“Fisionomia de um fracasso” (E.M. Cioran)

Sonhos monstruosos povoam as mercearias e as igrejas: nunca surpreendi ninguém que não vivesse no delírio. Como o menor desejo oculta uma fonte de insanidade, basta conformar-se ao instinto de conservação para merecer o asilo. A vida, acesso de loucura que sacode a matéria… Respiro: é o bastante para que me enclausurem. Incapaz de alcançar as claridades da morte, rastejo na sombra dos dias, e ainda existo somente pela vontade de deixar de existir.

Antigamente imaginava poder pulverizar o espaço com um murro, brincar com as estrelas, deter a duração ou manobrá-la segundo meus caprichos. Os grandes capitães pareciam-me grandes tímidos, os poetas, pobres balbuciantes; não conhecendo em absoluto a resistência que nos opõem as coisas, os homens e as palavras, e julgando sentir mais do que o universo permitia, entregava-me a um infinito suspeito, a uma cosmogonia surgida de uma puberdade incapaz de concluir… Como é fácil julgar-se um deus pelo coração, e como é difícil sê-lo pelo espírito! E com que quantidade de ilusões devo ter nascido para poder perder uma a cada dia! A vida é um milagre que a amargura destrói.

O intervalo que me separa de meu cadáver é uma ferida para mim; todavia, aspiro em vão às seduções da tumba: não podendo separar-me de nada, nem cessar de palpitar, tudo em mim assegura-me que os vermes permaneceriam inativos sobre meus instintos. Tão incompetente na vida como na morte, odeio-me, e neste ódio sonho com outra vida, com outra morte. E por haver querido ser um sábio como nunca houve outro, sou apenas um louco entre os loucos…

CIORAN, E. M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.