Apresentação de “Cioran dans mes souvenirs”, de Mario Andrea Rigoni (Laurent de Sutter)

Mario Andrea Rigoni é um dos grandes, e ao mesmo tempo dos mais secretos, dentre os prosadores italianos vivos. Este segredo, ao que parece, foi levado ao pé da letra na França, onde a sua obra, a despeito de algumas traduções, é pouco conhecida. Os amantes de Leopardi sabem, contudo, o que devem a este que é um de seus mais célebres especialistas e editores contemporâneos. As antologias temáticas do Zibaldone que ele publicou nos anos 1990, pela Rizzoli e pela Adelphi, e que seriam em seguida traduzidas ao francês pela Allia (Le massacre des illusions, trad. franc. de J. Gayraud, 1993; Tout est rien, trad. franc. de E. Cantavenera e O. Schefer, 1998), assim como as edições de obras das quais garantiu a direção ou a participação (Discours sur l’état actuel des moeurs des Italiens, trad. franc. de M. Orcel, Allia, 1998; Poesie et prose, Mondadori, 9ª edição, 2003), constituem alguns exemplos entre as milhares de iniciativas tomadas por esse professor da Universidade de Pádua em favor do poeta de Recanati. Mas, além de ser um especialista de Leopardi — a quem também consagrou um livro, fazendo-lhe referência, La pensée de Leopardi (Bompiani, prefácio de E.M. Cioran, 1997; trad. franc. de C. Perrus, Le Capucin, 2002) — Mario Andrea Rigoni publicou dois volumes de prosa própria, os quais, dando o testemunho do seu apego ao poeta, revelam também a fascinação que exerce sobre ele a forma do fragmento. O primeiro desses volumes, Variations sur l’impossible, cuja edição original fora publicada em 1993 (Rizzoli; trad. franc. de M. Orcel, L’Alphée, 1986), e uma edição aumentada em 2006 (Il Notes Magico, prefácio de Tim Parks), é uma reunião de sentenças e observações desabusadas que tiveram o mérito de estabelecer Rigoni entre os grandes mestres italianos do aforismo, ao mesmo tempo que o inscrivia na prestigiosa linhagem dos metafísicos das ruínas que, após Leopardi, se reconhecem pelo seu gosto assaz apurado pelos belos desastres. O segundo, um Éloge de l’Amérique (Liberal Edizioni, 2003; trad. franc. de M. Orcel, Le Capucin, 2002), publicado pouco depois que dois aviões cumpriram chegaram ao seu destino nas torres do World Trade Center, em Nova York, é uma viagem fascinada e, ele também, fragmentária, através das belezas do único país a ter dado uma verdadeira profundidade à expressão “travessia das aparências”. Escritos, um e outro, com essa exigência tensionada que só possuem os mais ascéticos amadores de sóis negros, essas duas obras revelaram a existência de um Rigoni escritor que o rigor dos seus ensaios universitários deixava, entretanto, transparecer àqueles capazes de degustá-lo. Cioran mesmo não se enganou, ele que encorajou Rigoni, quando este tinha pouco mais de vinte anos, a perseverar em seu trabalho sobre Leopardi como se este último fosse o véu pelo qual lhe era preciso dissimular o caráter demasiado voyant [clari-vidente] de sua elegância.

E.M. Cioran e Mario Andrea Rigoni

 

Rigoni, que foi também o editor e tradutor italiano das obras de Cioran pela editora Adelphi, além de seu amigo, tinha certamente assimilado da frequentação do mestre romeno que há alguma vulgaridade em ser demasiado dotado: é preciso constringir-se, e esconder-se. É preciso escrever clássico e publicar pouco. Estas duas máximas, Rigoni as aplicou ao pé da letra, não soltando ao público, além do seu ensaio sobre Leopardi e seus dois volumes de prosa, senão alguns raros artigos (dos quais se encontrará a tradução francesa por pouco que se queira folhear as edições da NrF de meados dos anos 1980). É novamente Cioran que, se pode-se dizê-lo assim, o arranca da sua reserva, já que Rigoni só retornará à edição com Mon cher ami (Il Notes Magico, 2007), um volume de correspondências com o eremita da rue de l’Odéon, das quais, ainda por discrição, ele omite as suas próprias respostas; uma pequena coleção de exercícios de admiração intitulado Fascinazione della cenere (Il Notes Magico, 2005), inédito em francês tanto quanto as cartas de Mon cher ami; e, finalmente, o volume  que se lerá aqui, In compagnia di Cioran (Il Notes Magico, 2004), composto de textos, recordações e entrevistas que, ao longo dos anos, ele chegou a consagrar ao autor do Breviário de decomposição. Traduzidos por Michel Orcel, já autor de magníficas traduções francesas de Variations sur l’impossible e de Éloge de l’Amérique, e ele mesmo grande tradutor de Leopardi, eles pintam um dos retratos mais belos, inteligentes e tocantes que já foram consagrados a Cioran, além de constituírem, de uma vez por todas, a prova desse talento que Rigoni não permitirá jamais que lhe reconheçam, ele que não fala dos seus livros senão como “pequenos e modestos escritos” que sequer merecem atenção.*

de SUTTER, Laurent, Présentation, in RIGONI, Mario Andrea. Cioran dans me souvenirs [orig. In Compagnia di Cioran] Trad. de Michel Orcel. Paris : Presses Universitaires de France, 2009, p. 7-11. Trad. do francês: Rodrigo Inácio R. Sá Menezes.

* In Compagnia di Cioran é o resultado do trabalho da editora Federica Marabini, que colacionou e anotou os textos que aqui figuram. Na edição italiana, ele é precedido pela nota seguinte: “Neste volume se encontram reunidos diversos textos de Mario Andrea Rigoni relativos a Cioran. Posfácios, artigos, conferências, extratos de cartas que testemunham a amizade entre Cioran e Rigoni, a quem cabe o mérito de ter difundido na Itália o pensamento e a obra de um dos maiores escritores do século XX. Por terem consentido com gentileza à publicação destes textos, agradecimentos são devidos a: o executor literário de Cioran, Yannick Guillou; a direção do Corriere della Sera; as Edições Adelphi; Rossend Arquès e Antonio Castronuovo.” Em relação à edição italiana, contudo, não figuram no presente volume os seguintes itens: a entrevista de Cioran intitulada “Sul suicido”; a reprodução da carta de Cioran a Rigoni datada de 4 de novembro de 1984; as fotografias de John Froley em que aparecem em cena Rigoni e Cioran no apartamento deste último. Eles foram substituídos pelos textos intitulados “Cioran et les livres”, “Sur le passé politique de Cioran” e “Cioran dans mes souvenirs”.