“Hans Jonas: o problema do dualismo nihilista no pensamento filosófico-científico e a nova memória acerca da natureza em sua alteridade” (Márcio Adriano dos Santos Dias)

Problemata: R. Intern. Fil. Vol. 04. No. 01. (2013), p. 79-­109

Resumo: Busca-­se, neste artigo, realizar uma análise de caráter crítico, apoiada na apresentação de alguns aspectos centrais do pensamento jonasiano, acerca do problema do dualismo niilista incorporado em parte do pensamento filosófico-­científico. Tal dualismo tem incidido na formação da memória ocidental da natureza, tanto moderna como contemporânea, concorrendo para uma visão de separação entre homem e natureza, sobretudo de base epistêmica e ética, constituindo um problema. Procura-­se uma superação do dualismo, tanto idealista­-racionalista quanto materialista-naturalista e também existencial, por antever a base nihilista nessas formas de pensar a relação homem­-natureza, tendo suas origens na gnose primitiva: alma x corpo; espírito x matéria; homem x natureza. A saída dessa dicotomia consiste numa consideração dos valores éticos teleologicamente mantidos na própria natureza humana e extra­-humana, aqui vista pelo viés da dignidade de sua Alteridade, onde desde a pluralidade das formas mais primitivas de vida orgânica em procriação já pré-­figura o espiritual, culminando aí a responsividade humana pelo Outro para uma nova memória acerca da natureza.
Palavras-­chaves: Dualismo niilista, memória da natureza, valores, alteridade, responsabilidade.

Abstract: This article has the aim at making a critical analysis, supported by some central aspects of Jonasian thought about the nihilist dualism problem, partially incorporated from the philosophical­scientific thought. Such dualism has influenced the formation of western memory of nature, both modern and contemporary, contributing to a dissociating view between man and nature, mainly on epistemic and ethical bases, generating a problem. It seeks to overcome the dualism, both idealist­-rationalist and materialistic-­naturalistic and also existential, due to the anticipation of a nihilist basis of these forms of thinking on man­nature relation, having its origins in primitive gnosis: soul x body, spirit x matter; man x nature. The output of this dichotomy consists of a consideration of the ethical values teleologically held in human and extra­human very nature, here seen in the perspective of the dignity of his Otherness, in which from the plurality of the most primitive forms of organic life in procreation already pre­figures the spiritual, culminating in the human responsivity for the Other in favor of a new memory about nature.
Key­words: Nihilist dualism, memory of nature, values, otherness, responsibility.

Introdução

Uma das maiores barreiras enfrentadas com vistas a uma passagem paradigmática da memória moderna para uma memória atual acerca da natureza e dos próprios homens nela inseridos, se dá com o problema psicofísico e seu dualismo, ou seja, de sua interação (do psiquismo) compatível ou não com a causalidade natural. É dominante na memória filosófica moderna, e do padrão de mundo ocidental, o naturalismo mecanicista que se assomará na ciência moderna. O dualismo cartesiano é significativo para representar um movimento de positivação gradativa das ciências que se estende na modernidade até um coroamento na teoria da mecânica celeste de Isaac Newton. Supomos que aí jaz um dualismo configurado na clássica relação entre espírito ­ entendido como essência do humano separado do mundo natural – e matéria, esta desde já entendida como natureza em seu sentido de coisa extensa aplicável a tudo o que se movimenta enquanto fenômeno ao ‘alcance do olhar e das mãos’, em suma, uma redução ao âmbito do senciente. Dois pólos se encontram então contrapostos e desdobrando contradições irreconciliáveis: espírito x matéria; humano x natural; alma x corpo. Uma dicotomia na realidade difícil de ser ultrapassada, mas necessário de ser superada, com vistas a outras visões, que integrem verdadeiramente os seres humanos na natureza de um modo complementar­-orgânico e dessa maneira não repousando na contraposição mecânica
acerca do dinâmico fenômeno da vida.

O intento de Hans Jonas (1903­-1993) é de superar o paradigma moderno neste tocante, cujo núcleo é a interação psicofísica, no fito de resguardar o poder da subjetividade não de um modo antropocêntrico, mas podemos dizer, biocêntrico: subjetividade que se estende na natureza sob o modo de um psiquismo latente e/ou manifesto em cada ente, daí ocorrendo também no homem como coroamento de uma responsabilidade maior. Tal subjetividade colocada sob novo olhar na natureza se destina a uma fundamentação da ética da responsabilidade (Cf. JONAS, 2004 a, p.115). Logo, é de suma importância essa discussão filosófica, uma vez que aqui se engendra um novo paradigma de memória da natureza, na contemporaneidade, que faz convergir a subjetividade responsável pela natureza para as futuras gerações, endereçada a uma nova visão de ciência da natureza, lastreada também pela teoria quântica, que supera a mecânica celeste para fornecer-­nos outro olhar/fazer aos humanos, tendo em vista a sobrevivência das futuras gerações de humanos e extra­-humanos.

Dentro do contexto da obra mais conhecida de Hans Jonas, qual seja, “O princípio responsabilidade” (1979), a questão do poder da subjetividade se situaria entre o terceiro e o quarto capítulos; ou seja, onde se coloca a discussão em torno dos fins e sua posição no ser, que segue a relação desses com a teoria da responsabilidade (Cf. JONAS, 2004 a, p.18). Procuraremos dispor aqui da apresentação de alguns aportes prévios para uma leitura da tese de Jonas, segundo a qual ele procura demonstrar que existe uma interação psicofísica e que esta se encontra compatível com a causalidade natural. O êxito maior para sustentar tal tese tem como base um pensamento pessoal que se torna capaz de superar o dualismo próprio de parte da filosofia e ciência ocidental e com isto, grande parte das ciências naturais que tomam maior impulso na modernidade e sua positivação. Jonas faz frente ao pensamento do determinismo fisicalista, bem como ao idealismo, para defender uma nova proposta ética, com novas dimensões para o agir da subjetividade e a proposta de uma nova memória acerca da natureza.

Com efeito, reter conhecimentos passados em nossa cultura constitui o que chamamos de memória, sendo a filosofia um domínio fértil desta possibilidade humana, sendo aqui destacado o âmbito da memória acerca da natureza, a fim de que os conhecimentos do passado tenham formações novas.

Assim, por memória acerca da natureza, queremos nos ater em contextualizar primeiramente a ideia de natureza cultivada pela tradição filosófica, e que comporta diversas conceituações, tendo Abbagnano (1998 a, pp. 698 ­ 701) se referido a quatro formas distintas: 1 – Natureza é o princípio de vida e de movimento da totalidade dos fenômenos existentes. 2 – Natureza é a ordem e necessidade. 3 – “Natureza é a manifestação do espírito, ou um espírito diminuído ou imperfeito, que se tornou “exterior”, ou “acidental”, ou “mecânico”, ou seja, foi degradado de seus verdadeiros caracteres.” 4 – Natureza entendida de uma maneira previamente implícita, vinculada ao fazer científico em termos de pesquisa e metodologia desta na contemporaneidade.

Pensamos que Jonas busca principalmente uma superação da terceira concepção fundamental elencada por Abbagnano no âmbito da memória cultivada pela filosofia e ciência no ocidente. Jonas encontra um problema patente em muitos movimentos filosóficos europeus, que pôde ser determinado por ele como “princípio gnóstico” (2000 b, pp. 61­62), consistindo numa maneira naturalizada de dualismo e niilismo, cujos registros encontram­se cultivados na memória ocidental concernente à natureza. Também em Collingwood o problema detectado por Jonas aparece sob a roupagem da “visão renascentista de natureza” (1986, pp. 103 ­ 125), mas acentuando apenas o dualismo encontrado neste registro da memória ocidental.

O nosso intuito é explorar criticamente essa terceira concepção de natureza, retida desde o passado até o presente de nossa memória ocidental, através de uma exposição de pontos de partida do empreendimento jonasiano. Inicia­-se com seus estudos sobre a filosofia e ciência ocidental e as ligações subjacentes com a gnose primitiva, passando depois pela sua visão de superação do dualismo e do niilismo, apontando para uma filosofia da biologia, para então situar o humano na natureza como maior agente a que se deve a responsividade ao Outro: humanos e suas futuras gerações e extra­-humanos na escala da vida/natureza entendida em sua Alteridade. O percurso deste empreendimento culmina na insinuação de uma nova conceituação de memória acerca da natureza enquanto Outro ou ainda Alteridade: Humana e extra-­humana. Isto permite­-nos entrever uma aproximação do pensamento jonasiano com o pensamento de filósofos judeus do diálogo, em que o Outro (a Alteridade) assume primazia para o dever ético do eu, como em Franz Rosenzweig, e destacadamente em Emmanuel Levinas entre outros… [PDF]