Cahier de Talamanca, o caderno de Cioran escrito em Ibiza

Cioran tinha três pátrias: a da sua infância, a Romênia, a da sua língua, a França, e a da sua alma, a Espanha. Tornado por força de uma lucidez devastadora digno desse século das Luzes que ele amava tanto, ele permaneceu todavia sempre próximo do país cujos êxtases místicos e a noção de desengaño haviam embriagado a sua juventude: a Espanha. Uma paixão que, como a da música, impregna toda a sua obra desde o primeiro livro, Nos cumes do desespero, até os seus últimos ensaios.

“Um por um, eu amei e execrei inúmeros povos; jamais me veio à cabeça renegar o espanhol que eu gostaria de ser…”, escreve Cioran em Silogismos da amargura. A Espanha representa para ele, como confessa, “a emoção em estado puro” e, sobretudo, são os debates da Espanha com Deus que apaixonam esse filho de pope: “A Rússia e a Espanha: Duas nações grávidas de Deus. Outros países se contentam em conhecê-lo, mas não o carregam dentro de si.” Dentre os místicos espanhóis que ele frequenta como conhecedor, a que mais o atrai é certamente Teresa de Ávila, que aporta esse “ardor único da Espanha” e as tão deliciosas “impurezas da santidade feminina”, pois ela ousa “elevar até o céu a indiscrição do seu sexo” (Breviário de decomposição). Mas, ao lado dessa “aventura vertical” que é a mística, há uma outra chave de compreensão da alma espanhola que seduz Cioran: o desengaño, esse correlato barroco, rico em paradoxos, do désabusement do século XVIII francês. Numa entrevista com um jornalista espanhol em 1983, Cioran confessaria: “O que me atrai é o aspecto não europeu da Espanha, uma forma de melancolia permanente, […] Essa melancolia é um tipo de ennui refinado, o sentimento de um exílio irrevocável.” É em Valladolid, na Casa Cervantes, que Cioran teve a “revelação” dessa proeza nacional. “Uma senhora, de aparência insignificante, completava o retrato de Filipe III: ‘Um louco’, disse eu. Ela se virou para mim: ‘Foi com ele que começou a nossa decadência.'” Assim, então, pensava eu, a decadência na Espanha é um conceito corrente, nacional, um clichê, uma divisa oficial.” (A tentação de existir)

O apego de Cioran por este país, que suas numerosas viagens deviam reforçar, notadamente a Toledo, uma das suas cidades preferidas, era também literário. O sentimento trágico da vida, de Miguel de Unamuno, foi durante muito tempo o seu livro de cabeceira. E quando, em 1958, ele dirigiu de modo bastante efêmero uma coleção de ensaios na editora Plon, um dos primeiríssimos livros que fez publicar foi O espectador, de Ortega y Gasset, “farol e guia de toda uma geração”. Enfim, é após um encontro no Café de Flore com a filósofa e poetisa María Zambrano, “filha espiritual” de Ortega y Gasset, de quem ele traça um contundente retrato em Exercícios de admiração, e uma longa conversa com ela sobre a utopia e a idade de ouro, que Cioran escreveria, em 1960, História e utopia[+]