“Os Sentineleses e o mal-estar da civilização” (Rodrigo Inácio R. Sá Menezes)

Saiu recentemente a notícia de um aventureiro americano morto a flechadas ao tentar fazer contato com uma das poucas tribos indígenas que ainda se mantém completamente isolada, sem nenhum contato com o mundo civilizado: os Sentineleses, habitantes da ilha de Sentinela, situada em um arquipélago no Oceano Índico.

John Chau, morto pelos aborígenes, não era um simples turista, mas um missionário que arriscou a vida para levar a mensagem do Evangelho a aquele povo tão primitivo. Chau, que pagou para que pescadores o levassem clandestinamente até a remota ilha, teria escrito em seu diário, na véspera do encontro mortal, após sobreviver a um primeiro ataque: “Deus me protegeu e me camuflou contra a guarda costeira e a marinha”. Ele havia estado na ilha um dia antes de morrer, quando foi atacado por uma criança da tribo. Naquela ocasião, por sorte, a flecha erraria o alvo, acertando a Bíblia que ele levava consigo. “Por que um garotinho disparou contra mim hoje?”, teria escrito ele, inconformado com a hostilidade; “sua voz aguda ainda ecoa na minha cabeça”, teria comentado ainda em seu diário.

A certeza da superioridade da cultura ocidental e cristã sobre a forma de vida daqueles selvagens levaria o missionário a uma morte trágica. Trágica? Ora, não nos esqueçamos que ele morreu heroicamente, em sua missão de pregar, de evangelizar: um mártir, portanto. No último contato feito com a família, no mesmo dia em que morreria, Chau escreveu: “Vocês podem achar que eu sou maluco, mas acho que vale a pena declarar Jesus para essas pessoas”. E, em suas últimas anotações, algumas palavras sobre a questão da morte e a condição “subhumana” dos Sentineleses. “Por que esse lugar lindo tem que ter tanta morte?”, refletiu, sem temer a ironia do destino. “Espero que esta não seja uma das minhas últimas anotações, mas se for, glória a Deus”, completou. Suas boas intenções não deixam de ecoar o Sonho de um homem ridículo, de Dostoiévski.

Este episódio, que de trágico não tem nada, nos remete ao excelente filme Silêncio (2016) dirigido por Martin Scorsese e baseado em documentos históricos, sobre o destino análogo que tiveram jesuítas em missão evangelizadora no Japão do século XVI. Não se trata, no filme, de um encontro entre representantes de uma civilização sofisticada e tribos primitivas com sua visão de mundo marcada pelo fetichismo e pelo animismo. Aí a história é outra: o choque se dá entre o Ocidente cristão e um Japão budista. Em todo caso, torturados e mortos nas mãos das autoridades imperiais do Japão medieval, ou atravessados por flechas rudimentares de uma tribo primitiva, o que se coloca como questão comum é a impertinência de querer impor uma verdade a quem não está interessado e não precisa dela, a loucura de morrer — e, se for o caso, matar — em nome desta verdade.

O missionarismo em questão também evoca o ensaio de Cioran, em La chute dans le temps, intitulado “Portrait de l’homme civilisé” [Retrato do homem civilizado], muito oportuno para refletir sobre a prepotência civilizacional do Ocidente:

O encarniçamento em apagar da paisagem humana o irregular, o imprevisto, o disforme, beira a indecência. É sem dúvida deplorável que em certas tribos ainda devorem os anciãos moribundos; no entanto, não podemos esquecer que o canibalismo representa tanto um modelo de economia fechada como um costume que, algum dia, seduzirá o abarrotado planeta. E mesmo que se persiga impiedosamente os antropófagos, não me comove que vivam no terror e que terminem por desaparecer, minoritários como já são, desprovidos de confiança em si mesmos, incapazes de advogar em causa própria. Extremamente distinta me parece a situação dos analfabetos, massa considerável apegada a suas tradições e privações e a que se castiga com uma injustificável virulência. Pois, afinal de contas, é um mal não saber ler nem escrever? Francamente, não me parece. E penso inclusive que deveremos vestir luto pelo homem quando desaparecer o último iletrado… [+]