A poesia de George Popescu, por Marco Lucchesi

CONTEXTO – Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras, nº 15 e 16 – 2008/2009, Edufes – Editora da Universidade Federal do Espírito Santo.

Núpcias de Cadmo e Harmonia

Parte essencial da história da literatura repousa na poética do encontro. Tramada pelos anjos, que movem as letras do livro do mundo, os anjos da cabala, tão abissais em seus mistérios.

Não tenho como provar o que digo. Mas sei que existe uma verdade imponderável.

Abismo de palavras em branca superfície. Espaço apontado por Lucian Blaga como sendo a imagem de um saber que cria camadas mais profundas de menos-saber (minuscunoaštere).

Tive um desses encontros que me levaram ao impacto da língua romena. George Popescu foi o meu Virgílio. Poeta de águas claras. Metade anjo. Metade abismo.

A Romênia era e continua sendo para mim uma transcendência no campo da latinidade. E ela saltava dos olhos de George. Olhos difíceis de alcançar, os seus, como que atravessados por uma espessa neblina, mensageiros de verdades esquecidas, como os espelhos de Jean Cocteau.

George é um poeta habitado pelo futuro. Futuro mais longo que o passado. Tal como o destino da literatura romena. Cidade de Craiova. Estrada Brestei, 59.

Conversas infindáveis no calor da biblioteca. Uma floresta de poetas e palavras. Densas madrugadas. Cigarros. E charutos. Para espantar os vapores frios da noite. George me deu uma língua e uma constelação no céu de minhas buscas.

Essa língua, tão cheia de claro-escuros. E cujo léxico impressiona.

Ouço a polifonia de dácios, getas, gregos e romanos. A fronteira da latinidade, tão viva e porosa, com seu acervo de palavras turcas e francesas. O mundo eslavo, formando um continuum admirável com o latino, apressa as núpcias de Cadmo e Harmonia.

Anoto três formas de dizer pôr-do-sol e seus possíveis devaneios:

Asfintit. Como que o Sol tocasse em pleno ocaso o Mar Negro e liberasse um vapor imenso, através do f e do ţ, tornado agudo pelos dois i.
Amurg. Sinto como que uma grande desolação: a consoante final tão abrupta e esse u tão escuro. Um resto de luz se perde à medida que avanço palavra adentro.
Apus. A sensação de um anoitecer precipitado, que começa no u e se prolonga nas horas mortas do s, que pronuncio como se fosse uma semibreve.

Seja como for, nosso diálogo noturno, eminentemente noturno, irava em torno do labirinto da palavra e do fio de ouro da etimologia: Lauras, Verônicas, Ariadnes. Mas era a elena de Pierre Jean Jouve aquela que parecia melhor atender à síntese do feminino e seus arcanos.

Por que nossas latinidades iam tão esquecidas, diante de tantas convergências?

O romeno e o português são as flores últimas do Lácio. Extremos que coincidem (como vertentes marginais) em relação a um possível centro de latinidade. E todavia essas flores parecem de todo solitárias.

Talvez a solução estivesse nas mãos dos poetas, em seu imaginário inquieto e gentil.

Um passaporte para toda a latinidade.

Assim, passavam pela biblioteca – como os reis-fantasmas diante de um Macbeth siderado – os maiores poetas da Romênia. Macedonski e sua melodia, tão alta como as torres-agulha de Istambul, além daquelas coloridas e aceboladas de Moscou. O verbo iridescente de Ion Barbu, criador inigualável, e a liberdade, brilhando a cada estrofe. As remissões de Arhgezi, com seu modo firme, delicado, irregular. Bacovia e sua tremenda melancolia, preso aos brancos e aos cinzas. A impertinência de Geo Bogza com o seu belo circo semântico. Gherassim Luca e o golpe de estado no seio da linguagem. Além da luminosa poesia de Blaga, a partir do cemitério romano, das aldeias e do espaço miorítico.

Este foi o começo de uma amizade profunda e a descoberta de uma poesia atormentada e bela, que habita o coração da baixa modernidade. Da obra extensa e variada de George Popescu, apresentamos esta breve antologia, toda ela constituída de poemas inéditos em português.

Itacoatiara, dezembro de 2008.

MARGINEA SE REVOLTĂ

nu eu sunt alesul
şi
nu tu eşti cel aşteptat

aici
în acolada în care
cad duminica
îngeri fragezi
cu aripi de maci
tremură limfa
se ascute
marginea
se revoltă molia
infinitei cânepe cereşti
jocul de-a căutatul de-ne-găsit
un relief accidentat

A MARGEM SE REBELA

eu não sou o escolhido
e
tu não és o esperado

aqui
neste parênteses onde
caem no domingo
anjos delicados
com asas de papoulas
treme a linfa
aguça-se
a margem
rebela-se a traça
do interminável cânhamo celeste
o jogo de buscar não encontrável
relevo acidentado

NUMAI FOAMEA ÎNFLOREŞTE

Locuiesc singur
purgatoriul famelic
încă setos şi încă trădat:

cu braţele mele am ucis
trandafirul bolnav de speranţe

iluzia nu mă priveşte
speranţa are picioare scurte
numai foamea înfloreşte
în ochii copilului abandonat

cu giacomino cerşesc fragilitatea
acestei luni hazlii
gemând de caisele
unei copilării de prisos

SOMENTE A FOME FLORESCE

habito solitário
o purgatório famélico
inda com sede e traído

matei com meus braços
a rosa doente de esperanças

a ilusão não me concerne
a esperança tem pequenos pés
somente a fome floresce
nos olhos do menino abandonado

com giacomino mendigo a fragilidade
dessa lua burlesca
gemendo por causa dos pêssegos
de uma infância inútil

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