“Escola de tiranos” (E.M. Cioran)

Quem não conheceu a tentação de ser o primeiro na cidade não compreenderá nada do jogo político, da vontade de submeter os outros para convertê-los em objetos, nem adivinhará os elementos de que se compõe a arte do desprezo. Raros são os que não tenham sentido, em menor ou maior grau, a sede de poder que nos é natural; mas, examinando-a bem, esta sede adquire todas as características de um estado doentio do qual só nos curamos por acidente ou então por uma mutação interior semelhante à que se operou em Carlos V quando, ao abdicar em Bruxelas, no auge da glória, ensinou ao mundo que o excesso de lassitude podia suscitar cenas tão admiráveis quanto o excesso de coragem. Mas, anomalia ou maravilha, a renúncia – desafio a nossas constâncias, a nossa identidade – só sobrevém em momentos excepcionais, caso-limite que ultrapassa o filósofo e desconcerta o historiador.

Examina-te no momento em que a ambição te atormenta, quando sofres tua febre; depois disseca teus “acessos”. Constatarás que eles são precedidos por sintomas curiosos, por um calor especial que não deixará de seduzir-te nem de alarmar-te. Intoxicado de futuro por haver abusado da esperança, te sentirás subitamente responsável pelo presente e pelo futuro, no coração da duração, carregada de teus estremecimentos, em cujo seio, agente de uma anarquia universal, sonhas explodir. Atento aos acontecimentos de teu cérebro e às vicissitudes de teu sangue, mergulhado em tua perturbação, espreitas e adoras seus signos. Se a loucura política – fonte de transtornos e de mal-estares sem igual – sufoca a inteligência, favorece por outro lado os instintos e te submerge em um caos salutar. A ideia do bem, e sobretudo do mal, que imaginas poder realizar te regozijará e exaltará; e tal será o tour de force, o prodígio de teus achaques, que eles te transformarão em senhor de tudo e de todos.

Sentirás à tua volta uma perturbação análoga naqueles que estejam corroídos pela mesma paixão. E enquanto estiverem dominados por ela, estarão irreconhecíveis, vítimas de uma embriaguez diferente de todas as outras. Tudo mudará neles, até o timbre de sua voz. A ambição é uma droga que transforma quem se entrega a ela em um demente em potencial. Quem não observou esses estigmas – esse ar de animal transtornado, esses traços inquietos e como que animados por um êxtase sórdido – nem em si mesmo nem em nenhum outro permanecerá estranho aos malefícios e aos benefícios do Poder, inferno tônico, síntese de veneno e de panaceia.

Imagina agora o processo inverso: a febre desaparece e te sentes outra vez desencantado, normal em excesso. Nenhuma ambição mais, logo nenhuma possibilidade mais de ser alguém ou algo; o nada em pessoa, o vazio encarnado: glândulas e entranhas clarividentes, ossos desenganados, um corpo invadido pela lucidez, livre de si mesmo, fora de jogo, fora do tempo, sujeito a um eu congelado em um saber total sem conhecimentos. Onde encontrar o instante que escapou? Quem o devolverá a ti? Por toda parte frenéticos ou enfeitiçados, uma multidão de anormais que a razão abandonou e vêm refugiar-se perto de ti, o único que compreendeu tudo, espectador absoluto, insubmisso para sempre à farsa unânime. Como o intervalo que te separa dos outros não para de aumentar, chegas a perguntar-te se não terias percebido uma realidade desconhecida dos demais. Revelação ínfima ou capital, seu conteúdo permanecerá obscuro para ti. A única coisa de que estarás seguro é de teu acesso a um equilíbrio inaudito, promoção de um espírito que se afastou de toda cumplicidade com os outros. Indevidamente sensato, mais ponderado que todos os sábios, assim aparecerás ante ti mesmo… E se contudo ainda te assemelhas aos loucos que te rodeiam, sentes que uma insignificância te distinguirá deles para sempre; esta sensação, ou esta ilusão, faz com que, embora executes os mesmos atos que eles, não ponhas neles nem o mesmo ardor nem a mesma convicção. Trapacear será para ti uma questão de honra e a única maneira de vencer teus “acessos” ou de impedir seu retorno. Se para isso tiveste necessidade de uma revelação, ou de uma derrocada, deduzirás que aqueles que não atravessaram uma crise semelhante se afundarão cada vez mais nas extravagâncias inerentes a nossa raça.

Notaram a simetria? Para tornar-se um homem político, isto é, para ter as qualidades de um tirano, é necessário uma perturbação mental; para deixar de sê-lo, impõe-se outra perturbação: não se tratará, no fundo, de uma metamorfose de nosso delírio de grandeza? Passar da vontade de ser o primeiro na cidade à de ser o último nela, é substituir, através de uma mutação do orgulho, uma loucura dinâmica por uma loucura estática, um gênero de insanidade tão insólito quanto a renúncia que o precede, e que tendo a ver mais com o ascetismo do que com a política, não faz parte de nossos propósitos.

Faz séculos que o apetite de poder se dispersou em múltiplas tiranias pequenas e grandes, que causaram estragos aqui e ali, e parece que chegou o momento em que o apetite de poder deva por fim concentrar-se para culminar em uma só tirania, expressão desta sede que devorou e devora o globo, termo de todos os nossos sonhos de poder, coroamento de nossas expectativas e de nossas aberrações. O rebanho humano disperso será reunido sob a guarda de um pastor implacável, espécie de monstro planetário ante o qual as nações se prostrarão em um pavor vizinho do êxtase. Uma vez ajoelhado o universo, um capítulo importante da história estará encerrado. Em seguida começará a desagregação do novo reino, e o retorno à desordem primitiva, à velha anarquia; os ódios e os vícios sufocados ressurgirão e, com eles, os tiranos menores de ciclos já mortos. Após a grande escravidão, uma escravidão qualquer. Mas ao sair de uma servidão monumental, os que tiverem sobrevivido estarão orgulhosos de sua vergonha e de seu medo e, vítimas fora do comum, exaltarão sua lembrança.

Dürer é meu profeta. Quanto mais contemplo o desfile dos séculos, mais me convenço de que a única imagem suscetível de revelar seu sentido é a dos Cavaleiros do apocalipse. Os tempos só avançam atropelando, esmagando as multidões; tanto os fracos quanto os fortes perecerão, inclusive esses cavaleiros, salvo um. É para ele, para sua terrível fama, que padeceram e uivaram as eras. Eu o vejo crescer no horizonte, já percebo nossos gemidos, escuto até nossos gritos. E a noite que descerá sobre nossos ossos não nos trará a paz, como trouxe ao salmista, mas o terror.

A julgar pelos tiranos que produziu, nossa época terá sido tudo, menos medíocre. Para encontrar tiranos similares, seria preciso remontar ao Império romano ou às invasões mongólicas. Bem mais do que a Stálin, é a Hitler que cabe o mérito de haver dado a tônica do século. Ele é importante, menos por si mesmo do que pelo que anuncia, esboço de nosso futuro, arauto de um sombrio advento e de uma histeria cósmica, precursor desse déspota em escala continental que conseguirá a unificação do mundo pela ciência, destinada não a libertar-nos, mas a escravizar-nos. Isto, que já se soube anteriormente, se saberá de novo algum dia. Nascemos para existir, não para conhecer; para ser, não para afirmar-nos. O saber, tendo irritado e estimulado nosso apetite de poder, nos conduzirá inexoravelmente a nossa perda. O Gênese percebeu, melhor que nossos sonhos e sistemas, nossa condição humana.

CIORAN, E.M., “Escola dos tiranos”, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.