Os únicos que tiram as últimas consequências são os que vivem fora da arte. O suicídio, a santidade, o vício: outras tantas formas de falta de talento. Direta ou camuflada, a confissão pela palavra, pelo som ou pela cor detém a aglomeração de forças interiores e as debilita expulsando-as para o mundo exterior. É uma diminuição salutar que faz de todo ato de criação um fator de fuga. Mas aquele que acumula energias vive sob pressão, escravo de seus próprios excessos; nada o impede de naufragar no absoluto…

A verdadeira existência trágica não se encontra quase nunca entre os que sabem manejar as potências secretas que os oprimem; de tanto debilitar sua alma com sua obra, de onde extrairiam a energia para alcançar o limite dos atos? Tal herói realizou-se em uma modalidade soberba do morrer porque faltava-lhe a faculdade de extinguir-se progressivamente nos versos. Todo heroísmo expia – pelo gênio do coração – uma carência de talento, todo herói é um ser sem talento. E é esta deficiência que o projeta para a frente e o enriquece, enquanto que os que empobreceram com a criação sua fortuna de indizível são relegados, enquanto existências, a um segundo plano, embora seu espírito possa elevar-se acima de todos os outros.

Aquele se elimina do conjunto de seus semelhantes pelo convento ou por algum outro artifício: pela morfina, pelo onanismo ou pelo aperitivo, enquanto que uma forma de expressão poderia tê-lo salvo. Mas, sempre presente a si mesmo, perfeito depositário de suas reservas e de suas decepções, portando a soma de sua vida sem poder diminuí-la com os pretextos da arte, invadido por si mesmo, só pode ser total em seus gestos e resoluções, só pode tirar uma conclusão que o afete inteiramente; não saberia provar os extremos: afoga-se neles; e afoga-se realmente no vício, em Deus ou em seu próprio sangue, enquanto que as covardias da expressão o teriam feito recuar ante o supremo. Quem se exprime não age contra si mesmo; só conhece a tentação das últimas consequências. E o desertor não é quem as tira, mas o que se dissipa e se divulga por medo de que, entregue a si mesmo, se perca e desmorone.

CIORAN, E. M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.