Metafísicas da (im)pureza: E.M. Cioran e Vladimir Jankélévitch

Deus só podia ser o fruto de nossa anemia: uma imagem vacilante e raquítica. É bom, suave, sublime, justo. Mas quem se reconhece nessa mistura com perfume de água de rosas exilada na transcendência? Um ser sem duplicidade não possui profundidade e mistério; não esconde nada. Só a impureza é sinal de realidade. […] Voltaremo-nos para o Diabo? Mas não saberíamos dirigir-lhe orações: adorá-lo seria rezar introspectivamente, rezar a nós. Não se reza à evidência: o exato não é objeto de culto. (Breviário de decomposição)

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Se buscas a pureza, se pretendes uma transparência interior, desiste sem demora de teus talentos, sai do circuito dos atos, coloca-te fora do humano, renuncia, para empregar o jargão piedoso, à “conversação das criaturas”… (História e utopia)

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Curiosamente, a maioria dos mortais se revelam inaptos ou renitentes a detectar os vícios, a constatá-los em si mesmos ou nos outros. É fácil fazer o mal: todo mundo o consegue; assumi-lo explicitamente, reconhecer sua inexorável realidade é, por outro lado, uma proeza insólita. Na prática, qualquer um pode rivalizar com o diabo; na teoria não ocorre o mesmo. Cometer horrores e conceber o horror são dois atos irredutíveis um ao outro: não há nada em comum entre o cinismo vivido e o cinismo abstrato. Desconfiemos dos que aderem a uma filosofia tranquilizadora, dos que creem no Bem e o erigem em ídolo; não teriam chegado a isso se, debruçados honestamente sobre si mesmos, tivessem sondado suas profundezas ou seus miasmas; mas aqueles poucos que tiveram a indiscrição ou a infelicidade de mergulhar até as profundidades de seu ser, conhecem bem o que é o homem: não poderão mais amá-lo, pois não amam mais a si próprios, embora continuem – e esse é seu castigo – mais apegados a seu eu do que antes… (História e utopia)

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O bem é o que foi ou o que será, mas  nunca o que é. Parasita da lembrança ou do pressentimento, consumado ou possível, não saberia ser atual nem subsistir por si mesmo: enquanto é, a consciência o ignora, ela só o apreende quando ele desaparece. Tudo prova a sua insubstancialidade; é uma grande força irreal, o princípio abortado desde o começo: desfalecimento, falha imemorial, cujos efeitos se mostram conforme a história se desenrola. (Le mauvais démiurge)

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A saúde é certamente um bem; mas àqueles que a possuem foi recusada a chance de se darem conta disso, pois uma saúde autoconsciente, se já não estiver comprometida, está prestes a tal. Como ninguém goza de sua ausência de enfermidades, pode-se falar sem exagero em uma justa punição dos saudáveis. (Do inconveniente de ter nascido)

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Todo aquele que se confunde com o que quer que seja mostra disposições mórbidas: não existe salvação nem saúde fora do ser puro, tão puro quanto o vazio. (Exercícios de admiração)

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A doença é uma realidade imensa, a propriedade essencial da vida; não apenas tudo o que vive, como também tudo o que é, está exposto a ela: a própria pedra está sujeita a ela. Apenas o vazio não está enfermo, mas, para ter acesso a ele, é preciso está-lo. Pois nenhuma pessoa sã poderia alcançá-lo. A saúde espera a enfermidade; apenas a enfermidade pode propiciar a negação saudável de si mesma. (Cahiers)

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Eu sou puro, eu  sou puro! Estas palavras que os defuntos do antigo Egípcio levavam como um viático para a grande viagem, estas palavras parecem antes uma protestação, ou à reivindicação de um estado de direito; estas palavras são feitas talvez para as múmias das necrópoles, mas nenhum vivente pode, de boa fé, pronunciá-las. Ninguém, com efeito, pode afirmar de si mesmo, e neste minuto mesmo: “Eu sou puro”, purus sum; mais precisamente, o adjetivo Puro não pode ser jamais o atributo de uma afirmação categórica na primeira pessoa do singular do indicativo presente, na primeira pessoa substancial do indicativo intemporal. Não, nenhum homem pode, sem reservas e sem humor, emitir sobre si mesmo, neste instante mesmo, um tal julgamento de valor; pelo menos não cabe ao sujeito que fala julgá-lo! Entendamos: há muitas outras qualidades ou excelências que o eu não pode atribuir-se a si mesmo; tais são o charme, a modéstia, o humor, e em geral todas as “naturezas simples” mais evanescentes, todas as perfeições que se fazem desaparecer ao florescerem, ainda que por um segundo, do fundo do pensamento; pois só existem no desconhecimento de si… Noutros termos, não é nunca o mesmo quem o é e quem o diz. Isto é comum à pureza e a todas essas frágeis excelências: a criança é a inocência mesma, ou a pureza substancial, mas por definição, ela não sabe nada; a criança é pura, mas não o sabe, e  é precisamente pura com a condição de ignorá-lo; o adulto consciente o saberia e mesmo não o saberia por mais que o fosse, mas justamente porque o sabe, ele não o é mais! Aquele que aprecia o valor  da pureza é, ele mesmo, ipso facto, impuro! Não é o caso de repetir como Angelus Silesius: o que eu sou, não sei; o que eu sei, não o sou. A profundidade do Ser e a unilateralidade do Saber parecem excluir-se. Por que é preciso que a consciência e a inocência sejam sempre separadas em duas cabeças? Pois é um fato que a inconsciência não é, por definição, jamais dada pelo inconsciente mesmo, mas pelo consciente que a reconstrói e a projeta na criança. Ora, a disjunção é ainda mais radical se é da pureza que se trata, e não mais da modéstia ou do charme. É ridículo dizer-se modesto, charmoso, inteligente ou espiritual — mas é impossível pretender-se puro: aqui, não é mais nossa complacência apenas que é suspeita, mas a afirmação mesma contraditória; quem se declara modesto sem deixar a outrem o cuidado de dizê-lo por ele, é seguramente um vaidoso e um bobo no ato pelo qual o declara e no instante do ímpeto, mas nada se opõe a que ele seja, de resto, muito fino e cheio de humor; não era a fraqueza natural da criatura, que digo? o modesto deveria mesmo poder dizer-se modesto sem absurdidade, com a condição de aprender sua própria virtude sem perder a cabeça… Puxa! Quem faz profissão de pureza ou se atribui o diploma de alma pura não perde momentaneamente sua própria excelência, mas prova por este fato mesmo que nunca foi puro; esta afirmação só teria sentido com a condição de ser absoluta e intemporal; e como se trata aqui do tudo ou nada da vida moral, a consciência que se toma da própria pureza aniquila o conteúdo mesmo do Purus sum e, suspendendo a pureza sobre um ponto, demonstra como nunca o seu nada. Pensemos nelas, com efeito: a modéstia e o humor são pequenas canduras imperceptivelmente qualificadas, pequenas transparências insensivelmente manchadas, pequenas brancuras muito levemente nuançadas ou coloridas, e consequentemente pequenas purezas menores já impalpavelmente impuras. Mas a pureza superlativa, que não se pode professar sem se contradizer, é uma brancura absolutamente incolor e uma transparência absolutamente diáfana; e não é a pureza unilateral de um homem que seria puro de tempos em tempos, em certos aspectos, sob tal ou tal ponto de vista, mas a pureza onilateral e sem comparação de um ser que seria puro absolutamente. Ora, não basta dizer: fazer profissão de pureza é, dialeticamente, deixar de ser o que se professa… para tornar a sê-lo, talvez, no instante seguinte quando já não se pensa mais nisso! Mas é preciso dizê-lo: a profissão de pureza é mais que um angelismo, é um contra-senso e uma impossibilidade radical, e essa impossibilidade, que exprimem sob diversas formas de pontos de vista as imposturas da primeira pessoa, é sem dúvida o fundamento metafísico da modéstia.

JANKÉLÉVITCH, Vladimir, Le pur et l’impur. Paris: Flammarion, 1960. Trad. de Rodrigo Inácio R. Sá Menezes.