A expressão latina, na forma de interrogação, remonta a Sêneca, em sua carta XXIV a Lucílio: “Quosdam subit eadem faciendi videndique satietas et vitae non odium sed fastidium, in quod prolamibur ipsa inpellente philosophia, dum dicimus: ‘Quousque eadem? Nempe expergiscar dormiam, esuriam fastidiam, algebo aestuabo‘” [Os outros também são movidos por uma saciedade de fazer e ver as mesmas coisas, e não tanto por um ódio da vida quanto porque estão fartos de tudo isso. Nós deslizamos a esta condição, enquanto a filosofia nos empurra adiante, e dizemos: Até quando [devo suportar] as mesmas coisas? Devo continuar a acordar e a dormir, estar faminto e satisfeito, tremer e perspirar?]

Este aforismo final do Breviário de decomposição é uma referência implícita e uma homenagem ao grande poeta nacional romeno, Mihai Eminescu, com o seu poema Rugaciunea unui Dac [A oração de um Dácio]. Numa carta ao amigo romeno Marin Mincu, Cioran diz que “Quousque eadem?” é, “pelo tom e pela violência, muito vizinho aos excessos do Dácio”.

A Oração de um Dácio é a expressão exasperada, extrema, do nada valaco, de uma maldição sem precedentes, que afeta um canto do mundo sabotado pelos deuses. Esse Dácio, evidentemente, fala em seu próprio nome, mas a sua desolação tem raízes muito profundas para que se possa reduzi-lo a uma fatalidade individual. Na verdade, nós provimos sempre Dele, perpetuamos a sua amargura e a sua raiva, perpetuamente circundados pela nuvem dos seus fracassos. (carta a Marin Mincu)

Pelo que possui de eminesquiano, “Quousque eadem?” não carece de relação com o poema Psalmul leprosului [Salmo do Leproso], de Benjamin Fondane. Segundo Giovanni Rotiroti, “o Salmo do Leproso de Fondane tem indubitavelmente alguns pontos de contato com Rugaciunea unui dac, de Eminescu, como já havia notado Paul Celan, quando compunha, em Bucareste, primeiramente Tangoul Morții [O Tango da Morte] e, em seguida, a versão definitiva de Todesfuge [Fuga da Morte].” Rotiroti diz que, com Rugaciunea unui dac, estamos num outro plano, “o plano de uma desolação ancestral que Cioran diz ter herdado do fundo ancestral do povo romeno. Cioran sublinha o estatuto do dizer poético de Eminescu como absoluto, como a condição mais ‘original’, tragicamente existencial, das raízes demasiado profundas do nada valaco.”

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QUOUSQUE EADEM?

Que seja maldita para sempre a estrela sob a qual nasci, que nenhum céu queira protegê-la, que se disperse no espaço como uma poeira sem honra! E o instante traidor que me precipitou entre as criaturas, seja para sempre riscado das listas do tempo! Meus desejos já não podem pactuar com esta mescla de vida e de morte em que se avilta cotidianamente a eternidade. Cansado do futuro, atravessei os dias e, no entanto, estou atormentado pela intemperança de não sei que sede. Como um sábio raivoso, morto para o mundo e enfurecido contra ele, só invalido minhas ilusões para excitá-las melhor. Esta exasperação em um universo imprevisível – onde, entretanto, tudo se repete – não terá jamais um fim? Até quando repetir a si mesmo: “Execro esta vida que idolatro?” A nulidade de nossos delírios faz de nós todos semelhantes a deuses submissos a uma insípida fatalidade. Por que insurgir-nos ainda contra a simetria deste mundo, quando o próprio Caos não poderia ser outra coisa senão um sistema de desordens? Como nosso destino é apodrecer com os continentes e as estrelas, exibiremos, como doentes resignados, e até a conclusão das eras, a curiosidade por um desenlace previsto, medonho e vão.

CIORAN, E.M., Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

DI GENNARO, Antonio (org.), Cioran. Al di là della filosofia. Conversazioni su Benjamin Fondane. Milano/Udine: Mimesis Edizioni, 2014.

Mais: “E. M. Cioran. La plegaria de un dacio“, de Vasilica Cotofleac