Folha de S. Paulo, 04 de janeiro de 1998

No dia 21 de maio de 1992, Ioan Culianu, um jovem e brilhante professor de história da religião da Faculdade de Estudos Religiosos da Universidade de Chicago entrou na ante-sala de seu departamento. De cima do vaso sanitário, uma pessoa munida de uma Beretta .25 mirou a cabeça do professor de 41 anos e o assassinou. Como observou o médico Robert Stein, do condado de Cook, “matar alguém com um único disparo de .25 não é tarefa fácil”, o que imediatamente sugeriu que a ação tivesse sido praticada por um profissional.

A polícia se viu completamente desprovida de pistas. Em um primeiro momento, a investigação considerou as explicações mais óbvias: um aluno contrariado, envolvimento homossexual, tentativa de roubo, “cherchez la femme”. Mas Culianu não tinha sido roubado; seu relacionamento feliz com Hillary Wiesner, uma brilhante e charmosa acadêmica, era público e notório; os alunos o apreciavam muito. Veio à tona, contudo, o fato de o professor ser um exilado romeno que fazia oposição aberta ao regime do já afastado Ceausescu e seus sucessores. Culianu podia ter sido assassinado por um membro de alguma seita fanática com a qual estivesse em contato ou por sobreviventes do famoso serviço secreto romeno, o Securitate. De toda forma, a polícia de Chicago ainda não havia encontrado o responsável pelo crime.

No ano passado, em Bucareste, uma das primeiras perguntas que a platéia me dirigiu depois de uma palestra sobre um tema bem diverso desse foi: “É verdade que o senhor conhecia Ioan Culianu? Qual é, a seu ver, a explicação de sua morte?”. Respondi que havia trocado algumas cartas com ele, que admirava muito seu trabalho e que ele havia demonstrado grande interesse pelo meu, de modo que uma amizade cordial havia se desenvolvido, embora eu só o houvesse visto duas ou três vezes –e sempre em público.

A última dessas ocasiões tinha sido o lançamento de meu romance “O Pêndulo de Foucault” em Nova York. Culianu, que estava na platéia com Hillary Wiesner, foi convidado a participar da mesa-redonda sobre o livro. Depois disso, não o vi mais. Quando tomei conhecimento de sua morte, dei mais uma olhadela na dedicatória que ele me havia feito no exemplar de “Out of this World” (1) que eu recebera algum tempo antes. Estava datada de 4 de abril de 1991. Isso foi tudo que pude dizer em Bucareste. Sobre a morte de Culianu, eu sabia apenas o que todos sabiam, ou seja: não se sabia absolutamente nada.

Percebi o desapontamento da platéia. As pessoas queriam que eu falasse de Culianu para lhes revelar algo, e me dei conta de que, sobretudo entre a mais jovem geração de romenos, ele havia se transformado em um mito. Ou talvez em símbolo político. Compreendi que, além da obra acadêmica, muito pouco se conhecia a seu respeito. Agora, depois de ler o livro de Ted Anton, estou mais bem informado. “Eros, Magic, and the Murder of Professor Culianu” (Eros, Magia e o Assassinato do Professor Culianu) é uma reconstrução detalhada de um crime que recebeu muita atenção da mídia, mas a solução sugerida pelo autor certamente tem significação política. E, ao mesmo tempo, é um livro sobre um mito, o que contribui para a propagação desse mito.

A julgar pelo número de pessoas que contatou, Anton foi escrupuloso no desenvolvimento de seu trabalho. Quando soube que eu havia mantido contato com Culianu, solicitou-me cópias das cartas que tínhamos trocado e qualquer outra informação de que eu dispusesse. Se fez o mesmo (e aparentemente fez) com outros conhecidos do professor, seus esforços para reconstruir o homem e sua história devem ser tomados como conscienciosos, rigorosos mesmo. Embora o livro seja dirigido a um público não-especializado, Anton, ao sumarizar as posições teóricas de Culianu, leva a empreitada a cabo sem distorcer o pensamento do escritor. Pode-se apontar, é verdade, alguns deslizes, como a definição de Nicolau de Cusa como “poeta”, à página 109, ou a classificação de “Ficções”, de Borges, como “histórias policiais” e uma certa confusão na comparação entre a arte da memória de Raimundo Lúlio e a de Giordano Bruno, mas trata-se de pecados veniais. Até onde posso julgar, a bibliografia (que inclui até os trabalhos menores de Culianu) é impecável.

Há, contudo, um bom número de diálogos envolvendo Culianu, seus amigos e conhecidos. Em teoria literária, um dos critérios para a distinção entre uma obra de ficção e uma de história é justamente a presença do diálogo. Ainda assim, há livros que, incluindo diálogos, não são exatamente ficcionais (um gênero que eu chamaria de biografia ficcionalizada, como alguns trabalhos de Robert Graves, por exemplo). Para nos dar uma imagem vívida de um personagem, o escritor reconstrói conversas que podem não ter correspondido exatamente ao que o texto nos apresenta; isso é aceitável, embora exijamos que a reconstrução tenha-se baseado em documentos que, se não confirmam esses diálogos, pelo menos atestam sua plausibilidade. O livro de Anton certamente pertence a esse gênero e consiste em leitura fascinante para aqueles que nem sequer ouviram falar de Culianu.

Acontece que Graves escreveu biografias ficcionalizadas de pessoas mortas já há séculos, sobre quem pensávamos saber bastante (sobretudo em relação às circunstâncias que cercaram suas mortes) e não o fez na tentativa de explorar sua psicologia. O caso de Culianu (e o de Anton) é diferente: a forma, aparentemente ficcional, serve para nos ajudar a entender um personagem sobre quem descobrimos que sabíamos muito pouco e a arriscar uma hipótese sobre as razões que conduziram a sua morte.

Não tentarei descrever tudo que Anton diz em “Eros, Magic, and the Murder of Professor Culianu”. O que mais me interessa não é o que está no livro, mas por que foi escrito. Suponhamos que Culianu tenha sido “apenas” um historiador da religião que, ao longo de sua carreira, preocupou-se com as disputas teológicas entre a Reforma e a Contra-Reforma. Nesse caso (e excluindo todo o resto), o livro de Anton poderia ser resumido da seguinte maneira:

Um jovem romeno nascido e educado sob o regime comunista tenta escapar das opressivas limitações de seu universo pessoal. Então, descobre a obra de um grande historiador da religião, seu compatriota Mircea Eliade, que por algum tempo viveu na França e nos Estados Unidos. O jovem se deixa fascinar pelo tema e (com um pequeno grupo de amigos) constrói seu próprio mundo intelectual (nas palavras de Anton, ele teria encontrado “a possibilidade de rebeldia com causa para si mesmo –não externa, mas internamente”). O jovem, que se sente oprimido pelo clima inquisitorial do regime de seu país (é repetidamente interrogado por membros do Securitate), finalmente consegue uma bolsa de estudos que o leva primeiro à Itália e depois à França, onde dá continuidade a sua pesquisa.

A essa altura, ele conquista um posto como professor na Holanda e, por fim, na Faculdade de Estudos Religiosos da Universidade de Chicago, onde Eliade é acadêmico proeminente. Fora de seu país, Culianu sofre as agruras do exilado: busca contato com Eliade, seu herói, vem a obtê-lo somente depois de superar muitas dificuldades e inexplicáveis reticências, mas finalmente se torna colaborador e biógrafo do mestre. Nesse processo, o jovem, que pouco sabia sobre o que acontecera na Romênia antes de seu nascimento, descobre que (supostamente) Eliade fora próximo da Guarda de Ferro, uma organização de extrema direita anti-semita e com simpatias nazistas.

Culianu o questiona sobre esse lado obscuro de seu passado, ouve apenas murmúrios a título de confissão e logo se dá conta de que Eliade realmente fez parte dos círculos da Guarda de Ferro, mas mantém a esperança de poder provar que o mestre não chegou a se tornar membro efetivo da organização e seguramente não foi nem nazista nem anti-semita.

Mas o que pode saber sobre a esquerda e a direita esse jovem que, ao longo de seus anos de formação, foi mantido na ignorância das evoluções políticas do mundo ocidental? De acordo com Anton, Culianu, em um primeiro momento, demonstra interesse pela atmosfera cultural da direita, mas sua obra e seus escritos mais tarde atestarão a opção pela democracia. No final, ele insistirá que a Guarda de Ferro era “a mais secreta, a mais bombástica, a mais mística e desastrosa organização fascista da Europa do pré-Guerra”.

Depois da morte de seu mentor, em 1986, Culianu se distancia dele, não menos em seus rumos acadêmicos, desenvolvendo sua própria teoria da história ao passo em que permanece sensível ao que está acontecendo em seu país. Com Ceausescu ainda no poder, escreve contos de ficção científica (ou melhor, política) que se provam proféticos, predizendo a maneira como o regime comunista seria derrubado. Mas Culianu não se dá por satisfeito com a queda do comunismo, em dezembro de 1989. Ele acredita que a série de eventos que causou a derrocada de Ceausescu não foi uma revolução, mas um “coup d’état” que permitiu aos antigos líderes permanecer no poder. Mais que isso, está convencido de que no novo contexto os comunistas encontram aliados naturais nos herdeiros da velha extrema-direita. Ele expressa essas posições incansavelmente, em artigos, entrevistas e, de uma maneira bem sistemática, em seus contos, que, alegorias explícitas, são sátiras mais provocadoras que qualquer declaração aberta.

Talvez Culianu ainda não saiba que muitos membros da Guarda de Ferro que abandonaram a Romênia na década de 40 se estabeleceram no Meio-Oeste americano, em particular nas imediações de Chicago, Detroit e Toronto, ou talvez só comece a suspeitar disso quando já é tarde demais. Talvez ele não se dê conta de que algumas de suas fantasias literárias, escritas com afiada ironia, são levadas muito a sério por algumas pessoas que as consideram mais perigosas que um ataque político direto, sobretudo porque agora são publicadas em uma nova revista, a “Lumea Liberã”, de grande circulação em sua terra natal.

Embora não nutra idéias monarquistas, Culianu encontra Miguel, ex-rei da Romênia, e se convence de que o retorno da monarquia talvez possa restaurar a estabilidade constitucional no país. Começam, então, as ameaças: telefonemas, cartas, incidentes intimidadores como uma invasão a sua casa. A algumas delas, ele não dá importância; outras, porém, o preocupam: é possível que em dado momento, pensa, já não consiga escapar a uma função de cunho político. Então, é assassinado de uma maneira que tipifica os métodos dos serviços secretos da Europa Oriental. Anton escreve:

“O assédio a Culianu também está de acordo com a fórmula que um ex-coronel do Securitate descreveu ao jornalista Peter Bacanu: primeiro cartas, depois telefonemas e então uma invasão ou uma visita pessoal. Então, se o escritor não se calasse, seria assassinado”.

As autoridades romenas negam conhecimento de qualquer motivo político para o assassinato, mas há elementos suspeitos. O “România Mare”, um jornal onde, em um tipo de associação difícil de destrinchar, velhos comunistas têm por companheiros tradicionais membros da extrema-direita pró-nazista, mencionou “a visão fermentada da mente fecal de Culianu” e comemorou sua morte com um epitáfio com o seguinte teor: “Interessado por eros, pela magia renascentista e por viagens ‘para fora deste mundo’, Culianu finalmente tem a chance de levar a cabo suas investigações”.

Essa atitude do jornal obviamente não constitui prova nenhuma, mas certamente se pode juntar a fortes indícios de que diversas forças políticas romenas eram hostis a Culianu e possivelmente desejavam sua morte. Anton não adota o método dedutivo de Sherlock Holmes, e sua narrativa lembra mais Lovecraft que Conan Doyle. O livro se limita a apresentar fatos e coincidências (e eu dispensaria de bom grado alguns episódios curiosos posteriores ao assassinato, nos quais figuram declarações de excêntricos, médiuns e talvez mitomaníacos aos quais os investigadores e o próprio Anton dedicaram um bom tempo sem chegar a nenhuma conclusão definitiva. Ainda assim, o livro leva o leitor sensato a acreditar que Culianu foi morto por razões políticas e que o assassino não foi um fanático agindo isoladamente, mas alguém enviado por forças ainda poderosas na Romênia pós-Ceausescu. Como em qualquer acontecimento envolvendo serviços secretos, trata-se de uma história muito simples, na qual o provável responsável pelo assassinato é bem evidente, mas nada pode ser provado.

Se foi assim, o caso de Culianu não será muito diferente de tantos outros. Do próximo capítulo ao último, Anton lembra que em 1992 “pelo menos 50 escritores foram assassinados em todo o mundo; em 1994, esse número saltou para 72. Somente na Argélia, 27 jornalistas foram mortos durante os primeiros nove meses de 1995”. Para justificar o livro, bastariam suas últimas linhas:

“A tarefa de falar sobre o assunto cabe aos americanos que dão valor à liberdade de pensamento e a direitos que damos por garantidos. Esse crime aconteceu em solo americano, em uma universidade de renome, em pleno dia letivo… Como sinal da vulnerabilidade de um americano à história, coloca uma questão crítica para aqueles que ensinam, escrevem ou promulgam as nossas leis”.

Tudo isso é excelente motivo para escrever um livro sobre o caso do professor Culianu, mas não para intitulá-lo “Eros, Magic, and the Murder of Professor Culianu”. Ioan Culianu pode muito bem ter sido assassinado por razões políticas, mas o que o título sugere é que o crime está de alguma forma relacionado à prática de magia. Trata-se simplesmente de um recurso da editora para alavancar as vendas? Eu acho que não, porque o livro mistura os posicionamentos políticos de Culianu com outros aspectos de sua personalidade de uma maneira tão vigorosa que o título se justifica (e isso conduz ao segundo aspecto da questão).

Com o relato de acontecimentos e anedotas, Anton nos faz descobrir que, durante toda a sua existência, Culianu foi fascinado pelo pensamento mágico da Renascença, pelos fenômenos do xamanismo, pelas seitas hereges que ao longo dos séculos prosperaram na esteira das tradições do gnosticismo, por técnicas divinatórias, por experiências de êxtase. Agora, se alguém se pusesse a preparar um coquetel com todas essas idéias sem distinguir os vários períodos históricos, as várias civilizações em que surgiram, e partindo do princípio de que todas carregam verdades, terminaria por chegar ao que se chama de ocultismo. E, quando esse ocultismo não é apenas algo sobre que escrever, mas uma prática, pode-se acabar delineando um desses personagens que durante o dia vasculha prateleiras de livrarias “new age” e, depois do escurecer, pode participar de rituais satânicos ou com outras inclinações místicas.

A bem da verdade, muitas das anedotas compiladas por Anton podem levar o leitor a ver Culianu como um ocultista. Do pacto de amor e fidelidade com a primeira mulher, assinado com sangue, às brincadeiras que fazia com os alunos, entre elas incluído o jogo de tarô, a um sem número de declarações a respeito da tênue linha que divide sonho e realidade, Culianu parece engajado em um flerte contínuo com os Outros Mundos. Não se trata apenas de ironia ou exercício literário: qualquer pessoa interessada pelos temas que interessavam a Culianu inevitavelmente sucumbe ao fascínio do material que estuda, da mesma forma que um psiquiatra aos poucos começa a compartilhar a lógica de seus pacientes ou um homem que viveu só com um cão por anos a fio passa a considerá-lo humano ou a se considerar viçosamente canino.

Recordo-me de uma conversa com um negociante de livros raros especializado em ocultismo. Quando lhe perguntei se acreditava no que a maior parte de seus clientes acreditava, ele respondeu que, no começo, tinha sido impelido ao assunto por mera curiosidade cultural. A seguir, acrescentou: “Mas não se pode passar a vida inteira nesta atmosfera sem de alguma forma se integrar a ela”. Eu diria o mesmo de Culianu: não se pode passar a vida inteira estudando a magia da Renascença e escapar de imitar os seus heróis, ao menos por brincadeira. E o jogo pode se tornar perigoso de duas formas: ou o indivíduo acaba se levando a sério e pára de brincar, ou outros dotados de menos senso de humor e ironia que esse indivíduo acabam por levá-lo a sério.

Se eu pareço insistir na ironia, é por uma razão muito simples: a capacidade de nutrir certa dose de ironia em relação a um objeto de estudo (mesmo se o pesquisador é um devoto católico estudando teologia medieval) habilita o indivíduo a manter distanciamento crítico, que é, no fim das contas, o dom do verdadeiro acadêmico. Sem querer me aventurar em um complexo discurso sobre o significado de distanciamento crítico, eu gostaria de citar uma passagem de “Eros and Magic in the Renaissance” (Eros e Magia na Renascença), de Culianu, em que ele fala do escritor a que se dedicou no início de sua carreira, o filósofo renascentista Marcilio Ficino.

Ficino era um neoplatônico que também se apresentava como mago, o que, na Renascença, não era sinônimo nem de necromante nem de prestidigitador, mas definia alguém que acreditava em magia “natural”. Ou seja: Ficino acreditava que laços misteriosos uniam todos os aspectos do universo em uma rede de simpatias e semelhanças. Assim, agindo de um certo modo em relação a uma flor, poderíamos controlar uma estrela, e os nossos humores e pensamentos poderiam ser influenciados por diferentes pedras preciosas. A seguir, o relato irônico e afetuoso que Culianu faz de seu herói:

“A imagem de Ficino como um teurgo, ou praticante de magia intra-subjetiva, não chegava a se opor aos costumes de sua época. Longe de evocar espíritos como o necromante descrito por Benvenuto Cellini, longe de levitar e enfeitiçar homens e animais como as bruxas tradicionais, longe mesmo de se dedicar à pirotecnia como Cornélio Agripa ou à criptografia como Johannes Tritêmio, o mago de Ficino é um inocente indivíduo cujos hábitos não são nem repreensíveis nem chocantes aos olhos de um bom cristão.

Podemos estar certos de que, se o olharmos com respeito (a menos que ele não considere a nossa companhia respeitável, o que é bastante provável), Ficino nos convidará a acompanhá-lo em sua caminhada diária. Sub-repticiamente, para evitar encontros indesejáveis, ele nos conduzirá a um jardim encantado, um recanto de prazer, onde a luz do sol, ao ar fresco, entra em contato apenas com o perfume das flores e as ondas pneumáticas que emanam do canto dos pássaros. O nosso teurgo, em sua túnica de lã branca exemplarmente limpa, talvez comece a inalar o ar ritmicamente e então, ao se dar conta de uma nuvem no céu, voltará para casa em disparada, com medo de pegar uma friagem. Lá, tocará a lira para atrair a benéfica influência de Apolo e das outras Graças e depois se sentará”.

Segue-se uma descrição da refeição frugal do mago: algumas verduras cozidas, algumas folhas na salada, dois corações de frango e cérebro de carneiro para fortalecer o coração e o cérebro, algumas poucas colheres de açúcar branco, um copo de vinho em que se dissolveu um punhado de pó de ametista para atrair a proteção de Vênus. Sua casa estará tão limpa quanto suas roupas e, diferentemente de seus contemporâneos, ele se banhará duas vezes ao dia. E a passagem termina com um reconhecimento das qualidades desse mago extremamente civilizado, que era “limpo como um gato” (2).

Serão essas afirmações as de um “ocultista” que não distingue realidade e ficção e frequenta encontros místicos em que se pratica magia? Certamente não. Trata-se da descrição bem-humorada do acadêmico que ama seus heróis e se comporta em relação a eles como um pai que, com ironia benigna, cita (talvez tingidas com as cores da nostalgia) as maravilhosas fantasias do filho, dono daquela inocência que ele dá por perdida em si mesmo.

No livro, Anton não rejeita esses aspectos da personalidade e do trabalho acadêmico de Culianu, mas com frequência se permite anedotas que, podendo se revestir com a aparência de pistas para uma história mais intrigante, são de fato irrelevantes. Tome-se, por exemplo, a página 234: “Ao retornar a Cambridge, Hillary revelou as fotos que havia tirado. A câmera devia estar com algum problema: em todas elas, Ioan aparecia como uma imagem dupla”. O episódio indica apenas que Hillary Wiesner não era nenhum Avedon, mas a sentença, colocada como está no fim de um capítulo, pode dar margem a conclusões bem mais sinistras.

Finalmente, há um aspecto do pensamento de Culianu, que, de maneira nenhuma desprezado por Anton (na verdade, ele o expressa com precisão, ainda que os conceitos envolvidos sejam mais complexos do que faz parecer), pode se confundir com outras anedotas mais ou menos relacionáveis à magia. A verdade é que Culianu nunca afirmou que o mundo é governado por forças mágicas. Ele defendia a visão da existência de um universo de idéias que se desenvolve de maneira quase autônoma por meio de uma “ars combinatoria” abstrata e de que essas combinações interferem na história e nos eventos materiais de maneiras frequentemente imprevisíveis, com os mais diversos efeitos.

Em “The Tree of Gnosis” (3), de Culianu, verificamos que ele acreditava que “as idéias formam sistemas que podem ser tomadas por objetos ideais” e que esses objetos ideais se unem e se separam por meio de uma “ars combinatoria” de natureza matemática (trata-se menos de alquimia que de uma química, ou uma física, das idéias). É um conceito bem próximo do estruturalismo de Lévi-Strauss, que ele relê à luz de uma teoria “morfodinâmica” de caráter quase biológico. Uma vez que a natureza não é nada senão a combinação de algumas formas elementares, não só as idéias religiosas, mas também as filosóficas, obedecem semelhantes leis. Apesar de considerar a teoria de Jung cheia de “esquisitices”, a visão dos sistemas de idéias de Culianu compreendia também a noção da existência de “arquétipos” de tais sistema, “armazenados na psique humana como um misterioso código genético”.

Em seu livro sobre a gnose, ele parte da proposição de que os diversos sistemas gnósticos têm alguma coisa em comum, mas são diferentes entre si, e constrói um tipo de árvore binária que permite às diferentes correntes do pensamento gnóstico saltar de um ramo para outro (um esquema muito semelhante ao fluxograma utilizado pela ciência da computação). Certamente mais forte que a vontade individual, a química das idéias é o elemento que leva grupos e sociedades a evoluir em diferentes direções.

O meu resumo do mais provocante aspecto do pensamento de Culianu é muito breve e omite as maneiras (por vezes fantásticas) como ele vincula sua teoria dos objetos ideais à física da relatividade e a outros elementos da ciência contemporânea. O que quero enfatizar aqui é que sua visão é seguramente metafísica, uma forma de cibernética platônica, mas não se enquadra no ocultismo clássico nem presume uma visão mágica do universo. Se tanto, é um instrumento com o qual o acadêmico tenta explicar, ao mesmo tempo, o nascimento do pensamento mágico e o modo pelo qual, por meio da combinação de idéias, se produzem os fatos históricos. Para parafrasear J.L. Austin, Culianu se interessava pelo problema de “como fazer coisas com idéias”.

Anton cita uma afirmação que Culianu fez durante a discussão sobre o meu livro em Nova York à propósito das tramas que, inventadas por ocultistas, transformam-se em realidade. “Nada melhor que o Holocausto para revelar esse princípio… Em sincronia, mentes enlouquecidas criam uma realidade alternativa: matam por razões inventadas”.

Será que Culianu, com suas brincadeiras irônicas e mesmo com suas histórias seguramente inspiradas por Borges, manifestava atitudes passíveis de ser associadas com as de alguém que esteja seguindo o perigoso caminho da magia? Creio que sim, mas essa é uma característica de sua psicologia individual e não necessariamente de seu trabalho acadêmico. Será que essas tendências psicológicas tiveram alguma influência sobre a situação política na qual ele estava envolvido? Anton não afirma isso explicitamente, mas permite que o leitor o infira.

O que pode emergir da vida e da morte de um personagem como Culianu e de sua investigação? Um mito (e de fato se está criando um). É interessante comparar as manchetes de jornal que em 1991 noticiaram o assassinato de Culianu com as que apareceram em 1996, revivendo o caso em resenhas do livro de Anton. Manchetes de 1991: “Professor assassinado na UC, diz a polícia”, “Morte de acadêmico permanece misteriosa” e “Morte de professor está cercada de intrigas”. As de 1996: “Forças da Escuridão”, “No Labirinto”, “Uma Brilhante Vida Arrancada por Forças Obscuras”.

Alguns meses antes de o livro de Anton ser publicado nos Estados Unidos, assistiu-se, na Itália, ao lançamento de “Il Presagio” (O Pressentimento), de Claudio Garri. O subtítulo indica que se trata de um “thriller esotérico”, e o tema do romance é Ioan Culianu. Trata-se de uma obra de ficção na qual o assassinato do professor logo é seguido pelo de sua noiva, também chamada Hillary (Wagner, não Wiesner). Então, a trama romena se mistura com a trama ocultista e satânica nos arredores de Manhattan etc. etc. A leitura do livro pode dar prazer àqueles que não sabem que Culianu existiu de fato, mas qualquer pessoa familiarizada com a história se sentirá irritada com o violento “mélange” de eventos reais e ficção.

A razão dessa irritação é o fato de Culianu ter morrido há apenas alguns anos. Poderíamos aceitar qualquer coisa se ele tivesse sido assassinado na época do Homem da Máscara de Ferro, como aceitamos a livre combinação de história e romance em Dumas. E a questão é esta: uma pessoa real só pode ser usada com tanta despreocupação quando já não faz parte da história contemporânea e já habita a nebulosa região do mito. Que um uso tão livre do mito de Culianu seja possível apenas cinco anos depois de sua morte deve nos fazer refletir sobre sua história post-mortem, que poderia ter sido concebida (e estudada) de maneira convincente somente pela própria vítima, se ela ainda estivesse conosco. Mas Culianu a teria contado, é certo, em tom de brincadeira.

Notas:
1. Shambhala, 1991
2. “Eros and Magic in the Renaissance” (University of Chicago Press, 1987), págs. 136-137
3. Harper San Francisco, 1992

Tradução de Tânia Marques