“O discípulo das santas” (E.M. Cioran)

Houve um tempo em que somente pronunciar o nome de uma santa enchia-me de delícias, em que invejava os cronistas dos conventos, íntimos de tantas histerias inefáveis, de tantas iluminações e de tantas palidezes. Julgava que ser secretário de uma santa constituía a mais alta carreira reservada a um mortal. E imaginar o papel de confessor junto às bem-aventuradas ardentes e todos os detalhes, todos os segredos que um Pedro de Alvastra nos ocultou sobre Santa Brígida, Henri de Halle sobre Mechtilda de Magdeburg, Raymond de Capoue sobre Catarina de Siena, o irmão Arnoldo sobre Angela de Foligno, Jean de Marienwerder sobre Doroteia de Montau, Brentano sobre Catarina Emmerich… Parecia-me que uma Diodata degli Ademari ou uma Diana d’Andolo elevaram-se ao céu apenas pelo prestígio de seu nome: elas me davam o gosto sensual de outro mundo.

Quando recapitulava as provações de Rosa de Lima, de Lydwina de Schiedam, de Catarina de Ricci e de tantas outras, pensava em seu refinamento de crueldade para com elas mesmas, em seus suplícios de carrascos de si mesmas, e nesse espezinhamento voluntário de seus encantos e de suas graças – odiava o parasita de seus tormentos, o Noivo sem escrúpulos, insaciável e celeste Don Juan, que tinha em seu coração o direito de primeiro ocupante. Farto dos suspiros e suores do amor terrestre, voltava-me para elas, ainda que fosse apenas por sua busca de outro modo de amar. “Se uma simples gota do que sinto”, dizia Catarina de Gênova, “caísse no Inferno, o transformaria imediatamente em Paraíso.” Eu esperava essa gota que, se houvesse caído, teria me alcançado no fim de sua queda…

Repetindo-me as exclamações de Teresa de Ávila, a via gritar aos seis anos: “Eternidade, eternidade”, depois seguia a evolução de seus delírios, de seus ardores, de suas securas. Nada mais cativante do que as revelações privadas, que desconcertam os dogmas e comprometem a Igreja… Teria gostado de guardar o diário dessas confissões equívocas, deleitar-me com todas essas nostalgias suspeitas… Não é em uma cama que se alcança o cume da voluptuosidade: como encontrar no êxtase sublunar o que as santas nos deixam pressentir em seus arroubos? Foi Bernini quem nos fez conhecer a qualidade de seus segredos na estátua de Roma, em que a santa espanhola nos incita a muitas considerações sobre a ambiguidade de seus desfalecimentos.

Quando torno a pensar a quem devo haver suspeitado o extremo da paixão, os estremecimentos mais turvos como os mais puros, e essa espécie de desvanecimento em que as noites se incendeiam, onde tanto o menor fiapo de relva como os astros fundem-se em uma voz de gozo e crispação – infinito instantâneo, incandescente e sonoro, tal como o conceberia um deus feliz e demente –, quando torno a pensar em tudo isto, só um nome me obseda: Teresa de Ávila, e as palavras de uma de suas revelações que eu me repetia diariamente: “Não deves falar com os homens, mas com os anjos.”

Vivi anos à sombra das santas, duvidando que um poeta, um sábio ou um louco pudesse igualá-las algum dia. Gastei em meu fervor por elas toda a potência de adorar, a vitalidade nos desejos, o ardor nos sonhos de que era capaz. E depois… deixei de amá-las.

CIORAN, E.M., “O discípulo das santas”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.