Entrevista com Miguel Angel Gómez Mendoza por Rodrigo Inácio R. Sá Menezes

O professor Miguel Angel Gómez Mendoza nasceu na cidade de Tuna, no departamento colombiano de Boyacá. É formado em Filosofia e História pela Universidade Babeş-Bolyai de Cluj-Napoca, Romênia; tem mestrado em Estudos Ibéricos e Ibero-americanos pela Universidade Michel de Montaigne, em Bordeaux, França (Diploma Superior de Investigação – DSR); doutorado em História com ênfase em educação pela Universidade Sorbonne – Paris III; e pós-doutorado em História da Educação pela Universidade de Valladolid, Espanha. É professor da Universidad Tecnológica de Pereira (UTP), onde leciona na faculdade de Ciências da Educação. O professor Gómez Mendoza viveu 6 anos na Romênia, mantendo um interesse pessoal e acadêmico pela língua, a história e a cultura romenas. Suas investigações incluem a história da Romênia e, em particular, a obra do historiador romeno Lucian Boia (1944-), inédita no Brasil. Sobre a sua obra, publicou “El comunismo: utopia, mito, imaginario en la obra de Lucian Boia” (Diacronie: Studi di Storia Contemporanea, 2018). É tradutor do livro de entrevistas Cioran, un aventurier nemişcat [Cioran, um aventureiro inmóvil], de Ciprian Vălcan, a ser lançado em 2019 pela editora da Universidad Tecnológica de Pereira. Contribuiu ao Portal EMCioran/Br com a tradução de uma entrevista de Lucian Boia na ocasião do centenário da Grande Unificação da Romênia, celebrado em 1º de dezembro de 2018. É uma honra escutar esta voz tão importante no diálogo cultural entre os romenos e os sul-americanos.

Portal EMCioran/Br: Você teve a oportunidade de viajar à Romênia pela primeira vez em 1979, tendo vivido e estudado na cidade de Cluj-Napoca (Universidade Babeş-Bolyai) enquanto a Romênia estava ainda sob o jugo do regime comunista do ditador Nicolae Ceauşescu. Que memórias são evocadas, após tantos anos, de sua vivência na Romênia daqueles tempos? Poderia contar-nos um pouco sobre a sua experiência romena, naquela ocasião e em suas viagens posteriores?

M.A.G.M.: Bem, tenho muitas recordações que, reunidas, constituem de alguma maneira uma “experiência” de vida. Algumas delas estão relacionadas ao clima, por exemplo: como eu dizia ao professor Ciprian Vălcan, conheci as estações do ano, viajei de avião pela primeira vez, cheguei a Bucareste via Paris, pela Air France, conheci a neve em dezembro de 1979, para alguém que vem de um país tropical como a Colômbia, tudo isso foi, sem dúvida, profundamente emocionante. Um pouco como a imagem com a qual se inicia o romance de Gabriel García Marquez, Cem anos de solidão, quando o coronel Aureliano Buendia recorda que o seu pai o levou para conhecer o gelo em Macondo. Eu li Cem anos de solidão em romeno. Lembro-me que era uma tarde de outono em 1980, e eu costumava ir muito frequentemente à biblioteca central da universidade; li o livro numa sentada só, e quando certos episódios me faziam rir, a estudante do assento logo à frente se surpreendia com os meus gestos, era uma estudante de origem húngara, cursava geologia, era uma leitora incansável…

Também conheci muitos estudantes africanos, asiáticos, da Índia, da China, etc. Em Cluj-Napoca havia um número grande de estudantes latino-americanos, mexicanos, centro-americanos, cubanos, peruanos, equatorianos, entre outros. Não tive conhecimento de colegas argentinos ou brasileiros. Lembro que os estudantes venezuelanos formaram uma equipe de beisebol, trouxeram do seu país as bolas, as luvas, os bastões, etc. Eram grandes eventos as partidas de beisebol em um dos parques de Cluj-Napoca. Vi muitos colegas latino-americanos regressarem meses após terem chegado (cubanos, colombianos, equatorianos) porque não se adaptaram ao modo de vida estudantil que oferecia a Romênia, aos invernos rigorosos, à comida, à língua e ao ritmo de estudos, não puderam superar a saudade de casa.

Obviamente, havia certo “estereótipo” sobre os chamados “latinos”; por exemplo, não entrava na cabeça dos romenos que muitos de nós não soubessem dançar a salsa e outros ritmos “tropicais”, parecia-lhes impossível. Certamente, a “disco” era um lugar obrigatório de visita nos domingos à noite, montada nos refeitórios das residências universitárias, aonde íamos para nos divertir e nos conhecer, entre estudantes. Zero álcool na “disco”; drogas, então, desnecessário dizer, isso não existia naquela época.

Umas das coisas que eu mais gostava de Cluj era o encontro de idiomas, escutar húngaro, romeno e alemão, quando as crianças iam cedo para a escola. Para quem quiser ter uma imagem de Cluj (cidade típica do Império Austro-Húngaro), recomendo a obra do escritor húngaro Miklos Bánfly, Escrito en la pared. Trilogía transilvana (Editorial Libros del Asteroide, Barcelona, 2010), e sem dúvida também a obra de Mihai Grund, escritor de origem alemã, cuja tradução foi publicada pela editora Pretextos de Valencia, na Espanha, em 2011: Irse. Memorias de Rumania. É um romance autobiográfico de um jovem romeno nem um pouco contente com o estado de coisas que decide partir da Romênia comunista na época em que eu estava em Cluj, e decide ir embora precisamente desta cidade em que ele e eu vivíamos… Quando li o romance, pude identificar cada uma das ruas e dos lugares do relato, e escrevi a Mihai Grund, comentando minhas impressões como leitor. Ele ficou surpreso que um colombiano tivesse lido o seu livro e que houvesse estado naquela cidade. Ele é agora professor de literatura espanhola e latino-americana no Vassar College, em Nova York.

Voltando a minhas impressões e lembranças, hoje, à distância, creio que eu era, devo dizê-lo, um estudante que assistia às aulas, um aluno mediano, com um desempenho aceitável, mas não mais do que isso. Desfrutava da vida cultural da cidade: cinema, concertos, teatro, teatro de marionetes, e comprava muitos livros, tanto quanto a bolsa me permitia, e hoje conservo em minha biblioteca uma boa quantidade deles. Uma das experiências que eu gostaria de destacar tem a ver com os meus colegas, estudantes romenos: em sua grande maioria, conheciam línguas estrangeiras (inglês, francês, alemão, italiano, etc.), tinham um bom desempenho matemático, boas capacidades de expressão oral e escrita, sabiam tomar notas, entre outras qualidades. A propósito, me vem à mente uma apreciação relativamente recente, do conhecido romancista Mircea Cărtărescu, sobre os estudantes universitários romenos da época comunista, que, certamente, ele viveu como estudante quase nos mesmos anos que eu, na Faculdade de Letras da Universidade de Bucareste: “eram melhores que agora”. Este juízo pode ser discutível, mas ele, hoje como professor da Faculdade de Letras, sabe do que está falando. É claro que esta apreciação do romancista romeno não deve ser lida como um elogio ao período comunista, em absoluto, mas como uma simples comparação de desempenhos, o que talvez tenha a ver com a evolução da universidade romena após 1989.

Não quero idealizar estas lembranças sobre os meus colegas romenos, e menos ainda sobre a sociedade romena daqueles anos, mas creio que devo ser o mais objetivo e honesto possível neste relato. Vários deles me ajudaram a preparar os exames orais de então. Uma colega me ajudou a preparar em francês as minhas solicitações de admissão na Universidade de Bordeaux III – Michel de Montaigne. Lembro-me de uma colega, estudante da Faculdade de Letras, Eva Tudor, que estudava filologia russa e inglesa. Ela me impressionava por sua formação, suas leituras e sua curiosidade pela literatura latino-americana, sua sensibilidade estética pelo cinema e pelo teatro. Creio que, por volta de 1985 ou 1986, recebi uma carta dela: narrava com um luxo de detalhes a sua visita ao Museu Ermitage de Leningrado, hoje São Petersburgo, e suas impressões daquela cidade (creio que foi a sua primeira viagem ao exterior). Outra grande amiga romena, Cecilia Bercean, estudante de economia, me ajudou a corrigir e melhor o romeno do me trabalho de graduação, dedicou alguns dias para revisar o documento e assim alcancei certa qualidade expressiva na língua romena. Escrevi, como requisito de graduação, uma “tesezinha” sobre a sociologia da literatura e a crítica literária sociológica, baseando-me na consulta das obras de Ion Vasile Şerban, Robert Escarpit e Lucien Goldmann. Anos depois, lendo uma entrevista de Emil Cioran, fiquei sabendo que Goldmann, filósofo francês e sociólogo de origem judia romena, tornou a sua vida impossível em certos círculos parisienses, acusando-o de antissemita.[1]

Sobre as minhas lembranças daqueles anos da ditadura comunista de Nicolae Ceauşescu. Em primeiro lugar, devo dizer que era então jovem e talvez um tanto “ingênuo”, não chegava a perceber, em sua totalidade e gravidade, as circunstâncias duras e dolorosas daquele período, talvez porque a deterioração da qualidade da vida cotidiana apenas começava com tanta força… E já sabemos como se acentuou a situação ao longo dos anos, até chegar ao levante de dezembro de 1989. Eu tratava de acompanhar a televisão romena, mas a programação não era nem um pouco variada, e o controle ideológico era total. Eu era um telespectador assíduo dos noticiários das 7 da noite, para seguir o curso dos acontecimentos. Já em 1984, as filas para conseguir alimentos e bens duráveis eram evidentes, e o controle da calefação nos invernos, algumas manifestações de inconformismo através dos comentários de humor político, entre outros fatos, pressagiavam o que viriam a ser os cinco anos seguintes.

Com os anos e a distância, cheguei a compreender melhor aquela etapa do socialismo real, o seu significado e o sentido trágico, amargo, que teve para muitíssimos romenos. É claro que naquela época eu escutava algumas coisas que me diziam os meus colegas romenos, os comentários de humor político sobre o ditador, o inconformismo de muitos deles por não terem acesso a bens materiais, por não poderem viajar, etc. Eu era um privilegiado, pois naquela época nós, colombianos, podíamos viajar pela Europa ocidental sem a necessidade de visto, e por isso pude ir à República Federativa Alemã, à França e à Itália. Com os anos, isso mudou muito, o visto se tornou um requisito obrigatório para nós, ainda que, devo dizer, podíamos ir aos países do espaço Schengen[2] por três meses sem visto, sem falar nas reações geradas pelos nossos passaportes colombianos quando passávamos pelos postos de controle ao entrarmos em determinado país. Naquela época nós, colombianos, não éramos “suspeitos” de nada, mas tudo mudaria depois. Creio que em nossa cultura política colombiana (e não saberia dizer se isto também é assim nos outros países da América Latina), banaliza-se e desconhece-se o que a experiência comunista significou para os países da Europa central e oriental, talvez porque, daqui, é difícil ter uma perspectiva e porque há certo “comodismo” intelectual para reconhecer o que aconteceu lá. A minha experiência na Romênia e a possibilidade de estar de passagem por outros países, como a Hungria, a então República Democrática Alemã, a Tchecoslováquia de então e a Polônia, deixaram-me como herança, entre outras coisas, uma perspectiva cética e crítica frente às utopias e aos personalismos na história e na política. Sobre isto, sabemos todos que há uma grande discussão que define o presente e o futuro dos nossos países, e creio que o Brasil não é uma exceção. Se eu pudesse resumir tudo isso, diria que tive o privilégio de conhecer e viver em um país como a Romênia que faz parte de uma Europa da qual pouco se sabe em nossos países, porque aqui temos o “imaginário” ou o “mito” de que a Europa se circunscreve à França, à Alemanha, à Espanha ou à Inglaterra, entre outros países metropolitanos, e que jugamos “ricos”, “requintados”, intelectualmente “sofisticados”, etc.

Portal EMCioran/Br: Numa entrevista a Ciprian Vălcan publicada na Revista Arca e no periódico romeno LaPunkt, você menciona a cortesia e a hospitalidade dos romenos, particularmente na época de Natal e Ano Novo, quando era convidado às suas casas para celebrar junto às suas famílias, partilhando a comida e a bebida, num gesto de verdadeira – e universal – fraternidade que ultrapassa todas as barreiras – linguísticas, culturais ou outras. O povo colombiano, que pude de conhecer em quatro ocasiões, também manifesta a amabilidade, a hospitalidade e a cordialidade que você encontrou nos romenos. Essas eram também virtudes de Cioran, atestadas por todos os que tiveram a oportunidade de conhecê-lo e visitá-lo em sua mansarda parisiense; um homem cordial, espirituoso e interessado, o que contradiz a imagem do misantropo, do personagem deprimido, indiferente e sombrio que se pode vir a fazer a partir da sua obra. Minha pergunta é: de que maneira você vê em Cioran um espírito autenticamente romeno, a despeito da vontade de expatriar-se para tornar-se um “exilado metafísico”, da decisão de abandonar o idioma materno para impor-se o filtro da língua francesa? Antes de ser um autor francês, um herdeiro dos moralistes como alguns o consideram, seria o caso de reconhecer – e compreender em que sentido – Cioran é, irredutivelmente, um pensador romeno, e mais especificamente transilvano – nascido já no exílio, em certo sentido, no interior do império bicéfalo, dotado de um background e de uma experiência de vida alheios à Europa ocidental?

M.A.G.M.: Caro Rodrigo, esta é uma pergunta difícil. Devo dizer que não sou um conhecedor ou um estudioso profundo e dedicado da obra e da vida de Emil Cioran, como você e muitos outros colegas que divulgam os seus extraordinários trabalhos neste portal que você anima e divulga. Agora, vou arriscar um princípio de resposta, muito superficial e geral, certamente. Com o que cheguei a ler e estudar nestes últimos anos sobre a Romênia e, é claro, sobre Emil Cioran, percebo que um conhecimento mais profundo deste pensador romeno-francês só é possível mediante uma aproximação aos seus anos de vida, formação e publicações na imprensa da época, e às suas obras em romeno antes de partir definitivamente a Paris e passar ao francês como nova língua de expressão escrita e oral. Creio também que uma apreciação sobre o contexto da época da Transilvânia na vida e na obra de Cioran é uma pista muito interessante a seguir explorando. Quando se visita ou conhece cidades da Transilvânia como Cluj, Braşov, Alba Iulia, Sibiu, Arad, Oradea, entre outras, há ali toda uma atmosfera, uma arquitetura, uma cultura de livrarias, concertos, vida universitária, um ritmo de vida que, creio eu, tem algo a ver com as circunstâncias históricas da constituição da nação romena: suas relações com os grandes impérios como foram o Austro-Húngaro, o Otomano, entre outros. Lembremos que a Transilvânia é uma das grandes regiões ou províncias da Romênia, e quando se visita outras como a Moldávia, a Muntênia, a Oltênia e o Banato, observa-se diferenças, não só geográficas e de paisagem, mas também culturais e no nível de desenvolvimento. Vale a pena dizer que Cioran faz seus estudos primários e secundários em Sibiu, estudos universitários em Bucareste, e trabalha por um ano como professor de liceu em Braşov. Com isto quero dizer que a etapa romena de Cioran não só passa pela Transilvânia, mas, sim, sem dúvida, ter nascido em um povoado da Transilvânia (Răşinari), ter vivenciado não apenas a língua romena, mas também a húngara e a alemã, marcá-lo-iam  definitivamente, como sabemos. Basta recordar os comentários sobre a sua infância quase paradisíaca nas proximidades de Răşinari, mas, ao mesmo tempo, a compreensão e o conhecimento mais amplo e profundo sobre a plêiade de intelectuais romenos do período entre-guerras, de que faz parte Cioran, passa por Bucareste e não tanto pela Transilvânia.

Por outro lado, me chama a atenção, a mim, colombiano, que quando os romenos falam da Europa, eles colocam a ideia de certa distância geográfica: lá, a Europa ocidental, e aqui, nós, algo como “somos parte da Europa”, mas não chegamos a saber exatamente qual é o nosso lugar Ora, as circunstâncias histórias como nação, sua língua falada num espaço mais limitado que as outras, o duro e complexíssimo período comunista, a incerteza após 1989 (como construir uma democracia liberal moderna com altos padrões éticos? somada a outra pergunta: como construir uma economia de mercado moderna e funcional?), são, entre outros, elementos ou variáveis para entender como se situa a identidade de um país e de uma sociedade na atual e convulsiva Europa atual. Creio que a ideia segundo a qual a entrada da Romênia na união europeia e na OTAN, e em seguida no espaço Schengen, foram decisões felizes e historicamente importantes, essa ideia é aceita hoje pela maioria dos romenos, com a exceção de alguns adultos “nostálgicos” da “idade de ouro” do comunismo.

Se seguimos as controvérsias culturais, políticas e sociais da Romênia atual, percebemos vozes muito críticas frente ao estado real das coisas: a corrupção de certos setores políticos, a migração massiva de jovens com altos níveis de formação, os problemas para avançar com mais rapidez para alcançar padrões “ocidentais” na vida urbana, rural e em geral no funcionamento dos diversos sistemas econômicos, cultural, educativo, etc. Há pouco tempo eu falava com uma editora romena, e comentava com ela sobre os problemas de criminalidade, desigualdade social, corrupção, narcotráfico, etc., típicos de alguns ou da maioria dos nossos países, e pensava que, se a sociedade romena tem sérios desafios, sem querer banalizar a sua situação, os nossos problemas são muitíssimo mais graves, e a sua solução é ainda muito lenta ou pouco contundente.

Portal EMCioran/Br: Cioran costuma ser violentamente crítico, em seus escritos, ao referir-se às suas origens romenas, ao seu povo e país. Penso, por exemplo, em Schimbarea la faţa a României,[3] em passagens de Îndreptar pătimaş,[4] um de seus últimos livros romenos (Bréviaire des vaincus na tradução francesa), em “Carta a um amigo longínquo”,[5] que integra História e utopia, e em passagens de A tentação de existir; neste último, é reformulada a interrogação feita por Montesquieu nas Cartas Persas: “Como se pode ser persa?” torna-se “Como se pode ser romeno?”[6] Como entender, à luz da história romena, essas considerações tão duras, tão impiedosas? Seriam a expressão de um maneirismo particular ou, antes, um caso de consciência indissociável da história de um povo em processo de estabelecer a sua identidade, correspondendo, portanto, a uma problemática histórica, política e culturalmente determinada? Como você entende, e como propõe abordar, a questão da condição romena tal como problematizada por Cioran?

M.A.G.M.: Devo dizer que não tenho o conhecimento cultural, filosófico e literário para opinar de maneira autorizada sobre essa espécie de “psicologia” histórica dos povos, que se poderia deriva das duras apreciações de Cioran sobre o seu país, segundo ele, essa espécie de falta de “autoestima” nacional que caracterizaria a condição de um povo, uma nação ou um país, neste caso a Romênia.

Entretanto, eu me inclinaria mais à última parte da sua pergunta, que já contém um princípio de resposta, e que eu cito a seguir: “(…) a história de um povo em processo de estabelecer a sua identidade e unidade, correspondendo, neste caso, a uma problemática histórica, política e culturalmente determinada? (…)”

Ora, sobre isto, creio que uma das maneiras possíveis de abordar este questionamento é através da obra do historiador romeno Lucian Boia. Eu citaria, para responder, um fragmento extenso, a título de exemplo, uma resenha de uma das suas obras mais lidas e controvertidas: De ce este România altfel (Porque a Romênia é diferente, Humanistas, Bucareste, 2012): “Os países e as nações são diferentes. Semelhanças e diferenças. A Romênia entra neste jogo. Não obstante, ela não é, por acaso, também diferente? Noutras palavras, não se encontra, por acaso, mais ‘excêntrica’, sob todo tipo de aspectos, em relação ao que seria uma média ou relativa normalidade europeia? A maneira extravagante como se desenrolou o psicodrama político do verão de 2012[7] deixou a impressão de que o país está desajustado. É claro que aqueles que veem de fora ficam mais impressionados que os próprios romenos, acostumados que estão com estes acontecimentos, mas inclusive entre os romenos a exasperação cresce. Alguma coisa não anda, e não apenas acima, na classe política, e não apenas ontem, mas desde muito antes. É uma maldição? Não, é só a história. Mas pode ser que signifique ambas as coisas.”

Mas também acrescentaria este outro comentário: em sua obra recente, În jurul Marii Uniri de la 1918. Naţiuni, frontiere, minorităţi [Em torno da Grande União de 1918. Nações, fronteiras, minorias] (Bucareste, Humanitas, 2017), o conhecido historiador romeno considera que a celebração do centenário da Grande União, em 2018, é legítima e contém uma dose de mitologia, todas as nações têm. Contudo, é necessário, para além das comemorações, do simbolismo heroico e de uma história realizada sem preconceitos, um espírito de abordagem crítica. Pelo menos da parte dos historiadores profissionais. Necessita-se, de qualquer maneira, uma história europeia. A Romênia não é uma ilha, nem em sua interpretação histórica, e tampouco no modo de relacionar-se com o dia de hoje e de amanhã. Se se aprecia de maneira isolada a criação da Grande Romênia, corre-se o risco de fazer abstração das evoluções globais e, então, tudo pode parecer maravilhoso. De fato, a Grande Romênia evoluiu sobre uma cena muito frágil, com perigos que surgiam a cada passo – claro, a história ainda não se encerrou. A via europeia não significa voltar às velhas fronteiras, mas, como fim último, ao desaparecimento das fronteiras e à transformação da Europa, até recentemente um continente conflitivo, numa casa receptiva na mesma medida a todos os seus habitantes. A aposta para todos os europeus não é o passado, é o futuro, considera Boia. A Romênia está ausente do debate historiográfico europeu. No mercado das ideias, como se diz, ela não existe muito. A resposta, possuem-na aqueles que ainda não se deram conta de que a história se faz, hoje, isto, em todo caso, não reanimando incessantemente o velho discurso nacionalista. O centenário (1918-2018), em vez de estimular investigações inovadoras, arrisca resumir-se na reafirmação de alguns lugares-comuns. Na memória história dos romenos, ficou apenas um esquema muito simplificado do processo histórico que teve lugar entre 1914 e 1918. Todos os romenos, com poucas exceções, encontrariam então uma única direção. O assunto não é exatamente assim. No entanto, considera Boia, a verdade pura e simples é mais complexa e matizada para estudar e compreender o surgimento da Romênia moderna e o seu centenário.

Portal EMCioran/Br: Você é um estudioso da história da Romênia, e se dedica particularmente à obra do historiador romeno Lucian Boia, um autor inédito no Brasil. O que você considera essencial no pensamento deste autor? Quais os temas e as questões fundamentais da sua obra? Por fim, é possível imaginar um diálogo entre as obras de Boia e de Cioran?

M.A.G.M.: Por que estudar a obra de Lucian Boia? Por duas razões, mas é claro que há outras. Em primeiro lugar, no âmbito hispano-americano só se conhece três de suas obras: Entre el angel y la bestia (Ed. Andres Bello, Santiago de Chile, 1997), ¿El fin de Occidente? Hacia el mundo de mañana (Ed. Eneida, Madrid, 2015) y La tragedia alemana. 1914-1945 (Ed. Catarata, Madrid, 2018). Em segundo lugar, a sua concepção e perspectiva da história é inovadora, original e sugestiva não apenas para o público especializado mas também para todos os que se interessam pela história no espaço público e político. Lucian Boia tem uma reputação de historiador com uma imensa capacidade de difundir e polemizar sobre as ideias que a sociedade pouco põe em tela de juízo, publicou dezenas de volumes históricos com temáticas ancoradas no presente, desde os movimentos nacionalistas na Europa central e oriental até o imaginário climático.

Apesar do seu imenso reconhecimento e da sua reputação, Boia conserva o privilégio de não transformar-se em um autor-vedete, pelo contrário, os seus livros ocupam o primeiro lugar em suas preocupações históricas. A obra do historiador romeno é rica em ideias, detalhes teóricos e metodológicos e hipóteses de trabalho. Nela, é evidente que não se pode constituir uma única história definitiva, mas um conjunto de histórias, sempre poliforme e aberta, ou seja: as histórias de Lucian Boia.

A história para Boia tem dois sentidos: “Inventamos as palavras e logo nos deixamos subjugar por elas. Sem palavras, não existiria conhecimento, mas todas as palavras se constituem como entidades independentes, obstáculo que se interpõe entre nós e ‘o mundo de verdade’. Nos aproxima e, ao mesmo tempo, nos afasta (…). A História é um tipo de palavra derrotante. Poucos pensam no seu sentido. História é história, todos nós sabemos. Nem os historiadores, salvo raras exceções, vão mais além. Eles fazem história mais rápido do que a pensam. Dever-se-ia estar atento desde o começo, porque a história, como “ciência”, apresenta a curiosa particularidade de ter o mesmo nome que o seu objeto de investigação. Noutras palavras, a missão da história é a de reconstituir a história. Nomeamos da mesma maneira dois conceitos distintos, por mais que queiramos aproximá-los: a história em seu desenrolar efetivo, e a história como representação. A imagem aspira a confundir-se com a realidade. A identificação dos termos se alimenta da profunda necessidade sentida de ancorar-se no passado. A história é a única realidade que podemos evocar (ainda que a reduzindo, ao final, à história), e seria inconcebível deixa-la escorrer entre nossos dedos. O passado significa legitimação e justificação. Sem o passado, não podemos estar seguros de nada (…) A história que produzimos é menor que a história real, mas elas se parecem até quase se identificarem. A história é a grande redução em escala, sua réplica sintética. (…) Devemos confessar que não significa outra coisa que não o que queremos que signifique.” (BOIA, Lucian, Jocul cu trecutul. Istoria între adevăr şi ficţiune. Bucareste, Editura Humanitas, 2013, p. 5-6).

A respeito da segunda pergunta: é possível imaginar um diálogo entre as obras de Cioran e Boia, notadamente no que diz respeito a suas respectivas indagações sobre a questão da utopia? Eu consideraria que, em termos filosóficos, não. Lucian Boia é daqueles intelectuais responsáveis e seguros dos seus limites, não adentra terrenos que desconhece ou que não fazem parte de suas preocupações. A sua perspectiva é histórica, como citei mais acima. Consequentemente, suas referências à obra de Cioran são, insisto, históricas. Dois exemplos: em seu La Roumanie. Un pays à la frontièire de l’Europe (Paris, Les Belles Lettres, 2007), ele situa Emil Cioran numa espécie de panteão romeno, como escritor e ensaísta: “(…) Então apareceu o famoso trio romeno-francês, após a Segunda Guerra Mundial. Eugène Ionesco, Émil Cioran, Mircea Eliade (…) Quanto a Émil Cioran (1912-1995), ele manifestou, em ensaios e aforismos franceses, o seu desgosto pela existência (Précis de décomposition, 1949) cinzelado de tal modo que ele, o romeno, originalmente de formação muito mais alemã que francesa, acabou considerado, entre os autores contemporâneos, como o mais destacado estilista francês (p. 348). Em Capcanele istoriei. Elita intelectual românească între 1930 şi 1950 [As armadilhas da história. A elite intelectual romena entre 1930 e 1950[8]], Boia escreve sobre 120 protagonistas (!), um deles: “Emil Cioran (1911-1995), filósofo e ensaísta”. Esta obra é importante porque, desde mais de vinte anos atrás, os historiadores têm estado interessados, alguns obcecados, pelo comportamento público dos intelectuais romenos do século XX (sua relação com as “armadilhas” da história: o fascismo, o nazismo, o “legionarismo”, o comunismo, o antissemitismo, etc.). Não obstante, quando, entre 1930 e 1950, os integrantes da elite intelectual passaram, junto à sociedade, por muitas mudanças de regime, a verdadeira aposta da discussão é o humano com todos os seus matizes. É necessário, após várias tentativas intransigentes, um juízo refinado próprio de um historiador como Boia, que pondera também a atitude jacobina e a indulgência com aqueles intelectuais romenos que, em apenas duas décadas, por causa do amálgama de ideias abstratas e orgulho pessoal, caíram nas armadilhas da história. “Disse que o intelectual, especialmente, deveria ser um homem livre. Não significa que também o seja. O intelectual está exposto, como qualquer um, às conjunturas históricas e às pressões ideológicas. De um modo ou de outro, a sua carreira depende do Poder (com muito mais razão num regime autoritário e, sem dúvida, num regime totalitário). Não poucos intelectuais têm esse tipo de fascinação do poder; sentem-se eles mesmos mais poderosos, amparados em sua sobra. Em todo caso, os intelectuais têm uma habilidade: a de encontrar, cada vez que necessário, argumentos adequados para justificar e justificar-se. Em especial quando lhes parece que a história não está do seu lado.” (Lucian Boia)

Ora, a utopia foi objeto de estudo de Cioran. Creio que o meu artigo sobre a utopia comunista na perspectiva de Boia, a que se faz referência no início desta entrevista, pode ser pertinente para o leitor interessado em conhecer como é o seu “trabalho” histórico e historiográfico. Complemento este comentário dizendo que outro excelente exemplo do “método”, se posso dizê-lo assim, de Lucian Boia, encontra-se em seu artigo “Dracula, version roumaine”, publicado na obra coletiva Dracula. Mythe et métamorphoses (Presses Universitaires du Septentrion, Villeneuve dáscq., 2005). Eu agregaria algo mais: Lucian Boia emprega diversos conceitos-chave em seus trabalhos; junto a mitologia, ele recorre ao de imaginário. A este respeito, o leitor brasileiro poderia consultar “O imaginário da Europa: fronteiras, unidade e diversidade”, publicado na revista portuguesa Brotéria (163, 2006, 115.130).

Portal EMCioran/Br: Temos em comum – hispanófonos, lusófonos e romenos – a raiz latina de nossas línguas. Foi difícil para você aprender romeno? Que propriedades distintivas destacaria neste idioma tão distante e, ao mesmo tempo, tão próximo?

M.A.G.M.: Realmente, creio que nunca cheguei a aprender totalmente o romeno. Lamentavelmente, com o passar dos anos, perdido muitíssimo da minha capacidade de falá-lo. Posso lê-lo e apenas até certo ponto escrevê-lo. Graças à Internet, posso manter uma relação com esta língua, além da minha amizade e intercâmbios com os professores Lucian Boia, Cristian Pătrăşconiu e Ciprian Vălcan, entre outros.

A minha atividade de tradução acadêmica dos últimos cinco anos me permitiu voltar, de alguma maneira, ao seu estilo e sentido expressivo. Uma vez que o romeno possui uma porcentagem elevada de raízes latinas, poder-se-ia ter a impressão de que a sua aprendizagem é fácil para nós, hispanófonos. A pronúncia e a ortografia são difíceis: o sistema fonético (fonológico) da língua literária (padrão) contem 33 sons (fonemas), o alfabeto possui 31 letras, das quais destaco três: A a, Ă ă, Â â, cada uma das quais tem sua pronúncia própria, enquanto que em espanhol temos apenas uma letra A a… Ademais, existem os sinais diacríticos que implicam também pronunciações diferenciadas. Todas as classes de artigos têm formas de gênero, número e caso, através dos quais são marcadas as formas de caso nos substantivos. Como se vê, o romeno não é uma língua de fácil aprendizagem, mas é claro que esta é uma opinião pessoal, depende das capacidades e habilidades individuais para aprender línguas estrangeiras.

Ora, quando escuto o romeno no âmbito acadêmico e cultural, confirma-se uma impressão que formei em minha vida de estudante: é uma língua direta, comparada pelo menos com o uso que fazemos do espanhol colombiano; com ela se dão menos rodeios para dizer as coisas; ademais, é mais forte ao ouvido. Seguramente, outros terão uma opinião diferente.

Portal EMCioran/Br: Há um rico intercâmbio cultural entre a Romênia e a Colômbia. Como você avalia esta relação entre os dois países? Há uma afinidade eletiva entre esses dois povos?

M.A.G.M.: Se há um grande desconhecimento mútuo entre os próprios europeus, então como será o nosso caso? Encontro franceses e espanhóis cultos que desconhecem essa outra Europa central ou oriental, mesmo estando tão próximos e com facilidade de viajar sem ter de atravessar o Oceano Atlântico, como acontece conosco.

Realmente, na Colômbia é graças à persistente atividade acadêmica e torno da obra de Cioran, de professores como Liliana Herrera e seus jovens discípulos, que se conhece algo da Romênia. Foram publicadas entrevistas do romancista Mircea Cărtărescu, que virá ao “Hay Festival” em 2918, em Cartagena de las Indias. Faz uns quatro anos que esteve em Cartagena e Bogotá a escritora e prêmio Nobel de literatura Herta Müller, mas seus interlocutores nos meios de comunicação mostraram um profundo desconhecimento de sua obra e das circunstâncias pessoais e histórias dessa romena de origem alemã.

Creio que o ambiente cultural culto da Colômbia, e sei que isto que direi é discutível, tem uma dependência da jogada cultural inglesa e francesa, e obviamente da norte-americana, desconhecendo o que se passa em outras “zonas” culturais como a centro-europeia. Ademais, o excesso de nacionalismo e a endogamia cultural dos colombianos são às vezes patéticos…

É graças ao trabalho de tradução que realizam certas editoras espanholas que os nós latino-americanos podemos ter acesso a obras destacadas da literatura ou da cultura romena contemporânea: Impedimenta, Pretextos, Funambulista, Mira, entre outras editoras, somando-se ao trabalho de apoio às traduções do Instituto Cultural Romeno. Dependemos das dinâmicas culturais e editoriais espanholas para saber algo sobre a Romênia.

Você me pergunta se há afinidades eletivas entre a Colômbia e a Romênia. Sobre isto, diria que temos algumas coincidências ou semelhanças, talvez distantes, de trajetória história, e me atreveria a colocar algumas: somos nações relativamente “jovens”, não temos um passado de países colonialistas, os processos de modernidade e modernização parecem inconclusos ou permanentemente “postergados”, buscamos uma “identidade” e um “lugar” no conjunto das nações em “desenvolvimento”, etc.

Portal EMCioran/Br: Que provérbios, máximas, adágios, expressões da sabedoria popular romena você aprendeu e poderia compartilhar conosco? Por fim, que lição nós, sul-americanos, podemos tirar da história da Romênia?

M.A.G.M.: Uma das coisas que me chamou a atenção na língua romena é a quantidade de expressões para as situações de cortesia (talvez seja uma herança francesa), os pronomes de cortesia, os desejos, os agradecimentos, as fórmulas introdutórias de apresentação. Alguns exemplos seriam:

Poţi să-mi dai te rog numărul tău de telefon? (Podes me dar, te rogo, teu número de telefone? Claro que esse te rog se traduziria como “por favor”, mas a ideia de rogar é sugestiva).

Mi-ar face plăcere (“Me faria prazer” seria uma tradução livre, talvez impertinente, para o português; esta fórmula traduz a ideia de “eu gostaria…de”, aceitar o seu convite, por exemplo).

Vrei să te conduc acasă? (“Queres que te acompanhe para casa?” Aqui, conduc se associa a “levar” ou “conduzir”, antes que a acompanhar…)

Vrei să mergem la tine? (“Queres que vamos à tua casa?” La tine seria “a tua”, implicitamente, “a tua casa”…)

Te sun mâine (“Te chamo amanhã”; Sun vem do verbo “soar”, do som do aparelho telefônico, não exatamente o verbo “chamar”, mas em português “eu te soo” não soaria bem…)

Mi-e dor de tine (“Sinto sua falta”, ou “saudade de você”. Dor é algo a mais em romeno. A obra poética de Lucian Blaga e a referência cultural ao Dor têm gerado toda uma produção estética a partir desse sentimento…)

Ai prietenă? (“Tens namorada?” Mas prietenă é, antes de tudo, “amiga”, e vem de prietenia, “amizade”).

Te rugăm să primeşti cele mai sincere şi mai profunde condoleanţe din partea noastră în acest moment greu (“Por favor aceite nossas mais sinceras condolências neste momento difícil”).

Já que fazemos referência à língua romena, gostaria de acrescentar, de comentar que o humor político naqueles anos era muito importante, obviamente com a devidas precauções. As piadas políticas foram um dos entretenimentos prediletos dos romenos durante os anos do regime comunista. As piadas políticas eram situações cômicas e absurdas nas quais os personagens eram pessoas normais, as instituições repressoras do Estado, os líderes políticos da época e as referências aos acontecimentos da atualidade. O herói das piadas políticas romenas até 1989 foi o cidadão Bulă, cujo nome derivava da palavra que designa o órgão sexual masculino, pulă, trocando-se a letra inicial. Bulă (“pulă”) foi era representado como um idiota que não entendia a realidade e a interpretava conforme a via. Outro personagem das piadas políticas quase tão popular quanto Bulă era a Rádio Erevan, uma emissora que respondia com humor negro às perguntas hipotéticas e insinuantes feitas por seus ouvintes. As piadas com a Rádio Erevan eram curtas, diretas e produziam riso imediato. Uma das piadas mais frequentes, também em outros antigos países socialistas, era: “Pergunta na Rádio Erevan: É verdade que a sociedade capitalista está à beira do abismo? Resposta: Sim, para nos olhar.” Acrescentaria outras duas, muito cruéis para a época e para nós, sul-americanos de hoje: (1) “Por que Ceauşescu organiza um desfile no Primeiro de Maio? Para comprovar quem sobreviveu ao inverno”; (2) “O que há de mais frio que a água fria na Romênia? A água quente.”

Conta o historiador Eduard Antonian, em entrevista para a “Rádio Romênia Internacional”, porque a rádio da capital da Armênia havia chegado a ser tão conhecida na Romênia. “A Rádio Erevab era uma forma de dissidência, inclusive na antiga União Soviética. A maioria das piadas tinha um traço político evidente. Era uma maneira de rir do presente obscuro. Uma piada conhecida da Rádio Erevan dizia que uma zebra era um asno que havia contado piadas políticas, sendo suas listras a roupa carcerária vestida pelo asno. Lembro que, nos anos 1990, depois que a Armênia conquistou sua independência, o diretor da Rádio Erevan veio a Bucareste e não sabia porque a emissora dirigida por ele era tão conhecida na Romênia. Quando chegou ao aeroporto, os alfandegários romenos lhe perguntaram qual era o seu ofício e ele contestou que era diretor da Rádio Erevan. Todos começaram a rir e ele não entendia por quê. E os alfandegários lhe pediram que contasse algumas piadas, por ser o diretor da Rádio Erevan. Um amigo me contou que o atual diretor da Rádio Erevan, quando foi nomeado para o cargo, publicou no Facebook um comentário em que dizia: ‘Cuidado, sou o novo diretor da Rádio Erevan, de agora em diante tomarei qualquer piada que contarem como uma afronta pessoal.”[9]

Finalmente, sobre a última pergunta: “que lições nós, sul-americanos,  podemos tirar dos romenos e sua história?” Eu responderia que uma das lições é seguir aprendendo e conhecendo sobre sua história e cultura, divulgando, traduzindo, etc., tal como fazem vocês no Brasil, por exemplo, através do Portal EMCioran/Br. Podemos seguir aprendendo se nos aproximarmos das obras de alguns nomes que considero grandes referências em diversos campos da cultura romena de  hoje: Andrei Pleşu, Gabriel Liiceanu, Horia Roman Patievici, Neagu Djuvara, Nicolae Manolescu, Andrei Cornea, Valeriu Stoica, Ciprian Vălcan, Livius Ciocârlie, Dan C. Mihăilescu, Marta Petreu, Dan Lungu, Matei Călinescu, Ion Vianu, Cristian Pătrăşconiu e muitos outros…

Prezado Rodrigo Inácio, muito obrigado pelo seu convite para responder a estas perguntas, algumas respostas são excessivamente longas, isto é certo, e como se diz em romeno: La revedere, mulţumesc mult (“até logo, muito obrigado”).

Portal EMCioran/Br: Estimado professor Miguel Angel, o Portal EMCioran/Br é que agradece a generosidade e a amabilidade com que você se dispôs a conceder esta entrevista, que certamente enriquece o diálogo cultural entre nós, sul-americanos, hispanófonos ou lusófonos, e os romenos.

NOTAS:

[1] Sociólogo marxista de família judaica, Goldmann foi o maior detrator de Cioran em Paris no pós-guerra, esforçando-se para difundir sua pecha de fascista e antissemita por conta de seu libelo Schimbarea la faţa a României [A transfiguração da Romênia]. A propósito dessa desavença, cumpre citar um comentário encontrado nos Cahiers de Cioran, em que este narra o seu encontro com Goldmann, em início de 1969, e o desagravo entre os dois: “Acabo de encontrar Goldmann na casa de Gabriel Marcel, nós caminhamos juntos e em seguida entramos num café. Ele me acompanhou até a minha casa. É um homem que tem certo charme. Durante vinte anos ele me fez uma reputação de antissemita e me criou enormes problemas. Em uma hora nós nos tornamos amigos. Como a vida é curiosa!” CIORAN, E.M., Cahiers: 1957-1972, p. 695.

[2] O primeiro acordo de Schengen, firmado em 14 de junho de 1985, teve como signatários cinco países membros da Comunidade Europeia: França, Alemanha e o Benelux (união econômica entre Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo, países que já tinham um acordo de livre circulação de pessoas desde 1960). A assinatura do tratado ocorreu a bordo do barco Princesse Marie-Astrid, no rio Mosela, nas proximidades de Schengen. O acordo de 1985 estabeleceu os passos a seguir para criar o espaço Schengen. Um documento adicional chamado Convenção de Schengen foi criado para pôr o tratado de Schengen em prática. https://pt.wikipedia.org/wiki/Acordo_de_Schengen

[3] Notadamente o capítulo intitulado Ţara mea (“Meu país”): “Que o nosso país não existia, esta era para nós uma certeza; sabíamos que ele não tinha alguma realidade senão para o nosso desespero.” CIORAN, Emil, La transfiguration de la Roumanie. Trad. de Alain Paruit. Paris: l’Herne, 2009, p. 68.

[4] Por exemplo: “Filho de um povo desditoso, a que poderias condenar o destino ignóbil ou como saberias furtar-te a ele?  […] Nenhum ideal fecunda a alegria mortuária dos escravos do tempo, às portas do Oriente. […] Estava escrito que, descendentes dos Dácios e de outros povos incertos, nós não semearíamos nenhum pensamento de felicidade, que as gotas do nosso sangue formariam um rosário de desgostos, herança de uma tribo de vencidos. O suspiro e a maldição foram nossa estratégia de camponeses arrancados caídos de alguma estrela e destinados ao aviltamento.” IDEM, Bréviaire des vaincus, in Œuvres. Trad. de Alain Paruit. Paris: Gallimard, 1995, p. 537.

[5] “Às vezes tenho a tentação de inventar, para mim, uma outra genealogia, de mudar de ancestrais, de escolhê-los entre aqueles que, em sua época, souberam difundir o luto através das nações, ao contrário dos meus, dos nossos, apagados e machucados, atulhados de misérias, amalgamados ao logo e gemendo sob o anátema dos séculos.” IDEM, “Sobre dois tipos de sociedade – carta a um amigo longínquo”, História e utopia. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 29.

[6] “Ser francês é uma evidência: não é motivo de sofrimento nem de júbilo; dispõe-se de uma certeza que justifica a velha interrogação: «Como se pode ser persa?» O paradoxo de ser persa (neste caso, romeno) é um tormento que é preciso saber explorar, um defeito que se deve aproveitar. Confesso ter outrora considerado uma vergonha pertencer a uma nação sem importância, a uma colectividade de vencidos, sobre cuja origem não me era dado alimentar a menor ilusão. […] «Como se pode ser romeno?», era uma pergunta a que eu só podia dar resposta por meio de uma mortificação de todos os instantes.” IDEM, “Pequena teoria do destino”, A tentação de existir. Trad. de Miguel Serras Pereira e Ana Luísa Faria. Lisboa: Relógio d’Água, 1988, p. 43.

[7] Os tumultos na Romênia em 2012–15 referem-se a um prolongado período de desordem civil e escândalos políticos na Romênia. A onda de manifestações civis começou em janeiro de 2012, com a introdução de uma nova legislação de reforma da saúde. Os protestos foram sustentados pelas medidas de austeridade aplicadas em maio de 2010, mas também pela impopularidade do governo de Traian Băsescu. Os distúrbios foram caracterizados por tumultos generalizados e atos de vandalismo. A situação política agravou-se, como resultado, o então primeiro-ministro Emil Boc decidiu renunciar em 6 de fevereiro de 2012.
Nos primeiros seis meses do ano, três governos foram alterados. O verão de 2012 foi marcado por uma crise política em grande escala, promovida por acusações de plágio ao primeiro-ministro Victor Ponta e culminando com a suspensão do presidente Traian Băsescu. Embora o referendo sobre o impeachment presidencial apontasse que mais de 80% dos eleitores queriam seu o afastamento, o referendo foi invalidado pela Corte Constitucional devido à presença abaixo de 50% na votação. Durante este período, a Romênia foi advertida pelas potências ocidentais sobre o estado da democracia, na medida em que a destituição dos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados foi efetuada de uma forma obscura, e figuras importantes do Partido Social-Democrata (PSN), incluindo o vice-presidente Liviu Dragnea, foram acusados de manipulação de votos no referendo.
Depois de triunfar na eleição legislativa de 9 de dezembro de 2012, Victor Ponta – apoiado pela União Liberal Social – foi nomeado primeiro-ministro da Romênia. Seu mandato foi marcado por escândalos de corrupção e protestos de rua. As manifestações tiveram várias causas, entre elas o aumento de impostos, a exploração do gás de xisto através da fratura hidráulica e o Projeto Roşia Montană. Centenas de milhares de pessoas, incluindo médicos, professores, estudantes e trabalhadores, saíram às ruas para expor sua insatisfações em relação às suas políticas. Os trabalhadores do sistema de transportes e de saúde desencadearam várias greves neste período. Embora principalmente pacíficos, os protestos degeneraram, em alguns casos, em confrontos entre manifestantes e autoridades policiais. O governo de Ponta foi acusado por organizações nacionais e internacionais de uso excessivo da força na Revolta de Pungeşti. Os húngaros étnicos iniciaram diversos protestos pela autonomia do País Székely, enquanto os movimentos unionistas exigiram a unificação da Romênia e da Moldávia, tanto na Romênia quanto em Prut.
No inverno de 2014, a aliança governista entrou em colapso, depois das tensões internas entre PSD e Partido Nacional Liberal (PNL). O Partido Democrata Liberal (PDL) abandonou a aliança e fundiu-se com o Partido Nacional Liberal para formar o maior partido de direita da Romênia no período pós-revolucionário. No verão do mesmo ano, Victor Ponta do PSD e Klaus Iohannis do PNL lançaram suas candidaturas para a eleição presidencial. Surpreendentemente, o germânico Klaus Iohannis venceu a eleição. O fracasso de Ponta ocorreu principalmente devido as irregularidades no processo de votação na diáspora e numerosos escândalos de corrupção envolvendo membros do partido que lidera. Durante a campanha eleitoral, pessoas protestaram contra Victor Ponta e membros do seu governo, na medida em que milhares de cidadãos romenos na diáspora foram impedidos de exercer o seu direito de voto devido à má organização do processo eleitoral. https://pt.wikipedia.org/wiki/Tumultos_na_Rom%C3%AAnia_em_2012%E2%80%932015

[8] Há uma edição francesa do livro: Les pièges de l’histoire. L’élite intelectuelle roumaine. 1930-1950. Paris: Les Belles Lettres, 2013.

[9] http://www.rri.ro/es_es/radio_erevan-2575886