Europa Libera, 27 de novembro de 2017

Muitas vezes aprendemos mais com os paradoxos do que com demonstrações teóricas complicadas

No contexto do perigo global que constitui, a partir de agora, o fascismo niilista do fundamentalismo islâmico, o hebdomadário satírico-político Charlie Hebdo, que não senão a provocação, já escreveu que o pensamento de Cioran se corresponderia muito bem à ideologia destrutiva do Estado Islâmico.

É o que fez Charlie Hebdo no contexto da liquidação midiática de oportunistas como Michel Onfray, atualmente o filósofo e moralista número 1 da França, que recentemente escorregou numa ladeira de provocações sem limite. Após os atentados de Paris em novembro de 2015, Michel Onfray afirmou: “A França deve parar com sua política islamofóbica.”

Questionado numa entrevista se ele não dá a impressão de acusar as vítimas mais que os criminosos, Michel Onfray continuou: “Nós devemos sair do tempo jornalístico da emoção e entrar no tempo delongado da reflexão filosófica. O que aconteceu na sexta-feira, 13 de novembro, é um ato de guerra, mas é uma guerra que foi lançada há um quarto de século pelo clã Bush e seus aliados destruindo o Iraque de Saddam Hussein.”

E prosseguiu, asserindo que “a população da comunidade muçulmana global” se vingou legitimamente. “O primeiro agressor foi o Ocidente.”

Resultado: Michel Onfray foi citado como referência em alguns vídeos do Estado Islâmico/DAESH.

 Mas, escreve Charlie Hebdo, a analogia é mentirosa. O Estado Islâmico tem uma doutrina milenarista e niilista que pode ser comparada ao nazismo. Se, após o ataque ao Museu Judaico em Bruxelas, em 2014, ou os cartunistas e jornalistas de Charlie Hebdo, em 2015, alguns poderiam encontrar uma justificação, não teria nenhuma o massacre de inocentes nos terraços de Paris, em 13 de novembro de 2015.

Todo a filmagem de propaganda do Estado Islâmico/DAESH, com suas decapitações, apedrejamentos, pessoas queimadas vivas e crianças trucidadas faz os islamistas do DAESH serem piores que o Terceiro Reich. Os nazistas, pelo menos, esconderam seus crimes e não distribuíram filmes propagandísticos com os horrores de Auschwitz. O Estado Islâmico, por sua vez, além de uma reivindicação literal dos ensinamentos do Corão, tem, até um manual prático: a Administração da Barbárie/Management of Savagery do ideólogo Abu Bakr Naji,[1] difundido na Internet a partir de 2004, explicando detalhadamente como espalhar o terror, morrer em público e matar o inimigo até a destruição do seu mundo.

E aqui vem Charlie Hebdo com a validação teórica desse niilismo totalitário: Cioran, que não concebia a transfiguração, a transformação da face do nosso mundo, senão como uma escolha entre um dos dois extremos que são o nazismo e o stalinismo. Cioran, que invocou o apocalipse.

Quem melhor falou sobre o DAESH não foi Hitler, em Mein Kampf, mas Cioran.

Num texto de 1933, Cioran, que era então fascista e niilista ao mesmo tempo, explica que devemos liquidar este mundo em que vivemos. Devemos entusiasmarmo-nos, diz ele, “com o fenômeno apocalíptico da barbárie. Um paroxismo de fúria espalhará pelos quatro cantos do planeta os restos de um mundo em agonia, e toda reivindicação de coerência desaparecerá face à explosão do caos.”

Sim, Charlie Hebdo apresenta Cioran, que escreve que o nosso mundo só pode ser salvo por um excesso criminoso (em Schimbarea la față a României), como um precursor ideológico do fascismo islâmico… um título glorioso que Cioran disputa, postumamente, com Michel Onfray. Posição difícil (eis precisamente a missão de Charlie Hebdo), mas isto nos faz lembrar que nós amiúde aprendemos melhor com os paradoxos do que com demonstrações teóricas complicadas.

Tradução do romeno: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes

[1] “Manual” sugere como o Estado Islâmico está construindo o próprio governo. Veja, 7 de dezembro de 2015. https://veja.abril.com.br/mundo/manual-sugere-como-o-estado-islamico-esta-construindo-o-proprio-governo/#respond

Publicado por:Portal E.M.Cioran/Br