos profundos, deu origem a uma literatura muito mais abundante do que o segundo. Não é dado a todo mundo confiar em uma catástrofe cósmica, nem amar a linguagem e a maneira como é anunciada e proclamada. Mas aquele que admite a ideia e a aplaude, lerá, nos Evangelhos, com o arrebatamento do vício, as frases de efeito e os clichês que se tornaram famosos em Patmos: “… o céu se obscurecerá, a lua não dará sua luz, os astros cairão… todas as tribos da terra se lamentarão… esta geração não passará e todas estas coisas ocorrerão.” Este pressentimento do insólito, de um acontecimento capital, esta espera crucial pode converter-se em ilusão, e então aparecerá a esperança de um paraíso sobre a terra ou em outra parte; ou se transformará em ansiedade, e será a visão de um Pior ideal, de um cataclisma voluptuosamente temido.

CIORAN, E.M., “Mecanismos da utopia”, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.