É sempre comprometedor recomendar seu pensamento a uma palavra; mais particularmente, quando essa palavra já recobre um certo número de acepções entre as quais nenhuma designa o que se tem propriamente em vista. Pode-se preferir calar; ou ainda, preferir criar uma palavra nova, que nada evocará no espírito do leitor e por isso correrá o risco de permanecer natimorta: outra forma de silêncio, talvez. Mas caso se deseje falar, ter-se-á interesse em se contentar em utilizar uma palavra já conhecida; escolhendo-a entre as menos comprometedoras possíveis, as menos refratárias ao que se quer dizer (ou antes: as mais refratárias ao que não se quer dizer). Para qualificar o silêncio, é evidente que toda palavra é, por definição, excessiva. Mas excessiva em quanto? Questão pascaliana que retorna voluntariamente ao silêncio (ou, segundo Pascal, a Deus), falta de referencial que permite delimitar as perspectivas. O problema é pois de dar a palavra a uma palavra que se possa considerar, no estado atual da linguagem que se usa, como não excessivamente afastada do silêncio do qual se que na falar. Tal é, antes de qualquer outra palavra, aquela de “acaso”. Palavra, com efeito, a mais próxima do silêncio, conceito o mais  próximo da recusa de conceitos. Mas, com a condição de precisar que se entende por “acaso” muito menos do que entendem, sob essa palavra, ao mesmo tempo o dicionário corrente e o dicionário filosófico. Muito menos, mas também, num certo sentido muito  mais.

Tal como o compreende a filosofia, o acaso designa, seja a interseção imprevisível, mas não irracional, de várias séries causais independentes (tese de Cournot), seja a intuição geral de uma ausência de necessidade, que designa também a palavra “contingência”. Esses dois sentidos, como será precisado mais adiante, são estranhos ao que uma perspectiva propriamente trágica concebe sob o termo de acaso. Conceitos excessivamente falantes, com efeito, pois que dão, ao mesmo tempo que o “acaso”, dois conceitos anexos que não “compreendem” de modo algum o silêncio trágico: acontecimentos, no sentido estrito; a ideia de uma necessidade, no sentido amplo. O acaso, no sentido trágico, é anterior a todo acontecimento como a toda necessidade, do mesmo modo que o “caos”, pelo qual os antigos filósofos gregos designavam o estado primeiro do mundo, é anterior de direito como de fato a toda “ordem”. Falar do acaso como um conceito trágico próximo do silêncio proíbe falar do acaso a partir de referenciais constituídos (séries de acontecimentos) ou pensados (ideia de necessidade). Se já há “alguma coisa” a partir do que, somente, pode produzir-se a eventualidade do acaso, não poderia ser questão de acaso no sentido trágico do termo. Poderia haver acasos dramáticos, como um encontro fortuito de séries de determinações ocasionando uma catástrofe social ou individual: acasos não-silenciosos, que dão a palavra a séries já existentes de relações causais (que já têm a representação de uma necessidade sobre o fundo da qual o acaso aparece como relevo acidental). O acaso “silencioso” significa a ausência original de referenciais; ele não se pode definir a partir de referenciais como as séries de acontecimentos ou a ideia de necessidade.

Será necessário pois distinguir entre um acaso segundo a necessidade (e as séries causais) e um acaso primeiro em relação à necessidade. Velho problema de saber se a desordem não se pode conceber senão a partir da ordem (tese de Bergson), ou se se pode falar, com Lucrécio, de desordem e de acaso originais – tese trágica da qual uma das primeiras conseqüências é fazer de todas as ordens existentes e concebíveis frutos do acaso. De resto, a tese de Bergson é perfeitamente admissível, ao olhar mesmo do pensamento trágico. É verdade que a “desordem” não se pode conceber senão a partir da idéia de ordem, mas o que o pensamento trágico tem em vista quando fala de acaso não se confunde de modo algum com a idéia de uma desordem. O caos que ele chama acaso não é um mundo desordenado, mas um x anterior a toda idéia de ordem ou de desordem. Acaso anterior à necessidade, de onde saiu tudo o que pode aparecer ao pensamento sob os auspícios do necessário, e de onde sairá, num terceiro tempo, tudo o que terá relevância sobre essas ordens necessárias – um acaso segundo a necessidade, onde a expressão “segundo” reveste seus dois significados maiores: ao mesmo tempo “posterior a” e “conforme”. Três níveis, pois: um acaso original, conceito silencioso e trágico; em seguida, um certo número de ordens constituídas; enfim, um certo número de desvios dessas ordens, desvios que a filosofia clássica registrará como “acasos”, mas. nos quais Bergson se fundamentou para ver antes variações da ordem que expressões de uma problemática “desordem”. Entre os acasos considerados como “restos”de ordem e o acaso considerado pelo pensamento trágico, nenhuma relação; senão – pois, sem isso, o recurso a essa palavra de acaso não teria nenhum sentido – a idéia de uma certa inaptidão à interpretação.

Essas definições iniciais da noção de. acaso serão precisadas depois. De imediato, o acaso, enquanto conceito trágico, ou palavra silenciosa, se definirá somente como “anticonceito”, não qualificando senão uma soma de exclusivas. E, nesse sentido, casual, o que exclui ao mesmo tempo a ordem das causas e suas. exceções, a ordem das determinações e suas exceções, de maneira geral as idéias de ordem e de desordem. O que exclui igualmente, como foi dito, a idéia mesmo de contingência que não se compreende senão a partir, e segundo, a necessidade – noção já ignorada pelo pensamento trágico. Se há um acaso trágico, este não depende da idéia que tornou possível a idéia de contingência: longe de depender dela, a precede e engendra. Anticonceito que, assim sumariamente concebido, já basta para ilustrar certos temas fundamentais da tragédia.

Para designar nada, para fazer falar o silêncio num conceito mudo que defina somente uma soma de exclusivas, a língua francesa tem o privilégio de dispor de uma palavra que, no seu uso corrente, falta a todas as outras línguas européias – o acaso. Aqui, onde o francês diz acaso, o inglês diz quase sempre chance, o alemão Zufall, o italiano caso, o espanhol casualidad, palavras que derivam todas da idéia ou da palavra latina casus, queda (de cadere, cair), Mas essa noção de casus não recobre precisamente a idéia de “acaso”. É preciso, aqui, distinguir, de um ponto de vista ao mesmo tempo etimológico e epistemológico, quatro níveis diferentes na gênese da idéia de acaso. Quatro níveis que vão do mais específico ao menos específico, do mais extenso e mais falante ao menos extenso e menos falante – ou seja, em definitivo, do que é menos casual ao que é mais casual, se “acaso” designa um conceito, senão silencioso, que pelo menos tende infinitamente para o silêncio.

a) Noção de sorte – expressa pelo latim fors e pelo grego τύχη. Aqui o “acaso” significa que se atribui a um x – nomeado fortuna – a responsabilidade de uma série causal feliz ou infeliz para o homem (ou os homens em geral). A origem da denominação grega dessa sorte – τυχάνω: eu obtenho – indica seu caráter eminentemente antropológico: aqui o acaso designa isso a favor do que se obtém ou não se obtém tal resultado feliz ou infeliz. Acaso que certamente preenche um branco e faz falar um silêncio; mas que supõe, de um lado, a existência de séries causais, de outro, o caráter feliz ou infeliz dessas séries, de um ponto de vista subjetivo que implica ao mesmo tempo a idéia de uma responsabilidade causal (mesmo se o responsável é inominável e, de uma certa maneira, não existente, já que não implorável) e a idéia de uma referência conhecida – a felicidade – a partir da qual essa responsabilidade se efetua. Acaso antropológico, e por conseguinte, acaso teológico: isso que o homem julga remetendo ao seu inevitável duplo divino. O que se pode atribuir a uma origem designada, senão conhecida, tal como Zeus ou uma causa natural, sera atribuído a uma origem outra, não diferindo de suas semelhantes senão por seu caráter desconhecido e incontrolável no imediato: uma causa a mais entre as causas, deus suplementar que se acrescenta à lista dos deuses conhecidos, como ordenava a liturgia romana imperial, cuidadosa em não ofender um deus não inventariado lhe arranjando – ao acaso: por si acaso – um lugar vazio. De onde a personificação – e a deificação – da noção de sorte em fortuna (Fortuna) ou em necessidade (Άνάγχη); donde também essa hesitação significativa da expressão antiga do acaso entre o que é acaso e o que é seu exato contrário: o destino. A noção de τύχη hesita com efeito, e isso desde o começo da literatura grega, entre dois pólos opostos: o absolutamente não necessário (acaso) e o absolutamente necessário (destino).
Para sustentar a noção de fors ou de τύχη – primeiro nível do acaso –, dois referenciais: a idéia de encadeamento dos acontecimentos, e a idéia de finalidade.

b) Noção de encontro – expressa pelo latim casus e todos os seus derivados europeus: chance, Zufall, caso, casualidad. Aqui, “acaso” designa o ponto de interseção entre duas ou várias séries causais; o fortuito é deslocado do conjunto de um encadeamento ao caráter imprevisível do encontro, em certos pontos, de certos encadeamentos. Acaso acontecimentual que no exemplo clássico da telha, não incide sobre as séries elas mesmas (telha que cai, homem que avança), mas sobre o fato de que em um certo ponto do tempo e do espaço as duas séries se encontram. Fala-se então de chegada fortuita: não que as séries que assim se encontram tenham elas mesmas um caráter de acaso, nem mesmo aliás que sejam precisamente casuais o lugar e o tempo de seu encontro – mas porque os referenciais desse encontro são imprevisíveis, nenhuma inteligência humana podendo prever em detalhe todos os encontros possíveis entre todas as séries existentes. Perguntar-se-á pela relação entre essa noção de “encontro” e a idéia de “queda”, presente
na origem latina de casus (cadere), assim como nos seus derivados, tal como a expressão francesa segundo a qual um acontecimento “cai” bem ou mal. A hipótese mais provável é a da reincidência do lance (de dados ou dos ossinhos), a queda simultânea de dois objetos representando a imagem elementar do encontro de duas séries independentes. A idéia de dualidade seria assim anterior àquela da queda, na gênese da noção de casus no sentido de acaso, a queda não sendo senão o meio de fazer coincidir – cum-cadere – duas séries independentes (mesmo no caso do lance de um dado único, cuja reincidência entrelaça igualmente duas séries: a trajetória espacial e o tempo concedido antes da chegada ao solo). A coincidência teria assim precedido a cadência no empréstimo feito à noção de queda pela noção de acaso-encontro. Em resumo, a idéia fundamental de casus é a idéia de chegar inesperadamente junto – como testemunha, anterior ao termo latino de casus, uma das expressões gregas do acaso: τό συμβαίνον, que deriva de συμβαίνω, caminhar junto.

c) Noção de contingência, derivada ela também da idéia de simultaneidade (cum-tangere), mas sendo orientada, na linguagem filosófica, para uma concepção abstrata da não-necessidade. O acaso da contingência não designa mais o fato casual, a favor do qual duas séries coincidem, mas o princípio geral de imprevisibilidade que é aplicado a tais encontros. Do casus, a contingência não retém senão a idéia geral de sua possibilidade; se tudo não é previsível, é – talvez – que tudo não é necessário; poderia então haver aqui a não-necessidade, que se chamaria contingência.
Para sustentar a noção de contingência – terceiro nível do acaso –, um referencial: a idéia de necessidade.

d) Noção de acaso, que deriva de uma palavra árabe que designa provavelmente o nome de um castelo situado na Síria do século XII. Origem duplamente casual, um mesmo caráter fortuito se aplicando, tanto à origem da palavra (lugar geográfico); quanto às razões pelas quais essa palavra acabou por prevalecer na língua francesa, expulsando assim, diferentemente do que se produziu nas outras línguas latinas, os derivados de casus.

Guillaume de Tyr, cronista das Cruzadas cuja Historia rerum in partibus transmarinis gestarum foi escrita na Síria, no século XII, narra aí “que Rodoans, li sires de Halape (Alep), ot contenz et guerre a un suen baron qui estoit châtelains d’un chastel qui avoit non Hasart”; e seu tradutor do século XIII acrescenta: “et sachiez que là fu trovez et de là vint li jeus des dez, que einsint a non” [Que Rodoans, o senhor de Halape (Alep), manteve guerra e contenda com um barão que era casteão de um castelo chamado Hazart (Acaso). (…) e sabe-se que ali se descobriu e dali provém o jogo de dados que assim se chama]. Antes de designar um certo jogo de dados (uma outra etimologia, contestada, queria fazer derivar o acaso do árabe al sar, o dado), “acaso” designa pois um nome de castelo, depois o nome de um certo jogo de dados praticado a princípio nesse castelo, mais tarde propagado entre todos os Cruzados, enfim importado na Europa por intermédio deles. Em seguida, acaso designará, durante um tempo, a face do dado que traz o número seis, “lançar acaso” significando que se obteve o seis. Mais tarde, acaso designa, de maneira mais geral, a idéia de risco, de perigo, de situação que se furta a toda possibilidade de controle; é o sentido da palavra em Montaigne, e que permaneceu nas línguas européias outras que o francês, nas quais hazard, azzardo, azar implicam, geralmente num contexto lúdico, a idéia de um lance de má sorte, mais precisamente de um abandono ao aleatório que torna possível e ameaçadora a eventualidade de um revés. De onde o humor comumente melancólico daquele que pratica os jogos de azar, assinalado por Dante na Divina Comédia:

Quando si parte l’giuoco dell’azara,
Colui chi perde si riman dolente,
Ripetendo le volte e e tristo impara.

[Quando termina o jogo de azar,
fica o perdedor, contristado,
a ensaiar lances afortunados
(que lhe teriam mudado a sorte)]

Enfim, e isso desde o século XVII, acaso toma em francês o sentido geral que permaneceu até hoje, paralelamente ao sentido de casus que a palavra acaso acabou por anexar: ou seja, uma espécie de silêncio original do pensamento que recobre tudo o que não é, de uma maneira ou de outra, avaliável por um olhar do espírito. Parece que Pascal foi um dos primeiros, senão o primeiro, a dar esse sentido filosófico à palavra acaso. Quando Pascal fala de acaso, não é o imprevisível dos encontros que está em questão, nem a possibilidade filosófica da não-necessidade, mas antes a intuição de urna falta a ser pensada, de um branco, de um silêncio, anteriores a toda possibilidade de encontro (que supõe um mundo constituído) assim como a toda possibilidade de pensamento (que supõe a criação do homem). Nesse sentido, “acaso” designa, em Pascal, muito precisamente o inferno.

O que havia de tão extraordinário nesse jogo praticado outrora no Castelo de Acaso para que a palavra que daí resultou tenha tido ela mesma uma tão extraordinária fortuna? Tudo o que se pode razoavelmente conjecturar a esse respeito é que um tal jogo devia caracterizar-se por uma inabitual passividade do jogador, a quem era recusada toda possibilidade de intervenção: só “acaso” presidia aos destinos da partida. Dir-se-á que essa passividade diante da sorte é uma característica comum a todos os jogos que excluem a influência da habilidade, os quais existiam bem antes do Castelo de Acaso, de onde vem o nome que os designa hoje. Entretanto, essa afirmação é talvez um pouco excessiva. Antes de ser certo que os jogos de acaso”‘ praticados pelos gregos e romanos eram de fato de acaso, exatamente análogos ao jogo “original” do Castelo de Acaso~ é necessário conhecer exatamente a regra dos jogos antigos; assim como aquela do jogo de “acaso”, conhecer também a mentalidade dos jogadores que os praticavam. Não é impossível que, qualquer que seja o caráter fortuito dos jogos de acaso da Antiguidade, um elemento de fortuna (fors) tenha permanecido constantemente presente ao espírito do jogador, que lhe atribuía a responsabilidade pelo desenrolar favorável ou desfavorável da partida: o caráter místico que os gregos emprestavam às cerimônias do sorteio iria no sentido dessa hipótese (os deuses escolhem). Nesse caso, a idéia de acaso seria tão recente quanto a palavra. Talvez os homens que descobriram ao “Acaso” o jogo que traria, durante algum tempo, esse nome ficaram precisamente impressionados pelo fato de que um tal jogo significava – pela primeira vez – uma exclusão absoluta de toda idéia outra que não o acaso do jogo ele mesmo, implicando assim a interdição de todo recurso exterior, chame-se ele sorte, destino, providência ou fatalidade. Implicando assim, por via de conseqüência, a experiência da perdição.

ROSSET, Clément, Lógica do pior. Trad. de Fernando J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 81-89.