“As relações entre ciência e poesia na obra do poeta romeno Ion Barbu. Matemática como jogo” (Virginia Popović)

ALEA, Rio de Janeiro, vol. 16/1, jan-jun 2014, p. 169-178.

Resumo: Este artigo analisa as influências do jogo e dos símbolos matemáticos na obra do poeta moderno Ion Barbu, as relações entre ciência e arte em sua poesia, além de propor uma leitura da teoria dos jogos como arte poética. A obra de Barbu é imbuída de símbolos matemáticos, razão pela qual foi vista pela crítica como original, uma novidade na literatura romena. O poeta e matemático Ion Barbu (Dan Barbilian) é um dos mais conhecidos poetas do país, e seu trabalho não só passou por diversas fases representativas como também sofreu diversas mudanças no plano da linguagem. Assim, o tema do jogo varia de acordo com a fase poética que analisamos. A crítica do jogo como ars poetica, no trabalho de investigadores romenos quanto no de estrangeiros, é o ponto de partida deste artigo, que, por sua vez, tem por objetivo demonstrar que o jogo é, além de um tropo cultural e literário, um modo de vida. A própria literatura é um jogo de espaço e de tempo que atravessa diferentes épocas e estilos. A poesia é um jogo de palavras, criadora de um espaço imaginário complexo e fascinante. A vida se desdobra no espaço de um jogo intelectual, em um mundo criado pela mente, no qual tudo é diferente da vida real e interconectado por laços que não seguem uma lógica cotidiana. O jogo, portanto, é um elemento tipicamente poético, e toda forma poética parece estar intimamente ligada à estrutura do jogo.
Palavras-chave: Jogo; matemática; poesia; Ion Barbu; símbolos; modernismo.

Abstract: The paper explores and analyzes the influences of game and mathematical symbols on the poetry of the Romanian modern poet Ion Barbu. The paper presents the analysis of the theories of game as a poetic art as well as the analysis of the links between science and poetry in the works of Ion Barbu – links which led to the conclusion that his poetry is imbued with mathematical symbols. This was the reason why literary critics reviewed his work as original and a novelty in Romanian literature. Poet and mathematician Ion Barbu (Dan Barbilian) became known as one of the most significant modern poets of Romania, Barbus’ lyric went not only through different phases distinct by various specific representations, but it also went through language modifications. Thus the motive of the game which we encounter in Barbu’s poetry changes according to the literary phase through which the poet goes. The analysis of game as ars poetica by critics and other foreign and Romanian researchers represents the point of departure of this paper while the goal of this research is to identify those components which demonstrate that game is not only a cultural and literary topic but also a way of life. Literature itself is a game of time and space, a game of different eras and fashions. Poetry is a game of words and a creator of a fascinating imaginary and complex space. Life unfolds within the space of an intellectual game, in a world created by the mind where things are different from those in real life and linked with links other than the logical ones. Game is thus an element that belongs within the field of poetry and every poetic form seems closely tied to the structure of the game.
Keywords: Game; mathematics; poetry; Ion Barbu; symbols; modernism.

Rezumat: Lucrarea de faţă cercetează influenţa jocului şi a simbolurilor matematice asupra poetului român modern, Ion Barbu. Lucrarea reprezintă teoriile cercetătorilor cu privire la jocul ca artă poetică, la fel legătura dintre ştiinţă şi poezie în opera lui Ion Barbu, ajungându-se la concluzia că poezia lui se întrepătrunde cu simbolurile matematice. Din acest punct de vedere, poezia lui Ion Barbu este caracterizată de criticii literari ca originală şi inedită în literatura română. Poetul şi matematicianul Ion Barbu/ Dan Barbilian este prezentat ca unul dintre cei mai de seamă poeţi moderni români, asociiându-l cu cele mai mari nume ale poeziei româneşti. Ion Barbu urmăreşte trei faze în exprimarea operei lui Barbu: etapa parnasiană, etapa, etapa baladesc-orientală şi etapa ermetică. Având ca punct de pornire analizele deja efectuate ale jocului ca artă poetică făcute de anumiţi cercetători români şi străini, unul dintre principalele obiective este expunerea componentelor ce conturează ideea că jocul nu este doar o temă culturală şi literară, ci şi un mod de existenţă. Literatura însăşi este un joc al timpului şi al spaţiului, al mişcării epice semnificative, al epocilor şi al modelor. Poezia e un joc de cuvinte care creează un spaţiu imaginar, de o complexiatate fascinantă. Viaţa se desfăşoară într-un spaţiu de joc al minţii, într-o lume proprie pe care şi-o creează mintea, o lume în care lucrurile au alt chip decât în viaţa obişnuită şi sunt conectate între ele prin alte legături decât prin cele logice. Jocul este un element atât de inerent naturii poeziei, iar fiecare formă a poeticului pare strâns legată de structura jocului.
Cuvinte cheie: Joc; matematică; poezie; Ion Barbu; simbol; modernism.

Ion Barbu é um poeta do entreguerras, representativo de um estilo literário original, o hermetismo – tal qual Blaga é o representante maior do expressionismo, V. Voilescu, do mítico, e Bacovia, do simbolismo. Barbu compreendeu a fundo as reformas de Poe e Rimbaud, suas tentativas de “purificar” a alma romântica da poesia, e as levou adiante: buscou a superação do estágio descritivo do fazer poético por meio de uma generalidade que lhe abrisse múltiplos caminhos e possibilidades de expressão. Sua fortuna crítica é vasta e contraditória, dada a complexidade hermenêutica da obra, que figura entre as mais enigmáticas da literatura romena – e da literatura da Europa como um todo. No que diz respeito à contribuição romena para a arte europeia, a ressonância da obra de Barbu só é comparável à da poética expressionista de Lucian Blaga, sua poesia e seus textos teóricos.

Blaga definiu a criação expressionista como uma incorporação de determinados valores, dentre os quais o mais elevado seria o absoluto. Barbu não diz outra coisa quando fala de “condição geométrica, e, para além dela, o êxtase”. Não nega a capacidade da poesia de elevar-se ao absoluto, “em direção ao conhecimento que cura, mas [admite] sim, e somente, a impossibilidade de atingir o estado de graça que possibilita a criação desse tipo de poesia. […] O silêncio, o drama do dizer, o trágico que se exprime pela expressão, tudo isso pode ser encontrado em grande parte da poesia romena”.*

A publicação da coleção Mirrored Play [Jogo espelhado] foi fruto de uma aposta com Tudor Vianu, que duvidou que Barbu pudesse escrever poesia (outras fontes nos contam uma versão diferente, um ajuste: se Barbu provasse ser capaz de publicar poesia, Vianu analisaria criticamente o trabalho). Os poemas são de difícil compreensão. Ao passo que alguns críticos consideram Barbu um poeta hermético que escreve em linguagem abstrata, comentadores mais recentes „ressaltam seus esforços no sentido de, segundo o próprio autor, abster-se da ‚competição entre formas individuais’, isto é, despersonalizar a expressão”.* O ciclo Mirrored Play foi traduzido para diversos idiomas, inclusive para o sérvio, de modo que sua circulação é global. Barbu se utiliza de conceitos matemáticos, sendo o mais frequente deles a noção de grupo (uma massa matematicamente estruturada cujos elementos podem se reunir segundo determinada lei): “Out of a clock, inferred, the depth of this peaceful peak,/ Come through the mirror into the healing azure,/ Cutting through the drowned rough herds,/ In ponds of water, an ever purer mirrored play.”1 A compreensão da obra barbiliana pressupõe a análise por gradação. O matemático Alexandru Pantazi, em seu livro Unpublished Pages – Dan Barbilian, afirmou, sobre Ion Barbu:

Aqueles matemáticos romenos que criaram algo no campo científico sem dúvida tinham talento. Barbilian tem também o gênio. Barbilian era um pensador extremamente original e profundo. A matemática provavelmente lhe deu um espaço mais vasto do que a poesia para pôr esse pensamento em prática. Felizmente para sua obra, mas não necessariamente para sua vida pessoal, Barbilian conseguiu eliminar de sua vida tudo aquilo que não contribuía para suas empreitadas intelectuais.

Ion Barbu foi professor universitário até o fim da vida. Já nos últimos anos de sua carreira, ministrava cursos especiais frequentados por um reduzido número de bons alunos. Após sua morte, grande parte de seus escritos didáticos e teóricos no campo da matemática foi publicada. Esses manuscritos estavam espalhados por diversos cadernos e folhas avulsas. Anotações foram encontradas nas margens dos muitos números da Gazeta Matematică que Barbu possuía, publicados antes da I Guerra Mundial. Depois desse período, ele abandonou o espaço literário e passou a se dedicar completamente à matemática, voltando à escrita artística somente em raras ocasiões. Seu trabalho científico era reconhecido em toda a Europa, sobretudo por sua conceituação dos “espaços barbilianos” na geometria. Wladimir Boskoff e Bogdan Suceavaˇ publicaram um interessante artigo sobre esses “espaços” na revista Observator Cultural (n. 286, de setembro de 2005) intitulado “‘The Story of ‘Barbilian spaces’, Or What Else Happened after Mirrored Play” [A história dos “espaços barbilianos”, ou O que mais aconteceu após Mirrored Play]. Atualmente, Barbu é reconhecido por seu real valor, tanto como matemático quanto como poeta.

Conhecer a obra de Barbu, perceber seu vasto universo de signifcação, expresso em linguagem lacônica e dentro de um rigoroso e elaborado sistema de signos, apresenta dificuldades para o leitor moderno:

A geometrização do espaço poético, a espiritualização do espaço matemático; a essencialização da percepção lírica, a individualização do discurso algébrico – essas são as coordenadas que, na obra de Barbu, fixam axiomaticamente a passagem do real para o espaço do puro Conhecimento. O discurso matemático, assim como o poético, bebem na fonte única e bela do Conhecimento Superior. A estilização da imagem poética, tal qual a estilização de uma demonstração matemática, ao ponto no qual passam a expressar uma Ideia em sua forma mais pura e abstrata, na forma mais próxima à essência mesma do conhecimento, é o “signo” [“sign”] a que aspira a criação barbi(li)ana. A aspiração gnóstica, portanto, o coloca ao lado dos grande pensadores do século XIX.*

Como poeta, “o lugar de Ion Barbu na literatura romena (e na europeia) parece ser singular. […] A experiência poética por meio da construção deliberada, imposta pelo próprio autor, de fato é única. Não conhecemos outro poeta que tenha combinado, com tanta síntese lirica e condensação, os mais abstratos conceitos e as mais espontâneas inspirações”.* Como matemático, Dan Barbilian inventou os espaços que hoje levam seu nome, pensando em “outros modos” de existência matemática:

A crise científica da civilização grega foi a impossibilidade de conceber os números irracionais. Não a conquista romana, mas sim a incapacidade de superar certos preconceitos concernentes ao rigor matemático, de aceitar outros modos de existência matemática, foi o que ofuscou e enfraqueceu o gênio grego.*

A “relativização” do discurso matemático e a abertura para novas perspectivas e abordagens são os indícios de uma mente matemática extraordinária.

A obra, seja a poética, seja a matemática, evidencia os sinais de um destino único, não somente no espaço cultural romeno, mas também no da cultura universal. Ion Barbu “é o poeta mais difícil, não só da literatura romena”,* esta dificuldade advém da “existência de um objeto unívoco e imaginário, não dito, circunscrito somente pela metodologia peculiar do matemático”.* Eis o que diz Lovinescu sobre a poesia de Barbu:

Desde os primeiros versos, percebi um notável talento poético. Sburătorul tem a honra de franquear suas páginas a esse poeta chamado Ion Barbu. Ninguém poderá ignorar a visão genética, a intricada expressividade, a relativa sobriedade desse jovem que evoca, em versos gélidos e belos, a poesia dos poderes da natureza, da matéria inerte, da pretensão universal e dos mistérios da germinação. O vigor geométrico e a novidade conceitual, bem como a maestria formal, nos asseguram que a literatura romena foi enriquecida por um novo talento.

Ion Barbu escolheu escrever “uma poesia críptica, essencializada, imbuída de enigmas; poesia de iniciação”.*

Quanto aos “gélidos e belos” versos, o próprio poeta afirma, em entrevistas e cartas, querer, em suas “versificações”, emular os “estados absolutos do intelecto e da visão: o estado geométrico e, para além dele, o êxtase”.* “Nadir latente”* perdido no elevado candor do Conhecimento, a poesia barbiana é uma Odisseia em um mundo de Logos, sem no entanto excluir a emoção: “Todos reconheciam seu talento, mas não viam sua emoção e seu sentimento [Para os críticos da época] Barbu era um poeta de formas glaciais. Parnasianismo impassável. Confusão – uma confusão gerada pela delimitação da noção de emoção”.* A lírica barbiana é mais sutil, apartada dos „lamentos melódicos” de poetas comuns: “Emoções intelectuais também existem. Mas são raras e menos acessíveis. Portanto, mais preciosas”.* A palavra “flamejante e profética”, a “poesia preguiçosa”, o “banal reabilitado”* não fazem parte da fómula lírica de Barbu: “Há um nível de experiência poética no qual o verso se prova rigor e fervor, e não uma interjeição elaborada ou uma celebração mais ou menos harmoniosa”.* O eixo da poética de Barbu é um romantismo diferente, um romantismo gnosiológico… [PDF]