Diário do Nordeste, 6 de dezembro de 2010

Estudante de Direito, desde que começou a publicar seus versos foi chamado de neurótico, histérico, poeta raquítico, doutor tristeza. A soma dos fracassos em que resultou sua vida converteu a tristeza em apoteose do sentir, ininterruptamente restaurada pela onipresença da melancolia, sua companheira inseparável, e do pessimismo. Por ocasião de sua morte, Olavo Bilac, perguntou quem era esse poeta Augusto dos Anjos? Ao ouvir a récita de um de seus sonetos, sentenciou com um sorriso de superioridade: “este é o poeta? Pois não se perdeu grande coisa!” Em Augusto dos Anjos o talento corrige com perfeição as excentricidades do homem desajeitado, feio, misantropo, pobre e genial que trouxe em si, “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras!”.

O “senso comum”, uma vez prisioneiro do contexto histórico-temporal em que sobrevive por esquecimento ou falha emocional se coloca ou é colocado indiferente aos diferentes. Uma vida sem poesia, sem arte, sem dor, pois esta tarefa é delegada aos sentimentais, aqueles que têm tempo para sentir as dores do mundo. Cioran, também não conseguiu se desvencilhar de lembranças que traziam desespero. Uma vez disse a sua mãe que não suportava mais a vida, então ela disse friamente que, se soubesse que ele seria tão infeliz o teria abortado. Isso o influenciou por toda sua vida. Dizia que Deus tinha criado a humanidade para não ficar sozinho. Para Cioran “O limite de uma dor era outra maior.” A lista é longa… Baudelaire, Dostoévsky, Shopenhauer, Nietzsche, Kierkegaard… Nem todos somos alegres, tristes ou felizes. A existência de cada um da o tom da predominância de alguns sentimentos. De acordo com os conceitos de cada época, levando-se em conta que a verdade é circunstancial, os sentimentais serão considerados loucos, bobos ou formidáveis! E se você não combina com o seu tempo, cuidado para não ser engolido pela grande engrenagem que moe significados, pois Cazuza, que se “escondia” para ouvir Lupicínio, disse que “veio para o mundo, mas perdeu a viagem”. Aos tristes, melancólicos e sentimentais dedico este artigo.

Sara Mendes de Andrade – advogada